O documentário “AmarElo: É Tudo Pra Ontem”, lançado pelo rapper Emicida, é um resgate do protagonismo afro-brasileiro.

Por Arthur Souza Miranda & Beatriz Mirelle

Não esperávamos passar 2020 dentro de nossas casas cercados pelas paredes e angústias da incerteza do dia seguinte. No caos de notícias sobre o coronavírus, testemunhamos o germinar de uma semente que foi plantada em 27 de novembro de 2019. Leandro Roque de Oliveira, o Emicida, se preparava para colher os frutos de “AmarElo: É Tudo Pra Ontem“, documentário lançado dia 8 de dezembro, na Netflix. O doc foi filmado durante o show de lançamento do álbum AmarElo, uma celebração dos sonhos daqueles que sempre foram invisibilizados e esquecidos pela sociedade mesclando a poesia do rap com funk, samba e rock.

“Exu matou um pássaro ontem com uma pedra que só jogou hoje”

Muito doido a gente pensar em quem veio antes da gente, quem trilhou o caminho, se aventurou no desconhecido e enfrentou os perigos do passado. Antes de citar qualquer trecho das músicas do álbum, é preciso falar das nossas estrelas históricas que contribuíram para que o show no Theatro Municipal de São Paulo pudesse ser realizado.

Logo no início, Emicida comenta um dos porquês de ter escolhido esse local. “Não tem uma viga, uma ponte, uma rua, um escritório, um prédio importante, que não tenha tido mão negra trabalhando para estar de pé hoje”. Essa motivação é mais do que suficiente para entender que, mesmo sendo uma cidade em que há uma recorrência gritante de homicídios de pessoas negras, São Paulo só é grandiosa tal qual é hoje porque pessoas pretas a construíram. De acordo com o relatório da Rede de Observatórios da Segurança de 2020, 63% dos mortos em ações da polícia militar do estado São Paulo eram negros.

Cenário de tantas histórias, o Theatro Municipal também é pano de fundo de enredos que nem chegaram a pisar naquele palco. Em junho de 1978, um grupo de ativistas se uniram na frente da escadaria que existe lá para protestar contra o racismo. Milton Barbosa, Regina Santos e José Adão foram alguns dos protagonistas da criação do Movimento Negro Unificado (MNU), que, em plena ditadura militar, lutava pela igualdade e a tão sonhada democracia racial. 

Dentre as conquistas do MNU, há a obrigatoriedade do ensino da história do continente africano e da cultura afro-brasileira nas escolas. Mesmo assim, apesar de ser lei, é exercida de forma extremamente insuficiente e rasa. Sendo fruto dessa fraca educação, ao pensarmos em todas as referências citadas no documentário, é importante perceber que muitas sequer são lembradas nas salas de aula.

Movimento Negro Unificado (MNU) em protesto no Theatro Municipal de São Paulo.
Fonte: Reprodução/MNU/Lei de acesso à informação.

Em 2019, quando veio para o Brasil, Angela Davis questionou os motivos dos brasileiros a endeusarem como símbolo do feminismo negro, sendo que temos referências como a antropóloga Lélia Gonzalez, participante do MNU. Refletir sobre isso nos faz analisar nosso complexo de vira-lata, esse sentimento de inferioridade que damos às produções nacionais. 

A potência de exaltar e estudar histórias como as dela nos guiam em momentos tão complicados como o que estamos vivendo, de negacionismo constante quanto ao racismo existente no Brasil ou sobre as mentalidades que insistem em acreditar no mito da democracia racial. Como diz o adinkra (símbolo) africano Sankofa, é necessário conhecer o nosso passado para mudar o nosso futuro. Nesse contexto, voltamos ao samba.

Lélia Gonzalez e Angela Davis nos Estados Unidos, em 1984. Fonte: Acervo Pessoal
“Eu não sinto que eu vim, eu sinto que eu voltei”

Essa visita aos ancestrais de Emicida faz uma combinação dos estilos musicais que sempre foram voz dos marginalizados, dos rebeldes e apaixonados. Nascido nas rodas de capoeira do Recôncavo Baiano no século XIX, o samba era refúgio para os afro-brasileiros comemorarem a própria cultura. Após a resolução da Lei Áurea (1888), que trouxe o fim do mercado legal de escravos no Brasil, os negros recém-libertos ainda enfrentavam a segregação, a falta de direitos fundamentais, como direito à moradia, trabalho e educação. As comunidades que se formavam, principalmente próximas às capitais das cidades, eram uma forma de garantir a sobrevivência cultural e existencial do povo negro. A partir de encontros em terreiros realizados pelas tias baianas – responsáveis por manter as práticas do candomblé no coração dessas comunidades, especialmente no Rio de Janeiro, capital da época – os nossos antepassados festejavam em rodas de samba, não muito diferente do que temos atualmente.

A poesia e energia do batuque, do pandeiro, do cavaco, foram criminalizadas até o início do século XX (por volta de 1920). Não muito distante da nossa realidade, em 2017, um projeto de lei feito por meio de uma petição com mais de 20 mil assinaturas buscava criminalizar o funk. Dentro desse histórico de preconceito com estilos musicais característicos de pessoas negras, Emicida narra os processos criativos das canções AmarElo como uma visita histórica nas raízes do samba, do funk, do rap e do trap. Na faixa “Quem Tem Um Amigo (Tem Tudo)” essa fusão é celebrada pela presença icônica de um dos maiores símbolos do samba, Zeca Pagodinho, pelo  jazz  do grupo musical japonês Tokyo Ska Paradise Orchestra e no cavaco, pandeiro e coro das vozes da dupla de irmãos Magno de Oliveira Souza e Maurílio de Oliveira, os Prettos. Assim como a música, uma parte do documentário é dedicada para homenagear o baterista Wilson das Neves (1936-2017), “o abominável homem das neves”, um dos sambistas mais renomados da história brasileira, que já colaborou com Emicida em “Trepadeira” do álbum Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui (2013). Esse elogio e agradecimento ao passado, presente ao longo de todo o filme, porém o rapper não deixa de colocar o dedo na ferida.

Legenda: Wilson das Neves, baterista, sambista e um amigo. Fonte: Wikimedia Commons
“Eles não aguentam te ver livre, imagina te ver rei”

A marginalização desses estilos é um fruto inegável do racismo. Presos em estigmas de vadiagem, criminalidade e objetificação, os processos para a população preta construir um legado de glória ainda é muito trabalhoso. Mesmo assim, os Oito Batutas, Wilson das Neves, Dona Ivone Lara são nomes que conseguiram romper com esses destinos impostos.

Para além da música, as faltas de oportunidades e notoriedade se alastram em todas as áreas. Em uma entrevista dada a Mali Garcia em 1989, Lélia Gonzalez reflete como esses esteriótipos delegados aos negros afetam as mulheres. Ao pensar nas carreiras de Ruth de Souza, Zezé Motta, Chica Xavier, entre outras atrizes, a antropóloga ressalta que, apesar do talento, há uma disparidade no tratamento com os brancos. Até hoje, nas novelas, notamos que pretos geralmente representam personagens como seguranças, diaristas, porteiros, que, obviamente, são trabalhos tão dignos quanto outros, mas tornam ainda mais perceptível a construção que a mídia reforça entre servidão e ser negro.

Na canção “Ismália“, com nome que faz referência ao poema do escritor brasileiro Alphonsus de Guimaraens, Emicida aborda essa limitação, o sentimento de insuficiência e uma felicidade que se torna incompleta com tantos entraves. Em menos de seis minutos, ele perpassa por temas como violência policial, intolerância religiosa, a luta por um diploma, que, de fato, se torna uma batalha, porque, assim como outras instituições da sociedade, a faculdade é um lugar que põe em xeque a todo momento a capacidade que nós temos para lidar com o racismo, entre outras pautas.

No livro Tornar-se Negro, a autora Neuza Souza comenta como essa constante discriminação  afeta a saúde mental dos não-brancos. “O preconceito de cor se configurava não só em obstáculos à ascensão, como redundavam em verdadeiros danos à sua imagem, conduzindo-o a avaliações autodepreciativas” (1983, p. 22).  Como o próprio Leandro diz, “ela quis ser chamada de morena, que isso camufla o abismo entre si e a humanidade plena”. Ou seja, ao absorvermos todas as narrativas negativas de o que é ser negro, somos fadados a passar anos tentando reconstruir a própria autoestima e história.

“É tudo pra ontem”

Nenhum de nós dois, autores desta resenha, conseguimos ir no show do Theatro Municipal. Logo que abriram as vendas estava tudo esgotado. Em menos de duas semanas de lançamento, o álbum AmarElo ultrapassava a marca de 15 milhões de ouvintes e logo depois sairia das plataformas de streaming para o lugar que foi palco da Semana de Arte Moderna em 1922. Com isso, Emicida levou para pessoas de gerações distintas um espetáculo de revolução através da luta e do afeto destinado especialmente para negros, negras e negres. Tal feito só foi possível porque outros abriram os espaços para que nós pudéssemos correr pelos nossos sonhos. 

A data da estreia do documentário, o dia 08 de dezembro, para as religiões de matriz africana representa o dia de Oxum, entidade que simboliza o amor e nos ensina a ponderar nossas emoções para que possamos trilhar o nosso caminho de forma próspera. Entretanto, também marca mil dias sem resposta sobre os assassinatos da vereadora Marielle Franco e do segurança Anderson Gomes. Pensando nesses extremos, nós, pessoas pretas, precisamos entender que, apesar de estarmos conscientes sobre a nossa origem, a emancipação que realmente desejamos alcançar é uma batalha que está longe de terminar e deve ser travada diariamente.