Como machismo, racismo e xenofobia potencializaram um dos maiores mitos da história da banda

No dia 20 de março de 1969, John Lennon e Yoko Ono oficializaram sua união em um casamento discreto de dez minutos no consulado britânico em Gibraltar. Pouco mais de um ano depois, os Beatles anunciariam formalmente a separação do grupo – e, por décadas, o público culparia Yoko por quebrar a banda mais famosa do mundo.

Yoko já era uma artista conceitual estabelecida, tendo participado até do Grupo Fluxus, quando conheceu Lennon em 1966, durante uma exibição na Indica Gallery em Londres em novembro. Àquela altura, a banda já passava por um tumultuoso período de desentendimentos e controvérsias – a infame declaração de Lennon sobre serem “mais populares que Jesus”, a última turnê e a decisão de não se apresentarem mais ao vivo aconteceram todas naquele ano. 

Os dois logo se aproximaram (apesar de Lennon ainda ser casado com Cynthia), mas só se apresentaram oficialmente como um casal em 1968. Nesse meio tempo, Lennon passou a abusar ainda mais de drogas e os Beatles fizeram a famosa viagem à Índia para participar do curso de meditação com o Maharishi Mahesh Yogi. Mas a morte do empresário Brian Epstein em 1967 talvez tenha sido um dos pontos de virada mais importantes para as desavenças entre a banda. 

Yoko Ono, John Lennon e Paul McCartney. (Foto: Getty Images)

Paul McCartney queria que o sogro Lee Eastman fosse nomeado como responsável pela Apple Corps, empresa que cuidava das ações multimídia do grupo, o que o colocaria também como empresário dos Beatles. McCartney também queria retomar as apresentações ao vivo e já não conseguia mais se conciliar criativamente com Lennon; apesar de os créditos ainda aparecerem como Lennon/McCartney, os dois não compunham mais juntos. 

Enquanto isso, George Harrison queria mais espaço para suas composições nos álbuns, e acabava ficando em segundo plano diante da briga de egos dos companheiros. As desavenças chegaram a tal ponto que os três não gravavam mais juntos no estúdio, com Ringo Starr sendo, por vezes, o único elo em comum para as sessões. 

Ou seja, o grupo já não ia muito bem quando Yoko entrou em cena. A presença da artista japonesa talvez tenha ajudado a inflamar ainda mais os ânimos. Lennon, que também tinha um histórico com artes visuais, valorizava a opinião da companheira mais do que a dos colegas, por considerá-la uma artista de vanguarda. E Yoko passou a ser presença constante no estúdio, um espaço que antes era “zona proibida” para esposas e namoradas. 

Mas o único “pecado” de Yoko era existir. Então por que até hoje tem quem a culpe pela dissolução dos Beatles?

Yoko não separou os Beatles

…foi o John Lennon. “Seria injusto colocar em Yoko Ono toda a culpa por nossa separação, porque àquela altura já estávamos todos cheios”, George Harrison disse em 1996 para o documentário Anthology. “Mas talvez ela tenha sido a catalisadora”.

Yoko Ono acompanha sessão de gravação dos Beatles. (Foto: Imago)

Em 2016, Yoko disse com todas as letras para a revista US Weekly: “Não tive nada a ver com o fim dos Beatles.” E em 2018, em entrevista ao programa do radialista Howard Stern, McCartney confirmou (pela enésima vez) que Lennon foi o primeiro a sair do grupo, e que já manifestava esse desejo desde 1968. 

“Teve uma reunião em que John chegou e disse, ‘Ei, gente, estou saindo do grupo’”, McCartney contou. “O John tinha encontrado a Yoko, mesmo que a gente achasse um pouco intrusivo quando ela participava das sessões de gravação e a gente nunca teve algo assim. Mas olhando para trás, você pensa, ‘O cara estava totalmente apaixonado por ela e você tem que respeitar isso’. Então a gente respeitou, e eu respeito”.

Se Yoko teve alguma influência sobre Lennon, foi seu incentivo a explorar e experimentar com outros caminhos artísticos e musicais. “Imagine”, de 1971, uma das canções mais famosas dele, teve participação direta da artista – apesar de ela só ter sido reconhecida oficialmente como compositora em 2017.

John Lennon e Yoko Ono
Lennon e Yoko em um de seus “bed-in for peace”. (Foto: Central Press/Getty Images)

“Muito [da música] – da letra e do conceito – veio de Yoko”, John disse pouco antes de sua morte em 1980. “Naquela época, eu era um pouco mais egoísta, um pouco mais ‘macho’, e meio que omiti a menção da contribuição dela. Mas veio direto de ‘Grapefruit’, o livro dela. Tem uma pilha inteira de textos sobre ‘Imagine isso’ e ‘Imagine aquilo.’”

Yoko também era parceira no ativismo de Lennon, como no famoso “bed-in” pela paz de sua lua de mel em 1969, em que o casal convidou a imprensa para conversar na cama de quartos de hotel em protesto à guerra do Vietnã. 

“Quando Yoko apareceu, parte da atração dela era seu lado vanguardista, sua visão sobre as coisas”, McCartney disse à Al Jazeera em 2013. “Ela mostrou a ele um outro jeito de ser, que era muito atraente para ele. Então era hora de John partir”. 

O “efeito Yoko”

Quando os noticiários anunciaram a morte do rapper Mac Miller, em setembro de 2018, não demorou muito para que o nome de Ariana Grande alcançasse os assuntos mais comentados do Twitter e de outras redes sociais. Os dois haviam namorado por dois anos e se separado alguns meses antes, e Ariana já estava noiva do comediante Pete Davidson quando Miller faleceu. Muitos fãs culparam a cantora pela morte do ídolo, chegando ao ponto de encherem as redes sociais dela com mensagens agressivas e extremamente misóginas. 

Courtney Love, viúva de Kurt Cobain, é até hoje alvo de teorias conspiratórias de que teria participação direta na morte do músico, com fãs apontando que ela teria sido a responsável pelo vício de Cobain em heroína ou então, na verdade, arquitetado o assassinato dele (ambas falsas). 

Apesar de envolverem exemplos mais trágicos, os dois casos remontam ao “efeito Yoko”, que considera que essas mulheres detinham todo o controle da vida de seus parceiros, como se eles não tivessem vontades e problemas próprios. É muito mais fácil apontar os dedos para uma única pessoa em vez de considerar os vários motivos que levaram àquilo. E é ainda mais fácil jogar a culpa na mulher.

Racismo e xenofobia

John Lennon e Yoko Ono
Lennon e Yoko na gravação de “Rock and Roll Circus” dos Rolling Stones. (Foto: Getty Images)

Não bastasse ser mulher, Yoko ainda é uma mulher não-branca do leste asiático. Se racismo e xenofobia ainda são um grande problema hoje, eram ainda piores lá nos anos 1970. Asiáticos sempre foram vistos e tratados como “o outro” pelas culturas ocidentais, como pessoas e culturas “exóticas” envoltas de mistério e misticismo. 

“Eu fui usada como um bode expiatório, um bode expiatório muito fácil”, Yoko contou em entrevista ao jornalista Anderson Cooper em 2010. “Você sabe, uma mulher japonesa e tal”.

“[Acho que envolveu] sexismo, racismo. Mas também lembre-se de que os Estados Unidos e o Reino Unido lutaram contra o Japão na Segunda Guerra Mundial”, ela disse. “Foi, de certa forma, logo depois disso, então eu consigo entender como eles se sentiam”. 

Capa de “Yes, I’m a Witch”

Como se ela pudesse ter lançado um feitiço de encantamento sobre o “pobre e indefeso” Lennon, adicionado ao seu trabalho rebelde e conceitual, Yoko era até chamada de bruxa por alguns – algo com que a artista brincou com o lançamento do álbum de remixes Yes, I’m a Witch, de 2007. 

“Foi uma canção que eu fiz em 1974. E as pessoas diziam, ‘Você não pode lançar isso, você vai ser assassinada’”, ela disse em entrevista ao Toronto Star na época. “Mas me chamavam de ‘senhora dragão’, sussurravam por aí, ‘Ela é uma bruxa’, então eu virei e disse, ‘Sim, sou uma bruxa.’” 

No fim das contas, parece que a persistência do mito de que Yoko teria sido a maior responsável pelo fim dos Beatles, assim como os exemplos de Ariana e Courtney, trata-se basicamente da busca de uma explicação simplista para acontecimentos complexos que envolvem diversos fatores e que, para alguns fãs, são inexplicáveis – crenças antiquadas e problemáticas que já deveriam ter sido superadas.