Rapper do Kentucky demonstra humildade ao usar seu estado de origem como porto seguro em disco de estreia; That’s What They All Say entrega a fidelidade de Harlow com suas raízes e o entendimento de seu lugar na cultura hip hop enquanto trilha o caminho rumo ao estrelato

Um jovem branco de Louisville é em 2020 uma das maiores revelações do hip hop mainstream. Esta afirmação não é uma piada, no entanto. Afinal, qual a probabilidade de um artista do Kentucky se tornar bem sucedido em uma cultura originada do povo negro vindo de um lugar historicamente conservador? Acontece que, contrariando as expectativas do estereótipo interiorano do estado, Jack Harlow é mais do que um sonhador. Entre o lançamento de várias coletâneas gravadas em casa com microfone do game Guitar Hero e a vontade de se tornar antônimo de parte do que seu lugar de origem entrega para o mercado estadunidense, ele se tornou com talento, perseverança e muita confiança no próprio trabalho um dos pontos mais brilhantes nos radares do rap. Se em 2014 lançava tracks em mixtapes independentes falando sobre como um dia sua música seria reconhecida no mundo todo, hoje, quase sete anos depois, pode ser apontado como um dos grandes novos artistas do gênero.

Jack Harlow (Rapper) Wiki, Age, Girlfriend, Family, Biography & More –  WikiBio
(Jack e amigos durante turnê – Divulgação/Reprodução)

Jack não se esquiva das responsabilidades como rapper branco em um mercado sistematicamente racista. Segundo o próprio, compreende que parte do público ainda prefere consumir produtos vindo de artistas brancos do que negros sem nem saberem que estão alimentando um problema cultural. Em compensação, tenta com sua música conscientizar o público que não há mais espaço para preconceitos ou discursos de ódio em uma sociedade moderna como a atual: “É óbvio que na minha posição nunca saberei na pele o que é ser discriminado por minha cor. Cresci com amigos negros ao meu redor e vi o que eles passaram. Mais do que ser contra, nós precisamos destruir o racismo“. Além do pensamento e entendimento necessário para um branco conquistar o mínimo respeito em uma cultura originalmente negra – como fez Mac Miller, por exemplo – , Jack também é o idealizador do coletivo Private Garden, que busca dar visibilidade e suporte a novos artistas predominante negros. O músico fala sobre o assunto em “Baxter Avenue“, faixa presente no recém lançado primeiro álbum de estúdio da carreira, That’s What They All Say: “Sempre me questionei se eu realmente podia ser líder de um grupo com meus amigos enquanto não sou um deles; algumas coisas que eles enfrentaram enquanto cresciam eu não vivi, diferenças em como fomos criados me fizeram sentir e entender que não sei o que eles sabem, isso sem mencionar a distância entre as casas dos meus pais e a dos deles“.

O artista esteve presente ao lado do cantor e amigo Bryson Tiller, Jamon Brown (atleta do Atlanta Falcons na NFL) e D’Angelo Russell (atualmente armador do Minnesota Timberwolves, da NBA) nas recentes manifestações contra a polícia norte-americana, responsável pelo assassinato brutal de duas pessoas negras: George Floyd e Breonna Taylor. Abertamente apoiador do movimento Black Lives Matter, ele aparenta entender o seu lugar na indústria ao começar a se solidificar como um produto mainstream. Este posicionamento vindo de mais um branco no rap não deve ser motivo para exaltação, entretanto.

Louisville Black Lives Matter Protests by D'Angelo Russell, Bryson Tiller,  and Jack Harlow
(Jack Harlow, Bryson Tiller e o jogador Jamon Brown nos protestos em Louisville – Logan Linkmeyer)

22 anos e o mundo nas próprias mãos

Com apenas 22 anos, Harlow estourou no mercado fonográfico na primeira metade dos últimos doze meses com o hit arrebatador “What’s Poppin’“, que alcançou o segundo lugar nos charts da Billboard. O beat grave simples e a repetição de curtas notas de teclado grudam na cabeça como os lançamentos planejados de nomes experientes como o de Drake, uma máquina de vendas que aparenta lançar um novo trabalho a cada dois meses para permanecer com a roda girando. Jack possui semelhanças com o canadense tanto em algumas sonoridades quanto em relação a comercialização de seu produto: ele aparenta ter estudado muito o mercado nos últimos anos. O remix da faixa citada acima, com Da Baby, Lil Wayne e Tory Lanez, alavancou ainda mais seu sucesso, que explodiu de vez nas rádios e playlists nas plataformas em todo o mundo. É verdade, ao ouvir os maiores hits de sua carreira você pode pensar que ele quer fazer canções apenas para festas em universidades, mas há muito mais em seu trabalho do que o mainstream quer vender. Jack Harlow leva consigo a cautela essencial para um artista que acabou de “explodir” não se perder ao adentrar o universo das celebridades.

Em relação ao hate que recebe na internet, Harlow ainda permanece lendo comentários tóxicos em seus vídeos e fotos no YouTube e Instagram, mas consegue tornar essas ofensas em combustível para a carreira: “É, eu meio que ainda vejo piadas sobre ser branco e saber rimar, variar meus flows e brincar com as melodias, consigo entender de onde vem isso. O engraçado é que a maioria das pessoas brancas de onde eu vim que tentam desvalorizar o que faço são as que gostariam de estar no meu lugar. Acho que esse foi meu combustível pra chegar onde estou. A track sobre o Tyler Herro veio daí. Eu estava escrevendo algumas canções na quarentena e vi o comentário de um garoto que me deixou puto e, naquela semana, eu tinha saído com o Tyler“, disse ele em entrevista a Complex.

Apaixonado por esportes como futebol e futebol americano e espectador fanático da NBA, o também cantor é amigo próximo de vários atletas da liga, e foi assim que o segundo hit de seu debut, “Tyler Herro“, já ultrapassou a marca de 100 milhões de plays no Spotify. Tyler, revelação recente do esporte, foi finalista da última edição da liga pelo Miami Heat, sendo um dos destaques da campanha do time, que foi muito criticado no início da temporada por não ter reunido um elenco de peso para a disputa do título. Jack viu sua história na pele do amigo esportista Tyler, que chegou ao alto nível sendo considerado um azarão. Aqui, fala mais uma vez sobre sua agora vida luxuosa rodeado de modelos, bebidas e carros caros, mas também manda diretamente o recado: “todos aqueles que me criticam se parecem exatamente comigo“.

Neste primeiro disco completo de estúdio, o jovem insere além das próprias paixões as suas opiniões e gostos pessoais sobre a cultura pop e de entretenimento através de trocadilhos, como uma piada infame onde brinca com uma das maiores boybands dos EUA: “trouxe uma gangue comigo para essa festa: cinco garotos brancos, mas, relaxa, eles não são o NSYNC“. Em “Route 66“, mescla palavras ao se referir a Rajon Rondo, do Los Angeles Lakers, equipe vencedora da última temporada do campeonato, justamente contra o Heat de Herro.

Jack não é um rapper revolucionário, mas por carregar consigo frequentemente suas origens e falar abertamente sobre gostos populares, consegue chamar a atenção do público fazendo, em teoria, algo diferente de outros artistas altamente rentáveis que preferem manter portas abertas com patrocinadores e marcas ao invés de expressarem o apreço por produtos de indústria que todos consomem. Entretanto, na sonoridade ele não quer experimentar melodias ou instrumentos incomuns do que é facilmente encontrado nas primeiras posições de listas das mais ouvidas no Spotify, mas é na naturalidade de se criar versos em diversos tipos de melodias e harmonias que obtém destaque. Talvez o seu amor por artistas dos anos 70 tenha o ajudado em sua musicalidade: o natural de Louisville é completamente apaixonado por Caetano Veloso e Tom Zé, por exemplo. Seus ídolos vão desde Outkast e Drake a Gwen Stefani e Black Eyed Peas.

Harlow carrega consigo características próprias, como o flow de “What’s Poppin”. Se sua prioridade é rimar enquanto mergulha em um beat trap moderno igual no feat. com Big Sean “Way Out” – que conta com um instrumento de corda que dá uma atmosfera latino-americana a track -, também entrega com facilidade boas canções quando explora elementos do R&B, do blues soul, do boombap e do trap lo-fi, como em “Same Guy“, colaboração com o vocalista do Maroon 5, Adam Levine – que possui uma linha de baixo invejável e uma referência a um dos trabalhos favoritos de Jack, Confessions, de Usher – e no kick/snare anos 90 da bateria acústica de “Rendezvous“, que introduz sua história ao público.

Jack Harlow para a Forbes - 2020
(Jack Harlow para a Forbes)

Already Best Friends“, com Chris Brown, fala sobre as idas e vindas de um relacionamento em um ótimo soft trap lo-fi melódico com vozes pluralmente graves e agudas no background a lá Boyz II Men que funcionaria perfeitamente como um single de Breezy com T-Pain na MTV em 2006 ou como um dos maiores destaques no excelente Trapsoul, do amigo Bryson Tiller, de 2015. “Keep It Light“, traz o gosto pela música negra norte-americana dos anos 50 e 60 com instrumental recheado de vozes em um típico coral gospel acompanhado de mais uma linha de baixo excelente que poderia facilmente estar presente em um novo trabalho de J. Cole. Na caneta, escreve sobre seu lado mais sensível com honestidade: “Todas as crianças com quem cresci hoje me olham e me parabenizam; algumas se formaram, outras tiveram filhos, mas todas elas olham para minha vida e dizem ‘isso é maravilhoso’ (…) mas eu mantenho a humildade para que você possa se divertir“.

Jack Harlow sabe do que é capaz e esse é o seu arsenal para manter o público interessado no que ele pode fazer. De forma inteligente, mistura influências com a visão de mercado ao explorar tendências no primeiro e gigantesco álbum de estúdio de sua discografia, que foi extremamente bem produzido em sua totalidade. “Face Of My City“, com Lil Baby, cita diversos estabelecimentos de sua cidade natal enquanto discursa sobre sua rotina insana como celebridade num som que poderia funcionar bem como outra collab entre Drake e Rick Ross ou G-Eazy e A$AP Rocky. “Luv Is Dro” entrega o trap soul em seu mais perfeito estado (talvez até por isso tenha produzido essa canção ao lado de Bryson Tiller): leve, instigante e atrativo a diversos tipos de público, seja numa festa ou em um date com quem se ama.

Song You Need To Know: Jack Harlow, 'Thru The Night' - Rolling Stone
(Foto: Rolling Stone)

Contudo, por mais que haja similaridades na sonoridade de Jack Harlow com nomes super comerciais como Post Malone e Drake, ele não quer ser cópia do que faz sucesso; muito menos de quem faz sucesso. Harlow parece assumir com leveza a responsabilidade de colocar seu estado natal no mainstream do rap game, contrariando a história e as expectativas, afinal, nem só de frango frito se vive o Kentucky.

Se o artista é um azarão que conseguirá se manter em relevância no hip hop por alguns anos ninguém sabe, mas é bom enxergar que ao misturar fórmulas comerciais e a intimidade de suas perspectivas Jack Harlow consegue se destacar muito distante de ser apenas um simples produto para sua audiência branca, despertando um interesse incomum de distintos tipos de público no trabalho de um novato caipira nerd que possui o brilho natural de quem nasceu com a ambição de não se contentar com a mediocridade.

Highlights: “Rendezvous“, Already Best Friends“, Keep It Light“, Creme“, “Same Guy“, “Route 66“, “Tyler Herro“, “Luv Is Dro” e “What’s Poppin’

7/10

LEIA MAIS: