Dez anos após seu fim, o ISIS e a sonoridade criada por eles ainda continuam a ecoar pelo mundo. A cada novo álbum lançado no mundo do Rock, artistas das mais variadas bandas ainda incorporam em suas composições o peso e profundidade que, durante mais de uma década, foi difundido e aperfeiçoado por aqueles cinco caras de Los Angeles.

Fundado em 1997, o ISIS teve um árduo caminho a percorrer até chegar ao status pelo qual é conhecido hoje. Foram mais de três anos, entre pequenos lançamentos e um modesto crescimento na cena underground, até que, na virada do milênio, o primeiro álbum de estúdio da banda viu a luz do dia. Celestial chegou às lojas em abril do ano 2000 e representava todo o aprendizado do grupo até aquele momento. O disco finalmente trouxe o reconhecimento nacional ao ISIS, que a partir dali começaria a atrair cada vez mais atenção.

Já em 2002, recém contratados pela gravadora Ipecac, com três EP’s e um álbum de estúdio na bagagem, aquele era o momento perfeito para que o ISIS começasse a se distanciar da sonoridade extremamente abrasiva de seus primeiros lançamentos, que inevitavelmente ainda soavam levemente similares às bandas que os influenciaram. O frontman Aaron Turner, responsável pela parte conceitual de todos os trabalhos do ISIS, passou a trazer temas mais profundos e obscuros para as composições da banda, que passou a trabalhar ao redor daquelas ideias. O que ninguém poderia prever, é que aquele novo estilo de composição seria o embrião de uma das identidades sonoras mais inspiradoras e inigualáveis da história da música.

Com os álbuns Oceanic e Panopticon, de 2002 e 2004 respectivamente, o ISIS foi responsável pela difusão e popularização do Post-Metal, além de terem criado, de um jeito único, uma sonoridade completamente nova dentro de um subgênero já existente. Faixas como “From Sinking”, “The Other” e “Hym”, presentes em Oceanic, são exemplos perfeitos da genialidade da banda, mesclando peso e distorção com progressões magníficas e estruturas muito bem elaboradas, conseguindo o grande feito de criar músicas longas, que se esquivam o tempo todo de cair no limbo da monotonia, encaixando seções completamente distintas em uma única composição e, de forma impecável, mantendo a harmonia entre cada uma delas. “So Did We”, “Backlit” e “Grinning Mouths”, presentes em Panopticon, demonstram a maestria da banda ao equilibrar seções pesadas e enérgicas, ao mesmo tempo que incorporavam partes melódicas e profundas às canções, dando a elas um leque praticamente interminável de nuances a serem descobertas e interpretadas pelos ouvintes, o que acabaria por se tornar uma das características mais marcantes e fascinantes da banda.

No experimental In The Absence Of Truth lançado em 2006, já era possível perceber um leve desgaste no som da banda, que não apresentava grande evolução em relação ao álbum anterior e, em alguns momentos, soava mais como uma continuação do mesmo, como em “Holy Tears”. Ainda assim, o trabalho trouxe alguns aprimoramentos na sonoridade do ISIS, como Aaron Turner experimentando vocais limpos, ao invés de seus gritos habituais, e Aaron Harris tocando de forma mais percussiva, incorporando mais os tons da bateria e seguindo linhas bem menos previsíveis. O álbum também ficou marcado pelo grande destaque dado ao baixo de Jeff Caxide, especialmente em faixas como “Not In Rivers, But In Drops” e “1,000 Shards”, que, não por acaso, estão entre as melhores composições desse disco.

Em 2009, o lançamento de Wavering Radiant trouxe aquelas que seriam as últimas composições da carreira do ISIS. Por conta da enorme ênfase da banda na parte da produção, o álbum apresentou um som muito mais cru e direto que todos os trabalhos anteriores, distanciando-se da atmosfera flutuante presente em Oceanic e In The Absence Of Truth, e também da profundidade presente em Panopticon. Como um sinal de que o interesse dos membros no projeto já não era mais o mesmo, o conceito de Wavering Radiant é muito mais raso que o de seus antecessores, de modo que o torna difícil de ser identificado logo de cara. Das sete faixas do álbum, apenas “Hall Of The Dead” e “Stone To Wake A Serpent” apresentam algo de marcante, a primeira pelo retorno à aclamada estrutura “heavy-soft-heavy” que tanto fez a cabeça dos fãs da banda, e a última por ser a única composição realmente inovadora de todo o disco, com seções extremamente diferentes e até distantes umas das outras, mas que ainda assim ‘conversam’ entre si e se provam partes fundamentais de um mesmo conjunto.

Pouco mais de um ano após o lançamento de Wavering Radiant, em junho de 2010 o ISIS anunciava seu fim.

A Influência

Com o lançamento de Oceanic em 2002, é dito que o ISIS criou e aperfeiçoou o gênero post-metal, que dali em diante criaria uma onda de influência que ecoou pelo mundo inteiro, desde a terra natal da banda nos EUA até a Europa, chegando até mesmo ao Brasil. Bandas já veteranas como o Neurosis e o Tool, originalmente citadas por Aaron Turner como grandes influências, viram suas composições se assemelharem cada vez mais ao ISIS após os lançamentos de Oceanic e Panopticon.

Os suecos do Cult Of Luna e os finlandeses do Callisto se mostraram fortemente inspirados pelo lado mais pesado do ISIS (mais presente em Panopticon e Wavering Radiant), algo que perdura até seus álbuns mais recentes, assim como aconteceu com os norte-americanos do Pelican, que em Nighttime Stories (2019) também trouxeram composições que deixam bem claro de qual fonte a banda andou bebendo.

Outras bandas, de fora da cena post-metal, também já se mostraram, declaradamente ou não, inspiradas por essa mesma sonoridade, entre elas o Deftones, cujo líder Chino Moreno, fã assumido do ISIS, se juntaria com três membros remanescentes da banda, Aaron Harris, Jeff Caxide e Bryant Clifford Meyer, e formaria o Palms, que explora horizontes não tão distantes da velha sonoridade post-metal, mas incorpora elementos mais melódicos e mais próximos do rock alternativo.

Depois do Fim

Mais de dez anos após sua dissolução, o som do ISIS continua por inspirar centenas de bandas ao redor do mundo, mas até hoje, absolutamente ninguém conseguiu imitar ou ao menos chegar perto do ápice atingido por eles em Oceanic e Panopticon, deixando assim um vazio aos fãs, que continuam a clamar por uma reunião que, com a exceção de um único show em 2018, nunca aconteceu e não dá sequer sinais de que um dia irá.

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