Em ‘Life In Your Glass World’, a banda explora um novo caminho sonoro, sem abrir mão de suas raízes.

Antes de mais nada, há uma frase bem popular da Meredith Grey, da série Grey’s Anatomy que diz: “Por bem ou por mal, encontramos maneiras de superar nossa biologia. O risco, claro, é mudarmos demais a ponto de não nos reconhecermos. Encontrar o caminho de volta pode ser difícil.” Em outras palavras, trazendo mais pra linguagem musical do que para o mundo cinéfilo, nos últimos anos vimos diversas bandas do emo e pop punk indo para um caminho pop/eletrônico, que rendeu muito material igual após o lançamento de “amo” de Bring Me The Horizon.

Entretanto, muitas bandas adotaram este estilo musical, não de modo genuíno, mas por motivos de que parecia o caminho mais fácil para a popularização no mainstream. Só que ao dar esse tiro extremamente distante, diversos grupos deste nicho musical perderam muito a familiarização com seu público conquistado! Obviamente, conquistaram novos fãs também, mas será que vale a pena esse “cobertor curto”!?

Com o seu recém lançado “Life In Your Glass World”, a banda Citizen, que passou por algumas reformulações desde o seu último álbum lançado em 2017, traz uma atmosfera sonora densa e bastante enérgica, mostrando que é sim possível invadir novos terrenos, usufruir da criatividade e das tendências, sem perder a sua essência. Até mesmo para os fãs mais antigos e obstinados da banda, a transformação sonora foi uma grata surpresa frente a tudo que já foi feito em sua discografia até hoje.

Citizen Life In Your Class World
Foto: @citizentheband

Em Death Dance Approximately o grupo abre alas com uma introdução poderosa e cheia de suspense, que prende até mesmo os mais distraídos ouvintes. Juntamente com uma pegada bastante indie-rock e o vocal intenso de Mat Kerekes, a música te leva para diversos universos sonoros em apenas 4 minutos. Uma mistura intensa que tem em seu clímax uma baladinha dançante, e a companhia de riffs de guitarra e uma bateria bastante destacada em conjunto.

E pegando embalo nos rudimentos do ex-baterista da banda, Jake Duhaime -sim, ele não está mais na banda-, temos um dos singles que foi liberado antecipadamente ao álbum, I Want To Kill You. Nesta track que vai ganhando cada vez mais intensidade instrumental e energia a cada minuto, a banda traz uma sensação muito empolgante e inspiradora, um caminho muito oposto ao que o título da música e a letra transparecem oferecer, e uma faceta totalmente nova a outros sons do grupo. Surpreendentemente, esta música do Citizen é uma ótima escolha para estar na sua playlist de malhar, e o clipe abaixo feito pela banda comprova isso.

Assim como a música anterior, Blue Sunday também foi lançada como de modo antecipado ao álbum completo, sendo a track com mais cara de single para se popularizar fora da bolha do rock. Com um groove extremamente dançante e elegante, e os vocais distorcidos de Mat, que navegam entre a suavidade e a intensidade, a música deixa escrachado o potencial do Citizen de se reinventar, além do talento já reconhecido.

Em Thin Air é um dos únicos momentos em que a banda tenha exagerado na dose do indie rock, trazendo nada mais do mesmo que o gênero já oferece com diversas outras bandas bem populares. Já em Call Your Bluff, a banda continuou explorando o campo do indie rock, seguindo um caminho bem semelhante aos maiores sucessos do The Killers. Nesta canção, o trio trabalha um instrumental bem acelerado, enérgico e sensual, algo bem pouco explorado na sonoridade do Citizen até hoje, mas que logo nas primeiras tentativas, já rendeu uma ótima track. Assim como I Want To Kill You, esta é mais uma música que pode entrar na sua playlist de treinos para momentos que você precisa de um impulso de energia.

Em Pedestal talvez seja a canção que traz de modo mais perceptível, como a banda conseguiu manter sua identidade e trazer reinvenção sonora ao mesmo tempo, principalmente no pré-refrão e também no refrão com uma sonoridade mais pesada, e bateria bem acentuada, como as canções Ten e Stain. Porém, quando se pensa na discografia e história do Citizen, a maior surpresa extremamente positiva do álbum é Fight Beat, que carrega uma atmosfera totalmente retrô music, trazendo um baixo gritante, muito acentuado, e cheio de groove, em conjunto com sintetizador totalmente psicodélico. É nesta canção que a banda mostra toda sua riqueza de talento, adaptação à modernidade, e também um poder de reinvenção.

Apenas quando chega Black and Red que percebemos um pouco da saturação da sonoridade indie rock explorada no álbum ao utilizar um baixo mais pesado com guitarras e baterias aceleradas, algo que lembra muito diversas músicas da banda Phoenix. Porém tudo retorna a melhorar em Glass World, quando a banda entrega uma grata surpresa com uma canção acústica e instrumental bem limpos, cadência lenta, totalmente sentimental, sincera e confessional, aproximando os fãs assíduos de mensagens e sentimentos íntimos que a banda sempre despertou em diversas canções de sua discografia.

Já em Winter Buds temos algo mais intimista e sereno, com instrumentos e vozes extremamente frios, leves, e que do início ao fim acautelam o coração. Por quase nenhum momento a música ganha uma enorme intensidade, mesmo sendo a mais longa do álbum. É perceptível nos pequenos detalhes que nela, é preciso que o discurso de Mat Kerekes necessita de atenção, e por isso ganha a frente da canção. Cadenciado por uma bateria extremamente leve que retumba junto a sua confissão no refrão, o vocalista questiona-se constantemente se tudo que oferece é mesmo suficiente a quem está dedicando suas emoções e seu amor.

Por fim, o álbum se encerra com a excelente canção de Edge Of The World, mostrando que o Citizen abraçou com muita confiança o rock popular. E mesmo com uma letra que demonstra imensas vulnerabilidades, o instrumental segue para um caminho bastante oposto, exalando uma energia de esperança tremenda através de todos os seus instrumentais, e que faz com que a música ganhe um harmonioso contraste de sentimentos. Podemos dizer que esta música é extremamente representativa, pois em tempos caóticos que estamos vivendo, manter a esperança, por mínimo que seja, é a única saída que temos.

9,2/10