Quem acha que o Rio de Janeiro, mais conhecida como cidade maravilhosa, respira apenas Samba, se enganou completamente. A cidade é berço de inúmeras vertentes musicais, do rap ao pop, do rock ao sertanejo e claro, sem esquecer dele, o nosso querido hardcore. Quem aí nunca ouviu um som da banda Plastic Fire, ou colou em um rolê com os manos da Circus Rock tocando? Enfim, o gênero respira a bons pulmões na cidade do Cristo Redentor. Um outro, e ótimo exemplo, são os caras do NDR (New Day Rising) Hardcore. Na estrada desde 2011, já lançaram 3 trabalhos de estúdio, e alguns singles, sendo o mais recente “Então”, onde trazem um pouco do cotidiano de cada um nas letras e na sonoridade. O NDR é composto por Renato Rasta (vocais), Raul Days (guitarra), Thiago Vieira (guitarra), Caique Xavier (baixo) e Felipe Vieira (bateria), levando um pouco da vivencia pros palcos, cidades e ouvidos que os permitem entrar.

Trocamos uma ideia com o Renato, e conversamos um pouco sobre a trajetória dos caras, sonoridade e questões sobre representatividade. Se liga no papo!

Foto: NDR – Divulgação / Fernando Valle

Rocknbold – Como o NDR nasceu?

Renato Rasta – A banda que se tornaria o ndr teve um primeiro encontro por volta de 2010. Na época era outra coisa. Na formação, eramos 5. Os irmãos e primos Caique, Felipe, Maycon, Pedro e eu, Renato, que não sou consanguíneo. Caique e Pedro se mudaram para a rua onde eu moro. Foi assim que nos conhecemos.

Rocknbold – O hardcore veio logo de primeira, ou vocês passaram por outra vertente antes de assumir ele como gênero da banda?

Renato Rasta – Desde que montamos o NDR sempre tocamos hardcore. Porém, com outros elementos que variaram nas fazes da banda, como a guitarra mais pesada dos diversos tipos de metal, o punk em algumas levadas, as melodias características do emo em algumas músicas. Mas talvez o Rap seja um elemento que esteja presente na banda desde sempre também, presente na maneira como eu canto e escrevo as letras, mas tudo isso dentro do universo do tradicional hardcore.

Foto: NDR – Divulgação / Fernando Valle

Rocknbold – Ouvindo o som de vocês, cheguei em uma mescla de Dead Fish (instrumental) e Forfun (vocal), não sei se acertei eles como influências, mas quais seriam as influências do NDR?

Renato Rasta – Esngraçado você dizer Forfun, porque na real nunca foi nosso referencial, apesar da gente ouvir.  O Dead Fish sim, sempre foi um referencial. E no geral nossas influências são bem amplas, é difícil falar, mas tem de tudo… de Belvedere até Rage against the machine passando por Periphery e por megadeth, satanic surfers e american football.

Rocknbold – Outra coisa que notei foi a alteração do nome da banda. Existe um motivo da mudança de “New Day Rising” pra somente “NDR”?

Renato Rasta – Na Real não houve alteração, é só uma abreviação. Tem gente que acha mais fácil NDR, chamava assim, e aí a gente acabou aceitando esse “apelido”.

Foto: NDR – Divulgação / Eduardo Barros

Rocknbold – Uma questão que notei olhando o material de vocês, foi a representatividade que um negro, frontman em uma banda de hardcore tem. Conheço outros exemplos como o AJ Channer, vocal do Fire From The Gods (rap metal) e o Howard Jones, ex vocal do Killswitch Engage (metalcore). Pra você, como é encarar essa estatística dentro do gênero?

Renato Rasta – Então, eu deixei pra responder isso por último porque é uma questão cara pra mim, uma questão chata de responder. Porque tem muito a ver com o meu sofrimento nos últimos tempos. Não exatamente só por estar como vocalista de uma banda, mas por ter de prestar conta de cobranças que o mundo todo te coloca. Cobranças e críticas que por vezes passam pelo “Hype” das pautas identitárias, como uma onda. E que por vezes tem muito pouco a ver com um interesse real de mudança de uma profunda estrutura racista, mas, mais em seguir uma cartilha que as redes sociais ou o big brother inventa: “seja isso, fale assim, pense assado, responda assim”. E muita gente se aproveita pra se vender como “banda disso”, ou “banda daquilo” só pra estar de acordo com essa cartilha, sem se dar conta de verdade de o quanto está reproduzindo o mecanismo da própria estrutura que o aprisiona, que o excluí, que o mata, que o escarneia… Tudo vira espetáculo e mercadoria na nossa sociedade, e essa questão não é diferente. Me colocar como um corpo negro dentro do hardcore é apenas me colocar e colher as experiências que virão. Isso significa que eu não quero representar ninguém. Quero que aqueles que se identificam com alguma coisa, façam como eu e monte uma banda, ou escreva um livro, ou faça algo por isso. Isso pra mim é o sentido de estar unido horizontalmente.  Quero divulgar minhas ideias e aprender com elas e com todo mundo que quiser dialogar com elas. Se eu conseguir provocar um questionamento na vida das pessoas que escutam meu som, já tá de bom tamanho, entende? Desejo profundamente que as pessoas pensem por si mesmas, que busquem por si mesmas e que com isso a gente consiga produzir um mundo diferente, um mundo melhor e não só uma Hashtag. Permitir que uma pessoa te represente, é como permitir que ela fale por você sobre determinados assuntos em determinado lugar, e isso é doar uma parcela importante da sua autonomia, da sua vivência, dos teus desejos pra alguém, não acha? Quero amigos de ideias, e não representados. Não sei o quanto que isso é positivo, mas é o que eu penso no momento. E sobre ser estatística no gênero, eu gostaria de deixar uma reflexão: que tipo de lugar, de ambiente, de cena se espanta com um cara negro a frente de uma banda? Que tipo de cena permite que uma pessoa seja apenas estatística? Que tipo de lugar permite que simplesmente por você ser negro, faz com que você chame a atenção sendo vocalista de uma banda? Que tipo de ambiente permite que nós negros, sejamos uma minoria dentro desse tipo de acesso, acesso a esse tipo de música tão política? Dependendo da resposta que essa reflexão provoque em quem ler, estará de acordo ou não com a maneira como eu encaro “essa estatística dentro do gênero”.

Rocknbold – Além do single novo, intitulado “Então”, o que mais a NDR tá preparando pra esse 2020?

Renato Rasta – Tudo que for possível de fazer dentro de uma pandemia e isolamento. Mas, em específico, nós já temos uma música pronta que vai ser lançada em breve e estamos trabalhando em duas músicas acústicas: uma versão e uma inédita. Paralelo a isso, estamos escrevendo e pensando um disco. Mas essas coisas mudam muito de acordo com o andar da carruagem, entende?

Agora que você conheceu um pouco do NDR, que tal colar nas redes seguir eles, e claro, dar um pulo no Spotify conferir o trampo dos caras? Vou deixar aqui o último full deles. Até!