Duo foi responsável por ditar os caminhos e destinos da música pop e eletrônica no novo milênio; com o anúncio de sua separação, fica o questionamento: será que um dia alguém voltará a ter uma postura tão punk quanto dois engenhosos, corajosos e visionários garotos franceses?
Por Marcelo Izzo Junior

No final de fevereiro o duo francês de música eletrônica Daft Punk anunciou sua separação após 28 anos de carreira, notícia esta que surpreendeu e chocou a grande massa através das redes sociais e portais. A dupla mundialmente famosa sempre passou longos períodos em “hiatos” e era conhecida por não possuir uma agenda contínua de shows e turnês, participando majoritariamente de eventos esporádicos e aparecendo na mídia durante o período de divulgação promocional de seus lançamentos, como o último e tão aclamado Random Access Memories, de 2013. Desta forma, o anúncio foi inesperado para a maioria do público e coincidentemente veio à tona no último dia 22, faltando pouco menos de um mês para que seu segundo disco, Discovery, complete 20 anos de existência. O álbum, lançado em 13 de março de 2001, se tornou um marco não somente na carreira da dupla mas também definiu a sonoridade do começo do milênio e influenciou direta e indiretamente a carreira de artistas da música eletrônica e do pop mainstream que viriam a lançar novos projetos durante as seguintes décadas.

Formado por Thomas Bangalter e “Guy-Manuel” de Homem-Christo em Paris no ano de 1993, o Daft Punk iniciou o seu período de atividade após uma experiência não tão bem sucedida com sua ex-banda de indie / punk rock Darlin pouco tempo antes. Neste projeto, eles foram capazes de lançar algumas de suas canções através de uma compilação em um selo independente inglês chamado Duophonic que continha, também, artistas como Stereolab, Huggy Bear e outros. O nome da dupla é originado justamente por conta de uma crítica negativa em um artigo da extinta Melody Maker em relação às faixas contidas no EP, clássificadas como “daft punky trash” (em tradução livre algo semelhante à “tocarem como um bando de punks ridículos”), fazendo com que após o desmantelamento do Darlin, a dupla “adotasse” o nome Daft Punk como uma espécie de “homenagem” à review anteriormente recebida. É aí que o feitiço vira contra o feiticeiro…

Miojo Indie on Twitter: "Acho tão engraçado encontrar fotos do Daft Punk  sem máscara com tanta facilidade hoje em dia. Nos anos 2000 isso era um  mistério. Guy-Manuel de Homem-Christo e Thomas
(Rara imagem da dupla francesa sem os conhecidos capacetes retrofuturistas)


O duo mergulhou de cabeça na experimentação musical regada à aparelhos eletrônicos, drum machines, sintetizadores e talking boxes, iniciando e inserindo-se dentro do movimento french house abrindo shows para artistas da época, como os britânicos do The Chemical Brothers, o que garantiu após o lançamento do single “Da Funk” (1995) pela Soma Quality Recordings a preparação do terreno para o que viria a se tornar um dos maiores fenômenos da música contemporânea.

No final de 1996, após uma guerra entre diversos selos numa espécie de “corrida armamentista”, o Daft Punk já estava no radar da mídia e finalmente assinava um contrato com a Virgin Records (do influente Richard Branson) que tem em seu currículo nomes como David Bowie, Alice In Chains, Mariah Carey, Phill Collins, The Cult, Culture Club, Lenny Kravitz, Spice Girls, Ben Harper, Janet Jackson e até mesmo os Rolling Stones, entre diversos outros artistas. Através dela, os franceses lançaram no ano seguinte seu álbum de estreia Homework, que garantiu o espaço da dupla no mercado e presenteou o público com os clássicos “Da Funk” (lançado previamente como single) e “Around The World” recebendo um feedback positivo dos fãs e da crítica.

Fugindo um pouco da sonoridade do french house apresentado no debut, a dupla apostou em uma direção mais popular e comercial da música eletrônica aliada aos já conhecidos gêneros musicais e samples de nomes clássicos do pop, rock, disco, soul e R&B de meados dos anos 70 e 80 assim como Electric Light Orchestra, The Alan Parsons Project, Barry Manilow, George Duke, Tavares, Sister Sledge, entre outros. Definido pelos mesmos como um álbum conceito que remetia às origens sonoras de suas infâncias, Discovery foi concebido como uma celebração à arte e ao apreço genuíno e inocente pela música, sem restrições.

Abrindo com “One More Time“, o álbum soa como um poema de gratidão nostálgica embalada por um hino catchy com melodia cativante, feito para as pistas de dança num mundo em que a sociedade se transforma cada vez mais rápido, mergulhando num buraco negro de tecnologia de forma irreversível, que anseia desesperadamente por mais uma chance de curtir o momento como se fosse o último de suas vidas.

Com controle criativo irrestrito por parte da dupla, Discovery foi responsável pela definição das personas robóticas e icônicas que deram “identidade e vida” ao alter ego enigmático dos seus criadores, de forma similar ao que artistas como Alice Cooper e (principalmente) Kiss fizeram muitos anos antes. O Daft Punk influenciou e abriu portas na música contemporânea para artistas que também adotaram personas e fantasias como forma de expressão após a virada do milênio, entre eles os DJs Deadmau5 e Marshmello, as bandas Gorillaz e Ghost B.C., a cantora Sia e até mesmo os brasileiros do Manimal, projeto de música eletrônica de Junior Lima e Julio Torres.

Reprodução: EDMSauce – Marshmello (esq.) e Deadmau5 (dir.)

Com sonoridade eletrônica mesclada aos elementos ditos previamente, o Daft Punk adiciona uma estética futurista (e robótica) à um trabalho que se mantém fresco e não datado mesmo após vinte anos de existência.

Durante o processo de produção do álbum, a dupla começou a trabalhar num longa-metragem ao lado de Leiji Matsumoto, que serviria posteriormente como a realização visual de Discovery. Sem diálogos, Interstella 5555: The 5tory of the 5ecret 5tar 5ystem conta a história de uma banda intergaláctica sequestrada por humanóides numa mistura de ficção científica e cultura pop onde o álbum serve como trilha sonora e faz todo o storytelling do conto. Após três anos de produção, o projeto foi finalmente lançado em 2003, indo ao ar na TV paga através dos canais da MTV e Cartoon Network, atingindo inclusive o público infanto-juvenil que, conforme o passar dos anos, tornou-se grande parte da fanbase do grupo. O longa foi relançado em mídia blu-ray em 2011, marcando os dez anos de lançamento do álbum.

Daft Punk Unmasked - 30 Facts You Didn't Know | NME
(Reprodução: Material promocional de ‘Discovery’ / 2001)

O Daft Punk é primordialmente o ponto de ignição que fez da música eletrônica, algo underground, tornar-se um fenômeno dominante do mainstream no novo milênio, influênciando grandes nomes que viriam a surgir algum tempo depois, como o também francês David Guetta, Skrillex, Avicii, o brasileiro Alok, e os próprios Deadmau5 e Marshmello, citados anteriormente. O duo revolucionou a música dos anos 2000 misturando o que faziam de melhor com suas maiores influências. O resultado são faixas memoráveis como “Harder, Better, Faster, Stronger” que possui forte influência da música disco e foi inclusive sampleada em “Stronger” do rapper e produtor Kanye West, hit originalmente lançado em 2007.

Entre o pop e o eletrônico, Discovery, em si, assim como a maior parte da carreira dos franceses, é responsável também pela onda revival da disco music e dos primeiros passos mainstreams da synthwave, subgêneros que ganharam atenção de artistas contemporâneos adquirindo uma receptividade positiva numa maneira generalizada da crítica e do público na segunda década do século XXI. Para mencionar apenas alguns dos influentes nomes da indústria que também beberam das mesmas fontes, Tame Impala, Lady Gaga, The Weeknd, Dua Lipa e Bruno Mars já “arriscaram” flertar com os estilos e gêneros citados, obtendo resultados expressivos entre o groove incessante das graves linhas de baixo aos refrões pegajosos e acessíveis embalados por severas camadas de sintetizadores.

Os sucessos mais sólidos do projeto (e talvez da carreira da dupla) são basicamente da primeira metade do álbum: “Aerodynamic“, “Digital Love“, “Harder, Better, Faster, Stronger” e “Crescendolls“, além da faixa de abertura – que é um dos maiores hits da dupla até hoje (talvez num empate técnico com “Da Funk” – do álbum de estreia – e “Get Lucky” – do último lançamento, RAM, de 2013). Definitivamente, essas são parte da melhor safra dos músicos, entretanto, uma faixa “obscura” que surpreende é “Face to Face”, devido os inúmeros samples de canções diferentes formando uma faixa única e homogênea, tarefa árdua que somente o mais alto escalão de DJs / produtores conseguiria conduzir com tanta maestria.
Aos ouvidos desatentos, a segunda metade do álbum pode até não soar tão memorável quanto a primeira parte desta obra-prima mas complementa e preenche o trabalho de forma pontual, como em “Nightvision“, uma faixa de transição que soa como o batimento cardíaco das galáxias. Já “Superheroes” tem em seu código genético uma fórmula ascendente que poderia servir de trilha sonora de um videogame ou como base do DNA de hits como “Hung Up” da rainha do pop Madonna, lançada em 2005 e que também contém o sample de “Gimme! Gimme! Gimme! (A Man After Midnight)” do icônico grupo sueco ABBA.

“Something About Us”, outro clássico do Daft Punk é apresentado como um disco/R&B predecessor de faixas como “The Game Of Love”, do seu irmão mais novo e mais orgânico Random Access Memories. “Voyager” no entanto, preencheria de forma esplêndida o lounge sofisticado de um evento de moda da alta sociedade, assim como “Veridis Quo”, faixa instrumental com aspecto futurista que pode se relacionar com os trocadilhos entre “very disco” e “Discovery”, além da expressão em latim “Quo Vadis?” que significa “Para onde vais?”.

De forma atemporal, a arte da capa clássica apresenta o nome dos franceses numa espécie de tipografia cromada, muito similar à solda líquida, facilmente reconhecível mesmo em meio à outros discos ou à metros de distância. Com 14 faixas, a versão do LP foi lançada em capa gatefold (capa dupla) contendo vinil duplo além do material físico como encartes e fotos.

Daft Punk - Discovery - Amazon.com Music
Reprodução: “Discovery” artwork (2001)

Daft Punk pode não ter “inventado a roda” no significado mais cru da expressão em relação ao seu segundo trabalho, mas até hoje, Discovery é listado como um dos álbuns mais influentes não só da carreira do duo mas também da música eletrônica e do pop mundial. É inegável que este disco além de abrir as portas e servir como “o caminho das pedras” para muitos dos novos artistas, moldou e embalou uma geração de novas mentes criativas, convidando acima de tudo à experimentação. Segundo a própria dupla, o trabalho marca também a independência criativa do Daft Punk, o que significa liberdade. E liberdade é onde as mentes criativas e os artistas devem se estabelecer e firmar sua fundação.

Se por um lado a notícia da separação cortou o coração de grande parte do público, um sentimento que fica (e que cresce ao longo do tempo) é a felicidade em poder viver um período de prosperidade artística, de presenciar uma manifestação tão importante e de poder reviver, redescobrir esta odisseia – talvez de uma forma até mais profunda e poética do que foi quando lançada há vinte anos -, afinal, o tempo vai, se esgota, mas o legado é imortal.

1993 – 2021

OUÇA:
LEIA MAIS: