Artista de Cleveland, que conquistou espaço na indústria como rapper, mostra sua versatilidade em álbum de pop punk; com produção de Travis Barker, músico entrega canções enérgicas e agradáveis que também exploram elementos do pop e do rap

O pop punk foi febre na transição dos anos 90 para os 2000 com grandes nomes como Blink 182 e Green Day explodindo nas rádios americanas, funcionando como playlist perfeita para a geração millennial (na época, tocando em discmans; hoje, em plataformas de streaming). Em 2020, o que predomina na indústria fonográfica mainstream continua sendo a música pop, mas o rap também assumiu seu lugar como um dos gêneros mais aclamados pelo público, fazendo com que artistas mais novos ganhem visibilidade com seus trabalhos autorais. E este foi o roteiro de Colson Baker, mais conhecido como Machine Gun Kelly.

O norte-americano, que possui uma grande base de fãs onde nasceu, em Cleveland, sempre teve que se provar, onde quer que estivesse. Em 2012, lançou seu disco de estreia, Lace Up, pela Bad Boy/Interscope Records, lendária gravadora de Puffy. Desde então, foram mais três trabalhos de estúdio no rap: o surpreendente General Admission (2015), o pop Bloom (2017) e o sólido Hotel Diablo (2018) – esse último aproveitando o marketing de “Rap Devil“, diss feita para Eminem. Todos estes projetos passaram longe da unanimidade na imprensa, mas Colson não se abateu pelas críticas, afinal, nunca deixou a desejar em técnica ou flow – tampouco em letra – em todos esses anos na mídia. Por ter criado sua fanbase através de corriqueiras demonstrações de amor e união, ele afirma encontrar sua maior força nos fãs. “EST 4 LIFE“, uma espécie de ideologia seguida por artista e público, significa “Everyone Stands Together” (na tradução livre, “Todos Permanecem Juntos”). Além disso, ele ainda tem participação ativa em diversos projetos sociais em Los Angeles e em sua cidade natal.

Machine Gun Kelly em screenshot da versão acústica de "Bloody Valentine"
O caminho trilhado até o rock alternativo e o pop punk

Um dos maiores pontos positivos e de destaque da carreira de Machine Gun Kelly é, foi e sempre será, definitivamente, a facilidade do artista em colocar sentimento em suas canções. Por mais que a sonoridade talvez possa não agradar gregos e troianos, o músico possui um senso aguçado para expressar sensações e experiências através da arte de forma profunda, caminhando longe da superficialidade. Este sentimentalismo fica evidente em canções como “Glass House” e “Death In My Pocket“, de Hotel Diablo, que demonstram toda a vulnerabilidade de Baker, que desde muito cedo sofre com depressão e ansiedade, muito agravadas pelas experiências ruins do até então rapper com sua família e criação. A primeira mencionada, inclusive, fala sobre a dor que o estadunidense sente em vários momentos da existência enquanto se arrepende de não ter tido mais tempo com os amigos Nipsey Hussle e Mac Miller, falecidos nos últimos anos, por exemplo. Ainda nesta canção, MGK menciona Lil Peep (que também tinha influências similares) e conta um pouco também sobre sua amizade com Chester Bennington, vocalista do Linkin Park, com quem sempre teve ligação próxima, tal como os membros da banda Avenged Sevenfold. Em “Hollywood Whore“, também do último álbum de rap do artista, ele usa referências do instrumental de “Numb”, clássico da banda de Bennington, que se tornou um dos maiores nomes da história do gênero no início dos anos 2000 ao misturar rock e rap com maestria. A verdade é que Kelly sempre esteve rodeado de rockstars ao longo do tempo.

Machine Gun Kelly e Linkin Park
(Mike Shinoda e Chester Bennington, do Linkin Park, com MGK)

A ligação de Baker com a cultura vem desde sua infância, quando aprendia a tocar instrumentos ouvindo seus maiores ídolos e referências. Em suas apresentações ao vivo, foi um dos responsáveis por trazer o famoso mosh/circle pit dos shows de rock ao público de rap, entregando muita energia em todas as suas performances. Sua versatilidade como artista também sempre se mostrou presente ao longo da carreira na arte. Além de músico, ele também é ator. Em 2019, interpretou Tommy Lee, baterista do lendário Mötley Crüe na cinebiografia da banda para a Netflix, “The Dirt”. Algum tempo antes, fez o seu papel no sucesso “Bird Box”, também do serviço de streaming. Agora, se prepara para protagonizar um longa de suspense ao lado de Robert De Niro. Um currículo e tanto, hein?

Se suas raízes e influências vão de Tech N9ne a Linkin Park, era inevitável que em algum momento o artista mergulhasse em águas mais próximas ao estilo que deu voz a gerações anteriores. E foi em 2020 que MGK encontrou o auge de sua carreira.

De rapper a rockstar

Ao lado de Travis Barker, baterista do Blink-182, e o amigo YUNGBLUD, Kelly iniciou esta fase na discografia com o hit radiofônico “I Think I’m OKAY“. A canção, que fala sobre as dificuldades do eu-lírico em conviver inserido em sociedade desigual e intolerante, foi extremamente bem recebida pelo público e pela crítica, se tornando uma ode da nova geração aos grandes hinos do estilo do início deste século. Alguns meses depois, o músico disponibilizou em todas as plataformas a excelente e contagiante “Why Are You Here“, que fala sobre um relacionamento conturbado de idas e vindas. Entre estes lançamentos, ele ainda produziu alguns freestyles e remixes totalmente imersos no rap, como “Smoke And Drive” (gravado dentro de um carro em cima de um instrumental do amigo Mike Posner enquanto fumava maconha), “In These Walls” (que contém o sample de “My House”, da PVRIS) e uma versão na guitarra muito elogiada de “Love On The Brain“, da Rihanna.

Com o enorme feedback positivo, “Kells” correu contra o tempo para produzir e finalizar Tickets To My Downfall, primeiro disco com esta roupagem mais rockstar do músico, e o quinto de sua discografia, lançado nesta sexta-feira, (25). O resultado? Um trabalho sólido, coeso e muito bem produzido que, por mais que ainda não tenha momentos brilhantes, entrega identidade ao misturar de forma certeira elementos instrumentais do pop e do rap – como beats originados do trap, autotune e efeitos eletrônicos no background – em 15 faixas que poderiam facilmente serem performadas em um show headline da Warped Tour. No disco, MGK estabelece as próprias características abandonando flow e rimas multissilábicas, dando espaço para melodias cantadas e refrões chicletes animados em andamentos mais rápidos, direcionados especificamente a parte da geração que não suporta a necessidade social de se criar rótulos.

Se a premissa de TTMD era mostrar a faceta versátil do ARTISTA Machine Gun Kelly, o faz muito bem. Ele toca guitarra, bateria, canta e ainda possui influência direta na produção. Entretanto, o maior destaque aqui é a abordagem. É claro, em quase quarenta minutos o natural de Cleveland fala sobre temas importantes e circunstanciais da sociedade enquanto também aborda as frustrações não tão essenciais dos relacionamentos amorosos, mas há algo na linguagem rebelde de Colson que dialoga de forma sincera e abrangente com a geração atual, que cada vez mais se torna engajada em relação a aspectos sociais sobre igualdade e saúde mental.

Title Track” é a introdução perfeita para um MGK que está prestes a sair da zona de conforto. O dedilhado – feito pelo próprio – logo no início é bonito e sofisticado o bastante para criar no ouvinte a expectativa de um começo calmo e tranquilo, mas é na explosão da mudança brusca na velocidade da track, do riff memorável e da linha de bateria incendiária de Travis que é possível se imaginar o que está por vir. Tudo isso acontece, é claro, enquanto Colson fala sobre o sentimento de sempre se estar rodeado por “amigos” com segundas intenções ou interesses: “Vendi alguns ingressos para verem a minha queda / esgotaram-se em minutos, vi amigos na primeira fila / eles vão sair quando eu estiver acabado e a luz em meu nome ter se apagado, porque aqueles que te dão o gás só voltam quando a chama estiver acesa“.

Kiss Kiss“, “Drunk Face“, “Bloody Valentine” (essa, inclusive, rendeu o primeiro VMA da carreira e uma indicação na Billboard a Kelly recentemente), “Lonely“, “WWIII“, “My Ex’s Best Friend” e “Jawbreaker” demonstram um lado mais divertido do artista e, talvez, esta até seja a virada de chave na ignição de sua discografia. Entretanto, Colson ainda faz questão de soar sentimental e vulnerável o suficiente em “Play This When I’m Gone“, canção que escreveu para sua filha, Cassie: “eu lhe escrevi essa canção para que ela permaneça por aqui quando eu partir“.

Neste novo lançamento, ele ainda disserta sobre como os alheios julgamentos podem afetar aqueles que estão formando suas personalidades, como o ódio influencia diretamente na origem de conflitos internos e até de autoestima, como ainda é manipulado pelos problemas emocionais que o amaldiçoam desde criança… mas, em contrapartida, parece passear por todos esses assuntos delicados com esperança e otimismo enquanto sobe em tetos de carros em movimento e toca bons riffs em sua guitarra pink. Não que canções sobre as vivências e experiências dolorosas de seu lado mais humano não fossem atraentes ou interessantes o bastante, mas é na simplicidade de se criar e produzir que Machine Gun Kelly encontrou uma de suas maiores qualidades: a de se divertir.

É óbvio que a sonoridade do disco não traz algo antes nunca visto, mas esta definitivamente não é a prioridade aqui. Com características do rap e do pop e mergulhando em um subgênero que recentemente vem precisando de um boom no mainstream, Machine Gun Kelly consegue entregar com muita energia um dos melhores trabalhos de pop punk do ano ao não se comprometer com a “cena” abstrata do gênero enquanto flerta com a profundidade de assuntos importantes do momento e geração atual.

Tickets To My Downfall não quer roubar o holofote das bandas pop punk mais novas que buscam o estrelato na indústria, tampouco soar como um álbum vintage de grandes nomes do estilo que tiveram o auge de suas carreiras nos anos 2000, mas, na tentativa e realização de ser simples, direto e divertido o bastante, o novo álbum do rockstar em ascensão Machine Gun Kelly consegue entregar um resultado melhor do que a referência Blink-182 tenta fazer há pelo menos dez anos.

Highlights: “Title Track“, “Drunk Face“, “Bloody Valentine“, “Forget Me Too“, “Lonely“, “WWIII“, “Concert For Aliens“, “My Ex’s Best Friend“, “Jawbreaker“, “Play This When I’m Gone“.

7/10
OUÇA “TICKETS TO MY DOWNFALL” ABAIXO:
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