Por Arthur Souza e Beatriz Vaccari

Na última quarta-feira (10), o Brasil bateu um novo recorde de mortes para a COVID-19 em menos de 24 horas. Em dados reunidos pelo consórcio de veículos de comunicação, 2.349 pessoas perderam a batalha contra o novo coronavírus (Sars-CoV-2) em apenas um dia. A data, no entanto, marcou também um mês de lançamento da música Sangue, do cantor, instrumentista e compositor Chico Salem, cuja letra, escrita antes do início da pandemia em março de 2020, permanece tão atual quanto o período em que foi concebida.

O trabalho une os vocais de Salem com os de Zeca Baleiro cantando os versos escritos por Arnaldo Antunes. Mesmo lançada após um ano, a letra segue atemporal, e o público poderá sentir uma familiaridade com o momento atual vivido pelo país.

“Essa música tem uma história bem interessante”, começa Chico Salem em entrevista exclusiva ao ROCKNBOLD, há quase um mês — em que São Paulo iniciava a vacinação para a população idosa, de faixa etária acima dos 90 anos. Na época, as aulas nos colégios estaduais também marcavam o retorno presencial, uma vez que o estado entrava na fase amarela. Em menos de 30 dias, Sangue conseguiu mostrar-se propícia para o momento novamente, com os versos denunciando que o estado de extermínio que não comove mais a população.

“O Brasil tem essa característica de dar um jeito de contextualizar uma música política e as coisas sempre parecerem atuais”, comenta Chico Salem durante o bate-papo. “Sangue foi uma música que finalizamos em fevereiro de 2020, [mas] se você contextualizar ela numa pandemia, faz todo sentido. Se você contextualizar ela num momento de abertura econômica e social, ela faz todo o sentido.”

Ao ser questionado sobre seu maior sonho com suas canções de denúncia e protesto, o músico responde: “que elas sejam desatualizadas”. “Eu sonho que elas sejam ouvidas daqui cinco anos e as pessoas pensem que aquilo já passou e hoje não é mais nada disso”, continua.

Imagem: Divulgação

Para provar ainda mais seu quê atemporal, Chico Salem revela que a melodia de Sangue existe há dez anos, com uma proposta totalmente diferente. “Fiz numa época pensando que eu podia mandar pra a Pitty gravar e acabou que eu nunca mandei, e ficou guardada.” No ano passado, vasculhando sua gaveta de composições e melodias guardadas, o cantor acabou encontrando o que mais tarde tornaria-se Sangue, e resolveu enviá-la para um velho amigo. “Mandei para o Arnaldo Antunes. Ele é um parceiro muito querido, temos várias músicas juntos. Ele amou essa, escolheu e disse pra eu dar uns dias que ele mandava uma letra”, detalha Salem, contando que uma semana após o contato, o ex-Titã já tinha uma composição pronta para colocar no mundo.

Sangue vem logo após o primeiro single do próximo álbum de Salem, Só Que Não, que também entrega versos de cunho político e social em sua composição. O vídeo, em formato de manifesto, chegou há um ano ao YouTube e assim como o single mais recente também mostra atemporalidade em sua mensagem.

Ambas músicas adiantam um pouco do que será o álbum de Chico Salem, previsto para ser lançado ainda em 2021. Intitulado Canções de Guerra, Gritos de Amor, o trabalho é descrito pelo músico como “esquizofrênico”, partindo de uma linha de raciocínio particular do próprio cantor de tocar o coração do público misturando protestos e emoções. “A ideia é que venha com uma canção forte como Sangue e uma balada romântica logo em seguida. Quero brincar um pouquinho com isso, com denúncia e amor”, revela.

O movimento de músicas ativistas de Salem remete muito à crise dos anos 60 e 70, em que artistas da MPB, do rock e do samba uniram-se para lutar contra a repressão da ditadura civil-militar brasileiro. Ao ser questionado sobre essas ações repetirem-se no contexto atual, o músico responde: “acho que não é um movimento organizado, as pessoas ainda estão muito ainda num ‘salve-se quem puder’, todo mundo querendo fazer seu som, seu trabalho. Mas invariavelmente não tem como fugir muito, se você quer fazer algo de um tema mais político, as pessoas vão acabar falando das mesmas coisas.”

Ainda sobre canções ativistas, o cantor continua: “sinto que o grande desafio de uma música de protesto é furar a bolha pra você não ficar falando com quem já pensa como você.” Ao completar seu pensamento, Chico Salem menciona o trabalho de Raul Seixas, que possuía um impacto global com suas canções, mesmo carregando denúncias nos versos. “[As músicas dele] têm esse poder de penetrar nas camadas das pessoas que nem são tão politicamente ativas. Acho que o risco que eu corro com Sangue e Só Que Não é encontrar uma resistência muito grande em quem não quer ouvir sobre esse assunto […] O maior objetivo da arte não é oferecer respostas, é quando se consegue fazer o ouvinte questionar.”

O futuro do Brasil e as redes sociais

Pensando em qual seria a melhor solução para fazer o sangue parar de jorrar no país, Chico Salem reflete sobre essa ser “a pergunta que não quer calar”, e continua: “O Brasil que nunca se libertou de fato da colonização e escravidão. Essa ideia de que existe uma classe dominante e uma dominada é muito forte.”

“A gente pode ver isso em até quem é super consciente e está quarentenado em casa. Embora não façam compras [no mercado] e só chamem pela internet, estão botando a vida de um motoboy em risco. É muito dificil ter uma postura completamente coerente com seu Facebook e seu Instagram, então eu sempre digo ‘quer fazer um mundo melhor? Comece a ser coerente com o que você posta nas redes sociais’.”

Chico Salem

Chico Salem e Parcerias

Sangue marca a parceria entre três grandes nomes da música brasileira: Chico Salem, Arnaldo Antunes e Zeca Baleiro. Quando questionado sobre mais colaborações futuras, o músico brinca: “eu sou o doido das parcerias”, rindo. “Gosto muito porque eu sinto que 1+1 é mais do que 2, é 2 e mais o que esse encontro promove”, revela.

Falando sobre Canções de Guerra, Gritos de Amor, Chico Salem revela que ainda há mais uma faixa com Arnaldo Antunes na tracklist, além de uma parceria com Chico César e uma versão em português de uma música de Leonard Cohen, traduzida e performada pelo próprio Salem.

“Fico feliz de dar vozes e escutar vozes, então é muito legal quando consigo pegar uma melodia minha, com uma letra do Arnaldo e chamar uma voz como a do Zeca,  trazer o grito dele. Isso é uma das coisas que eu mais acredito, nesse poder do coletivo.”