É inegável o poder que a música teve, tem e sempre terá na cabeça de quem escuta. São diversas a formar de transmitir um pensamento ou ideia, e a música é, sem dúvidas, a maneira mais ativa e “fácil” para isto. Muitos artistas tem esse poder de passar suas ideologias por meio de canções, seja para agradar ou não quem escuta. Dentre estes artistas, pode-se dizer que uma das bandas mais conhecidas por suas letras e formas de transmitir a mensagem é, sem dúvidas, o Rage Against The Machine.

Formada em 1991 por Zack de la Rocha (vocalista), Tom Morello (guitarrista), Tim Commerford (baixista) e Brad Wilk (baterista), a banda californiana chegou chutando completamente tudo de cara na década de 90 com sua forma agressiva e única de composições, misturando gêneros como rap metal, rap rock, funk metal, metal alternativo e hard rock, com influências claras em bandas como Led Zeppelin, Red Hot Chili Peppers, Public Enemy, Ozzy Osbourne, entre várias outras. Mas muito além disso, o que mais chamou atenção no grupo foram suas letras, focadas em visões revolucionárias na política, principalmente norte-americana.

Independente do cunho político de cada um, é totalmente respeitável o que o Rage Against The Machine produziu durante seu tempo junto (se reuniram após oito anos, em 2019, para mais uma turnê) em questões líricas. A banda é conhecida por ter um pensamento esquerdista e que preza bastante ao Antiautoritarismo, movimento que consiste no combate total a qualquer tipo de hierarquia imposta ou a qualquer domínio de uma pessoa sobre a outra, defendendo uma sociedade baseada na igualdade e no valor supremo da liberdade.

Estou interessado em divulgar essas ideias através da arte, porque a música tem o poder de cruzar fronteiras, romper cercos militares e estabelecer diálogos reais – Zack de la Rocha

O mais importante de se destacar aqui é que o RATM sempre foi bastante ativista nas suas lutas, seja liricamente nos seus discos produzidos ou durante shows, como forma de protesto. Um exemplo disso foi o acontecimento no Lollapalooza 1993, quando os integrantes entraram sem os instrumentos, completamente nus, com apenas adesivos na boca e formando a sigla “PMRC“, Parents Music Resource Center, que foi uma empresa que tinha como objetivo “avaliar” canções populares que teriam conteúdo inadequado para jovens da época. A banda ficou 15 minutos parados e isso, depois de cinco minutos, incomodou o público, que começou a vaiar. Algum tempo depois, eles fizeram um show gratuito para os fãs que ficaram decepcionados.

Como o título bem sugere, o Rage Against The Machine foi muito mais que uma banda, mas sim um movimento. Muito além de criar resistência ao sistema por meio das suas canções, os integrantes estavam constantemente presentes em protestos políticos com ideologias que condiziam, e ainda condizem, com sua personalidade. Suas causas tão ativistas e que chamavam atenção, até porque a banda nunca teve medo do sistema capitalista norte-americano, formaram o caráter de muitos fãs, principalmente os mais jovens, que ainda estavam entendendo tudo que acontecia na política. Essa foi a principal razão do RATM repudiar fortemente as empresas que tentavam censurar suas músicas, como a PMRC.

Uma das críticas feitas a banda foi em relação a certa hipocrisia por ter uma ideologia mais conservadora e que luta contra as injustiças do capitalismo, mas assina contratos milionários com gravadoras. Segundo Tom Morello e Zack de la Rocha, quando se vive numa sociedade capitalista, a moeda da disseminação da informação passa pelos canais capitalistas. Para eles, é uma forma de transmitir suas ideias no sistema que é aplicado, ou seja, assim como eles se sentem confortáveis tocando para anarquistas em prédios abandonados, também é ótimo poder alcançar pessoas com uma mensagem revolucionária.

O que a banda nunca deixou para trás nas suas composições foram as várias vertentes líricas como forma de protesto. Todos os discos tem canções poderosas para quem escuta. O disco homônimo, primeiro da banda, por exemplo, tem a espetacular e autoexplicativa “Freedom” (“liberdade” em português), “Take the Power Back” e sua luta contra o sistema, além das clássicas “Killing In the Name” e “Bullet In the Head“. O segundo álbum, “Evil Empire“, também contém faixas impactantes, como a genial “Bulls On Parade” e sua crítica ao governo americano por criar um muro entre Estados Unidos e México, além de “People of the Sun” e “Revolver“. É um disco que foca bastante em questões de colonialismo e lutas de povos.

Por fim, outro disco totalmente aclamado, e o último produzido pela banda (“Renegades” é álbum de covers), é o fantástico “The Battle of Los Angeles“. São várias as canções para se destacar liricamente, mas o destaque fica para “Testify“, música que foca nas “doenças” da sociedade e como controlar seu passado, presente e futuro, “Calm Like A Bomb” e suas questões expansionistas, com até menção ao revolucionário Emiliano Zapata, e a genial “Sleep Now in the Fire“, uma aula de crítica a humanidade em questões colonialistas e capitalistas. O próprio clipe fala por si só.

Sem sombra de dúvidas, o RATM, mesmo que com “pouco tempo” de banda, é um dos grupos de maior representatividade da história do rock. Quando falamos que eles são realmente um movimento, não é por menos. Além de serem únicos musicalmente, as letras são uma arma poderosa na luta de pessoas com ideologias semelhantes, que veem uma banda histórica compartilhando de pensamentos gigantes e representativos contra o sistema capitalista. A chance de termos novas produções da banda é bem pequena, mas, de qualquer forma, o Rage Against The Machine estará sempre marcado na história da música.