Anos após primeiro hit, músico volta a levar banda ao topo; do emo ao pop, Brendon transformou o P!ATD em um dos maiores fenômenos da atualidade com performances teatrais

Não há como negar que Brendon Urie nasceu para a Arte. Se em 2004 ao ser convidado a ingressar no Panic! At the Disco o músico largou tudo para produzir canções autorais ao lado do guitarrista Ryan Ross e do baterista Spencer Smith, quinze anos depois o resultado do projeto de sua vida beira a perfeição.

A verdade é que o “P!ATD”, originalmente um quarteto que também contava com o baixista Brent Wilson, conquistou a posição de um dos maiores nomes da música alternativa dos anos 2000 há mais de uma década atrás por sua teatralidade. Misturando influências de The Cure, Counting Crows e The All-American Rejects com pitadas de pop punk em versões mais melódicas e cartunescas, o quarteto liderado por Brendon sempre possuiu um diferencial: a ambição e imprevisibilidade de seu vocalista.

Cinco anos após o pontapé inicial, há uma década atrás, o grupo já possuía dois álbuns (“A Fever You Can’t Sweat Out” e “Pretty Odd.”), os hits “I Write Sins, Not Tragedies” (vencedor do VMA de 2006 para ‘Melhor Vídeo’), “Lying Is the Most Fun a Girl Can Have Without Taking Her Clothes Off” e “Nine In The Afternoon”, turnês bem recebidas nos Estados Unidos, milhares de fãs ao redor de todo o planeta e um contrato milionário com a mesma gravadora de Paramore e Fall Out Boy, Fueled By Ramen.

A maior realização da carreira artística do cantor era quase perfeita. Quase.

O grande problema do Panic! surgiu das divergências criativas entre seus membros. Ross desejava que a sonoridade do quarteto soasse mais “roqueira” e Urie preferia trilhar caminhos corajosos e diferentes, muito requintados pela música influenciada por obras ficcionais do cinema e teatro. Naquela época, o vocalista era visto como “um artista em ascensão repleto de identidade e personalidade” e infelizmente essa diferença tornou a relação dos membros originais Brent e Ryan com o frontman totalmente insustentável, ocasionando a saída de ambos em 2006 e 2009, respectivamente. Jon Walker, substituto de Wilson e considerado por muitos também um membro “original”, foi outro a ter problemas com o cantor em 2009. Ele e Ryan fundaram posteriormente o Young Veins.

Antes imprevisível, a banda tornou-se inconsistente por alguns anos enquanto a música se atualizava e o emo/pop punk parecia perder força. É verdade, eles emplacaram mais um hit, “The Ballad of Monalisa”, ao lançarem em 2011 o terceiro disco de estúdio, “Vices & Virtues”, e compuseram a ótima “Mercenary” para a soundtrack do game Batman: Arkham City, mas o sucesso durou muito pouco.

De mãos atadas e necessitando respirar novos ares após críticas e conflitos internos e externos, Urie aparentava não ter saída durante a criação do trabalho sucessor. Como se ainda não bastasse, Spencer precisou se afastar do grupo provisoriamente por conta de problemas com álcool e remédios (o que resultou em sua saída permanente anos depois) mas teve papel importante na inevitável transformação que a banda sofreria. O baterista, em meio à discussões com Brendon e problemas particulares, foi parte essencial no processo criativo do que estava por vir.

O multifacetado vocalista acreditava que este projeto poderia alcançar ainda mais públicos através da mescla de estilos populares com a modernidade do mundo globalizado e, por isso, viu na dificuldade a maior e melhor oportunidade de tornar o plano de sua vida em tudo que sempre quis: o espetáculo galático de um grupo teatralmente musical.

A coragem e o entusiasmo de Brendon flertavam com o desconhecido e, agora maduro, o artista soubera exatamente o que fazer.

Com topete e blazer característicos, Urie tornou-se o protagonista da própria obra em “Too Weird To Live, Too Rare to Die!”, quarto álbum da carreira, lançado em 2013. Claramente influenciado pela atmosfera nostálgica de sua adolescência em Las Vegas, mergulhou em águas antes nunca exploradas pelo grupo e conseguiu o colocar em segundo lugar nos maiores charts da Billboard. Beats orgânicos, synths, efeitos eletrônicos, guitarras sutis nos backgrounds e exuberantes vozes harmoniosas tornam este o divisor de águas na sonoridade do Panic!, que ainda é versátil o suficiente para criar canções que remetem o synthpop e dance-rock de New Order e Depeche Mode.

Brendon se agiganta na produção do trabalho e acerta em cheio na escolha dos singles: com a característica voz robusta e o domínio completo da técnica entre os graves e agudos, consegue criar a atmosfera dançante e empolgante que parecia faltar na discografia enquanto diverge sobre o charme e as tentações de sua cidade natal.

In the Vegas lights
Where villains spend the weekend
The deep end
We’re swimming with the sharks until we drown

Miss Jackson” e “This is Gospel”, por exemplo, formam uma narrativa visual onde o cantor vive uma aventura romântica perigosa, mística e alucinógena com o obscuro, frente aos próprios devaneios em meio aos áridos desertos que cercam a maior cidade do estado de Nevada. A história não possui exatamente um desfecho e a interpretação é livre para o espectador — pelo menos até 2016.

O músico fez questão também de abordar questões e pautas importantes como a sexualidade. Em “Girls/Girls/Boys”, ainda na perspectiva do eu-lírico interessado em seu par romântico, o mesmo diz que o amor não é uma escolha e que as pessoas podem e devem amar quem quiserem. Priorizando a liberdade, aparece nu em frente a câmera no vídeo da canção.

Apoiador fiel de projetos relacionados aos direitos LGBTQI+, em 2014 prometeu doar 20 dólares à uma instituição que trabalha em prol dos “Human Rights” por cada pessoa que participasse de um protesto homofóbico na Westboro Baptist Church, que tentava proibir a execução da música no show da banda na cidade. O resultado foi “positivo”: apenas 13 pessoas compareceram, mas mesmo assim o cantor ainda fez uma doação de MIL DÓLARES ao projeto. Quatro anos depois, doou UM MILHÃO para auxiliar e apoiar jovens nas escolas (você pode ler mais clicando aqui).

Em 2016, após o massacre da boate “Pulse”, em Orlando, o Panic! At The Disco organizou uma campanha para doação de sangue às vitimas antes da apresentação do grupo em Miami.

Gostando ou não, Brendon Urie é o rockstar moderno que o público jovem necessitado de referências procurava: um ser humano cheio de atitude e personalidade que, com o passar do tempo, conseguiu mudar sua forma retrógrada de enxergar a vida e passou à realizar feitos muito importantes além da Arte.

A partir da retomada do sucesso, o cantor começou a ganhar mais popularidade. Se antes todos conheciam o P!ATD como a banda que emplacou hits na metade dos anos 2000 e criou hinos da geração emo, após o lançamento deste trabalho tudo se tornou diferente. O que era lembrado como referência do rock alternativo agora pudera ser notado como a banda de um homem só: o personagem principal dos vários singles que voltaram a atingir o mainstream comercial. E o vocalista ama ser o centro das atenções. Talvez esse tenha sido o plano desde o início e, desta forma, compreende-se a mágoa de fãs “old school” com o mesmo que, em meio às polêmicas com seus ex colegas de banda, ainda teve que aprender a mudar algumas das próprias equivocadas perspectivas. Ok, ele está muito longe de ser perfeito e cometeu erros durante o caminho, mas o americano é muito menos complexo do que se imagina.

(Foto: Divulgação/Reprodução)

Artista completo, sempre destacou-se mais que seus ex companheiros e, quando a estrela do show torna-se maior que elenco e roteiro da obra, é tarde demais para que seu brilho natural seja ofuscado (dadas as proporções, Michael Jackson, Beyoncé e Justin Timberlake mandam um “alô”).

Urie reproduz com maestria tudo o que se dispõe a criar. Talento para tocar vários instrumentos e domínio completo da voz ele tem de sobra — com seus inúmeros recursos, tornou um tributo a Queen com “Bohemian Rhapsody” um dos pontos altos das recentes apresentações ao vivo da banda — , mas o que o torna referência em qualidade é sua atuação e performance impecável em cima do palco.

Estabelecida a transformação segura e corajosa no som, o sucessor do disco mais comercial do grupo desde sua estreia, “Death Of A Bachelor”, de 2016, consolida a versatilidade do frontman como artista e o estabelece de uma vez por todas como o personagem principal dos capítulos escritos pelo seu grupo durante pouco mais de 15 anos de estrada.

Ambicioso mas ainda assim seguro, o músico enfatiza a fase mais adulta da vida com reflexões sobre a transição da “solteirice” para o casamento na charmosa e iluminada Los Angeles com o entusiasmo minimalista construído pelo jazz e pelo pop rock. Em “Hallellujah” e “Death Of A Bachelor” tenta soar como Frank Sinatra com backings de Brian May e Roger Taylor, enquanto parece ter a certeza de ter tornado-se um dos maiores popstars do mundo nas enérgicas “Victorious” e “LA Devotee” — essa última, inclusive, é uma crítica aprofundada sobre o sistema americano e as tentações “hollywoodianas” que são mostradas aos jovens de forma distorcida desde a infância. A venda da ideia do “sonho americano” é, na maioria das vezes, uma tentativa de manipulação da sociedade na visão do vocalista.

Emperor’s New Clothes”, um dos maiores singles, é o epílogo da narrativa iniciada três anos antes com “This Is Gospel” nessa espécie de curta metragem com superprodução.

Fantasmagórico e cinemático, o espectador acompanha a transformação de um ser a procura do amor em uma criatura demoníaca sedenta pelo poder, usando metáforas para expressar a visão deturpada de ser uma estrela bem sucedida de LA. Tudo idealizado por Brendon, é claro. Coincidência?

A produção irretocável e o experimentalismo das canções são os pontos altos desta obra grandiosa indicada ao GRAMMY que facilmente funcionaria como trilha sonora de aclamados clássicos do cinema performático.

Death Of A Bachelor” reinterpreta a história do cantor com a ainda característica estética, mas sonoramente distante de seus primeiros trabalhos.

(Foto: NME)

É surpreendente pensar como uma banda de “rock” dos anos 2000 conseguiu se manter em evidência durante a segunda década deste século onde a maioria do público parecia moldar seus próprios interesses, prioridades e gostos particulares de forma diferente do que sempre se viu. As abordagens e linguagens se atualizaram rapidamente e a maioria dos artistas e produtores tiveram que se adaptar: muitos traçaram o caminho do pop genérico e outros preferiram arriscar em grooves dançantes vindos do R&B e do Urban Contemporary. Entretanto, alguns ainda possuem coragem e ambiciosidade para flertarem com o desconhecido e tentarem explorar pontos fora da curva, e é aí que Brendon se destaca.

Nos primeiros álbuns da carreira, por exemplo, foi da música alternativa mesclada com pop punk à uma tentativa fracassada — mas original — de construir uma ode aos trabalhos mais performáticos de Beatles e The Cure. Audacioso, nunca teve medo de ser criticado e sempre aparentou estar disposto à vivenciar novas experiências e trilhar novos caminhos, mesmo quando contrariado. A realidade é que Brendonsempre foi um sonhador.

Dizem que o ethos dos americanos consiste em uma variedade de ideais de liberdade que inclui a chance para o sucesso e prosperidade. Partindo deste pressuposto, o líder do Panic! é hoje a melhor personificação do termo por ter alcançado o topo também através de suas visões e ideologias. Essa ideia é consolidada através de sua criação mais grandiosa, “Pray For The Wicked”, lançado em 2018.

Com a facilidade oferecida pela tecnologia, muitas coisas perderam o valor que possuíam anteriormente — já que a internet entrega rápidas e fáceis informações à qualquer um de seus usuários — , mas o que não há como se buscar no Google é a esperança e a sensação de sentir-se inserido em um local que pode lhe oferecer a chance da realização de um sonho. O sentimento de dever cumprido (“mãe, eu realmente consegui!”) é perceptível neste álbum e retratado no single “Hey Look Ma, I Made It”.

Influenciado pela estreia na Broadway como protagonista do musical “Kinky Boots” e da benção de um dos maiores ícones da música dos Estados Unidos de todos os tempos, Cyindi Lauper (clique aqui para assistir ao vídeo), o cantor ainda possui alguns traços do que colocou o Panic no topo em 2005, mas se aprofunda na grandiosidade do espetáculo teatral através do POP excessivo que, em sua maioria, é tendencioso à rápida saturação. Porém, um dos maiores talentos deste extraordinário artista é justamente acreditar e fazer com que suas histórias tornem-se trilhas sonoras através da abordagem/linguagem sem igual sustentada por uma só voz, como um maestro que rege a própria orquestra. Aqui, há canções extravagantes e inspiracionais que tornam os metais e as várias vozes parte de um único corpo. É verdade, há chances deste projeto soar fantasioso ou fantástico demais, mas tudo vai da perspectiva de quem o consome e, quer saber? Mais um ponto positivo pro vocalista.

Com início, meio e fim, o que o músico cria no sexto trabalho de estúdio da banda é digno de aplausos, tais como àqueles ao final de espetáculos em teatros. É claro, não há como ser unanime: para alguns, falta o rock característico de ‘A Fever You Can’t Sweat Out’ e para outros é muito performático, mas este projeto vai muito além da robusta sonoridade, mesmo com a impressionante facilidade de Urie de criar melodias memoráveis.

Quer exemplo maior do que a participação do cantor no tão aguardado comeback da maior estrela pop do planeta, Taylor Swift, no início de 2019?

Dialogando consigo mesmo sobre todo caminho percorrido até chegar ao sucesso absoluto e suprir todas as suas expectativas na carreira, Brendon tem recentemente priorizado de forma sútil o discurso sobre a esperança de tornar-se bem sucedido e alcançar o cobiçado “american dream” sem cair nas armadilhas que a vida de um jovem popstar em formação oferece.

Muito mais maduro do que um dia já fora, o Panic!, agora formado pelo guitarrista Mike Naran, pelo baterista Dan Pawlovich e pela excelente baixista Nicole Row, entrega um disco mágico para sonhadores, alertando sobre as desilusões e fracassos que batem na porta de quem é regularmente colocado à prova.

A consolidação do sucesso estrondoso, do sentimento de realização e do amadurecimento do frontman fica clara, por exemplo, através da última passagem da banda pelo Brasil, em setembro, para um único show no Rock In Rio. Na votação popular aberta, a banda superou os veteranos do Red Hot Chili Peppers e foi eleita a melhor do quarto dia da edição de 2019 do festival. Assista um pedaço da incrível performance de “High Hopes” clicando aqui.

(Foto: Rock In Rio)

O atual Panic! At the Disco continua performático, teatral e cartunesco, mas não parece mais querer priorizar os dias de glória da fase emo, mesmo quando saudoso à seus hits antepassados.

Brendon Urie e companhia transformaram-se em um grupo musicalmente grandioso e elaborado que, por mais que ainda arrisque no pop mágico e fantasioso influenciado por obras da Broadway, consegue ter característica própria ao atingir públicos maiores de diversas e distintas gerações. Aliás, não era esse o plano da vida do frontman desde o início? Após anos trilhando o próprio caminho e driblando dificuldades, ele finalmente pôde dizer que realizou o sonho de sua vida na maior canção da carreira: “não sabia como, mas sempre tive a sensação de que seria aquele um em um milhão”.

(Foto: TMDQA!)

O adolescente emo transformou-se na estrela de seu próprio show e aparenta conquistar cada vez mais pessoas mundo afora.

Não há como contrariar: ele realmente sabia onde chegaria.

Lotando corações de esperança resta apenas parabenizá-lo, afinal, mesmo imperfeito, foi certeiro em tornar o projeto de sua vida uma das maiores inspirações e referências à jovens fãs e artistas que, influenciados pela sede do poder, se esqueceram do motivo principal de se estar aqui: sonhar.