Independente se você está lendo este review antes ou depois de ouvir o I Won’t Care How You Remember Me, você sabe que o Tigers Jaw adora se reinventar. Aliás, se você é uma pessoa muito ligada à essência emo, deve ter acompanhado a grande ascensão da banda com o seu álbum self titled, lá em 2008.

Mesmo que a banda tenha passado por algumas reformulações antes de encerrar oficialmente -quem não lembra do anúncio no falecido Tumblr, não é mesmo!?-, o grupo gravou mais um álbum junto, o famoso Charmer, lançado em 2014, extremamente maduro, refinado, elegante e alternativo, que mesmo mantendo a essência do pop punk, conseguiu apresentar diversas peculiaridades novas. E isso sem dúvida, germinou grandes frutos para a banda, que ganhou posições de gala nas críticas especializadas, posicionando o Charmer como um dos melhores álbuns já feitos no pop punk da última década.

Inegavelmente, se a banda acabasse ali em definitivo, naquele momento, poderíamos dizer que encerrou no auge -coisa que poucas bandas sabem fazer hoje em dia-. Entretanto, todos os fãs sabiam que o Tigers Jaw ainda tinha muito mais a entregar. Ben Walsh e Brianna Collins, que são os únicos integrantes desde o início da formação do grupo, retornaram com a banda, e vieram com novos talentosíssimos integrantes para gravar um novo álbum, o Spin, 6 álbum de estúdio lançado em 2017, após um hiato médio do grupo. Ben, Brianna e companhia mostraram com o Spin uma sonoridade extremamente madura, emocionando os fãs mais assíduos da banda, e retomando seu espaço como uma das bandas mais talentosas da cena.

Agora, após quase 4 anos, Tigers Jaw lança seu mais novo álbum, o “I Won’t To Care How You Remember Me”, com muito mais doçura e leveza sonora, se afastando com dois passos para o lado do som tradicional já conhecido pelos fãs mais antigos, mas ainda assim extremamente agradável.

tigers jaw
Formação atual da banda Tigers Jaw – Foto: Google

I WON’T CARE YOU REMEMBER ME

A princípio, a música de abertura “I Won’t Care You Remember Me”, que também é a que dá nome ao disco, nos faz querer dar ainda mais importância para esta track, pois ela pode representar o que está por vir com mais força. Este som é uma parceria com o incrível vocalista da banda Manchester Orchestra, Andy Hill, e traz a mistura de um tradicional ritmo de folk semelhante a sonoridade de Off Monsters And Man e Mumford & Sons, mas também agrega um embalo bem cadenciado na parte 2, que é guiado pela bateria de Teddy Roberts e os vocais perfeitos de Brianna, trazendo resquícios sonoros com pequenas lembranças de músicas do Death Cab For Cutie, na era Transatlantiscism. Podemos dizer que nessa música, o Tigers Jaw alargou os passos para explorar novos estilos, mas ainda olhando para trás e tudo que fez com muito carinho e apego.

CAT’S CRADLE

Se você veio buscar a essência real dos álbuns antigos do Tigers Jaw nesse trabalho novo, Cat’s Cradle é a música ideal para você! Logo na segunda track do álbum eles aceleram bastante o passo com guitarras viscerais, elegantes e com a Brianna explorando muito as sonoridades do teclado. Ou seja, o clássico pop punk raiz, com metáforas de sentimentos tristes e reflexivos na letra, mas com uma sonoridade cativante e estrondosa. A exigência foi tanto de manter algo que trouxesse familiaridade com o público, que o próprio Teddy Roberts afirma que esta música recebeu diversas alterações no meio do processo de criação.

HESITATION

Em seguida somos presenteados com “Hesitation”, que sem dúvida nenhuma é o ponto auge do álbum. Sem abandonar as guitarras, e novamente com uma bateria bem acelerada, Tigers Jaw traz uma baladinha extremamente dançante e agradável para se ouvir em qualquer momento, pois seja lá o que for que você esteja sentindo, vai lhe fazer melhorar.

Em um mundo que está totalmente caótico, a banda consegue transferir felicidade e empolgação de modo muito simples através desta canção -principalmente com a leveza do videoclipe que produziram para esta canção- trazendo uma dose de bons sentimentos, e uma sensação de estar realmente dirigindo para casa com a visão de árvores vermelhas e laranjeiras, sem ninguém do banco da frente, além de você e sua companhia, como já diria o trecho final da música.

NEW DETROIT

Salvo algumas situações, uma das boas experiências de poder aproveitar o lançamento de um álbum novo, é ouvir as músicas em sequência, e não no aleatório. Com toda certeza, o combo New Detroit com a música anterior, também é um ponto alto deste disco. Com guitarras e vocais que acalentam  os ouvidos, a música começa com uma serenidade muito delicada, e muito destaque para o lindo vocal de Ben Walsh. Mesmo sendo uma canção curta, transmite muito conforto, e traz boas lembranças das mais antigas do The 1975.

CAN’T WAIT FOREVER

Obviamente, se fosse pra escolher uma música somente que representasse a essência do Tigers Jaw, de 2006 até 2017, seria Can’t Wait Forever. Nem tão extravagante e acelerada, e nem delicada demais. A canção possui uma energia extremamente juvenil e dançante, no melhor dos sentidos possíveis,  e com essas características presentes, a banda entrega sua música com mais cara de single de todo esse novo trabalho. De fato isso ficou ainda mais comprovado, quando recentemente Ben Walsh cedeu uma entrevista para comentar sobre o álbum, e afirmou que uma das coisas que eles mais quiseram trazer nessa canção, foi a essência prematura da vivência jovem lá do início da banda, em Scranton – Pennsylvania.

LEMON MOUTH

Em primeiro lugar na track de Lemon Mouth, é impossível não perceber logo na introdução da mesma, uma semelhança com “I Want Rock And Roll” da banda Kiss. Mas o que dava a impressão que seguiria para um som mais pesado, no mesmo estilo da banda de hard rock, mostra-se nos minutos seguintes que o jogo é totalmente outro. Ao passo que a música progride, percebe-se que o grande destaque está na cautela, suavidade, e no lindo vocal de Brianna Collins, mesmo com as lindas linhas de guitarras no meio da segunda metade da música, que foram introduzidas por Ben.

BODY LANGUAGE

Ainda com uma pegada dançante, na sétima track do álbum a banda retorna à 2014 e reinventa aquilo que há de melhor em seu quarto trabalho de estúdio, o “Charmer”. A bateria chega bem marcada ao lado dos vocais de Ben e linhas de guitarra encantadoras. Com certeza, essa é a música que ao vivo, faria os fãs se agitarem e cantarem animadamente sobre decifrar alguém através de seus movimentos quando nada é dito: “Oh I can feel a pulse / Oh I can read your body language

COMMIT

Logo no início da música já é possível notar uma forte influência às músicas mais antigas do Paramore – que aliás, é uma das bandas favoritas de Brianna. Continuando com uma vibe mais dançante, os solos de guitarra de Ben e os vocais de Brianna compõem uma canção que faz uma analogia entre as mentiras contadas por alguém e teias de aranha. Mais uma vez, os americanos nos mostram uma letra triste junto à uma melodia divertida. 

NEVER WANTED TO

Em contrapartida, a próxima track é bem mais tranquila revisitando os trabalhos antigos da banda e trazendo o que há de melhor em cada um. Com o vocal por conta de Ben, além de elegantes linhas de guitarra a sonoridade do baixo também chama atenção na faixa onde os americanos falam sobre passados sombrios: “I never wanted to believe you / Dig up the past and be afraid of what you might find”. 

HEAVEN APART

Assim que a penúltima faixa do álbum começa, é notável alguma semelhança com alguns trabalhos da banda britânica Basement. Alternando entre tempos calmos e outros um pouco mais agitados, Brianna destaca-se tomando conta do vocal e com as notas maravilhosas do seu teclado que combinam perfeitamente com o resto da melodia, que mais uma vez, traz a analogia das aranhas.  

ANNIVERSARY

Por último, fechando com chave de ouro, Brianna e Ben dividem os vocais da última canção que segue a mesma linha da anterior. O baixo soa refinado junto à uma bateria bem marcada e as sedutoras linhas de guitarra de Ben. O final da track é uma boa surpresa, onde permanece apenas a voz de Ben e algumas notas de violão cantando o refrão. 

Em suma, é impossível não mencionar o amadurecimento da banda desde o seu início, os americanos da Tigers Jaw conseguiram passar por diversas sonoridades sem perder sua essência. Em “I Won’t Care How You Remember Me” a banda surpreende mais uma vez positivamente reinventando aquilo que há de melhor em seus trabalhos anteriores e mixando à novos elementos que vão do Emo ao Folk, e o resultado não tem como ser nada além de um álbum sincero e elegante. 

9/10

Escrito por: Leonardo Neto e Rayane Moreira