“The Off-Season” consolida J. Cole como um dos melhores rappers da geração

Artista lançou nesta sexta-feira, (14), novo e aguardado sexto álbum de estúdio, The Off-Season; muito além de diferentes flows, métricas e até feats, J. Cole entrega com agressividade e energia a honestidade daquele que personifica um dos pilares da cultura hip hop

Jermaine Lamarr Cole, artista que também é produtor e agora se prepara para realizar o sonho de ser jogador profissional de basquete na Basketball Africa League, parceira da NBA, no auge de seus 36 anos, nasceu em uma base do exército norte-americano na Alemanha, mas cresceu no estado da Carolina do Norte, na cidade de Fayetteville, nos Estados Unidos. Criado pela mãe, Jermaine quase decidiu trilhar sua carreira no basquete, mas foi durante a adolescência que ele começou a escrever rimas e se apaixonou pelo hip hop, muito influenciado por Nas, Tupac, Biggie Smalls e Eminem. Nesta sexta, 14 de maio, o rapper, conhecido mundialmente como J.COLE, lançou o aguardado sexto álbum de estúdio de sua ótima discografia, The Off-Season (na tradução livre algo como “período fora de temporada”, fazendo alusão ao que na NBA é a parte de preparação e foco do real campeonato, onde os times se classificam em suas conferências para jogarem os “playoffs”).

Apadrinhado e querido por Nas e JAY-Z -, Cole começou a fazer sucesso nos EUA com o lançamento da mixtape The Warm Up em 2009 (na tradução livre algo como “o aquecimento”, em referência ao amor pelo basquete e a preparação para se conquistar espaço na cena), mas foi quase dois anos depois com o debut Cole World: The Sideline Story que o músico começou a chamar a atenção de todo o planeta – na época, ele já havia assinado com a Roc Nation, selo e gravadora de Jay-Z.

Tracks como “Work Out” e “Lost Ones” se tornaram parte da trilha sonora da geração que crescia no início da década, assim como “Power Trip” (colaboração com o excelente Miguel), “She Knows” (ao lado de Amber Coffman & Cults), “Let Nas Down” e a ótima “Forbidden Fruit” com Kendrick Lamar, todas divulgadas em 2013 com o lançamento de seu segundo disco, Born Sinner. Ainda naquele ano, ele foi citado por Kendrick em “Control“, canção em colaboração a Big Sean e Jay Electronica que fez muito barulho na indústria. Como forma de resposta (dá pra chamar de diss?) ele dedicou algumas linhas a alguns rappers em seu verso no remix de “TKO” de Justin Timberlake com A$AP Rocky e Pusha T. Com o feedback positivo e cada vez maior no cenário, Cole então se preparou para lançar o que hoje é considerado por muitos um dos melhores discos de rap do século XXI.

A obra-prima da carreira

Após o sucesso comercial de Born Sinner e o barulho na cena, Cole voltou ao estúdio para gravar o histórico 2014 Forest Hills Drive, que se tornou um clássico instantâneo com faixas extraordinariamente pontuais e essenciais. Sejamos sinceros: quem nunca ouviu a intro de “No Role Modelz” e não sentiu vontade de berrar “FIRST THINGS FIRST, REST IN PEACE UNCLE PHIL” a plenos pulmões? Quem já ouviu este disco provavelmente não esqueceu da frase “THE REAL IS BACK, THE VILLE IS BACK“, que inicia “January 28th“. Quem nunca pensou num amor colegial ao som de “Wet Dreamz“, se perdeu em autoanálises existenciais com “Love Yourz“, abriu os olhos para a injustiça racial dentro do cenário com “Fire Squad” (onde o músico cita e questiona a indústria que vende artistas brancos como Macklemore, Iggy Azalea e Eminem com muito mais frequência e facilidade do que artistas negros) ou não quis bater cabeça com a dualidade de “A Tale Of 2 Citiez“, que posteriormente ganhou um remix com Kendrick em “Black Friday“?

03′ Adolescence“, “Apparently“, “Note To Self” e até mesmo “Intro” são outras grandes e irretocáveis canções do trabalho, principalmente por contarem a realidade do povo negro em um dos lugares mais racistas do mundo. Jermaine, inclusive, esteve presente nas recentes manifestações BLM na cidade onde cresceu e se prontificou a arrecadar fundos para as famílias afetadas pelos assassinatos bárbaros da polícia estadunidense contra cidadãos e cidadãs de pele preta. Deixando de lado o rótulo de “ativista”, Cole ainda auxilia centenas de famílias em sua cidade através da Dreamville, selo e gravadora que criou por volta de 2007, afim de contribuir no lançamento de carreira de diversos artistas e de dar oportunidade para muitos jovens que nunca teriam as mesmas chances que o resto da população por se encontrarem justamente em situações deploráveis de desigualdade social e racial, algo que acontece nos Estados Unidos historicamente desde sempre.

2014 Forest Hills Drive foi tão aclamado por crítica e público que ganhou certificado de platina sem obter nenhuma participação ou colaboração especial no disco, tudo isso em apenas uma semana, quebrando o tabu de um rapper alcançar a primeira posição de vendas nos charts norte-americanos sem qualquer tipo de feat ou collab em um único álbum após mais de 20 anos. O feito, inclusive, se tornou marca registrada na carreira do artista e fenômeno cultural no rap após ele ter sido esnobado pelo Grammy no ano seguinte (como dizem por aí: “fuck the Grammys, Cole went platinum with no features“).

J. Cole, 2014 Forest Hills Drive
(Capa em alta resolução de 2014 Forest Hills Drive)
A genialidade de um storyteller

Mesmo após dois anos do lançamento de sua obra-prima, o artista permanecia em relevância ainda que Drake, Big Sean e alguns outros da mesma era permanecessem lançando trabalhos comercialmente rentáveis. Durante este período entre turnê e descanso o rapper constantemente era alvo de rumores onde supostamente estaria pronto para lançar um álbum colaborativo com o amigo Kendrick Lamar, que conquistava o mais alto patamar da música mundial com o perfeito A Pimp To Butterfly, de 2015. O burburinho, entretanto, se tornou lenda na comunidade. O mais próximo que tivemos de um collab album dos dois maiores rappers da geração foi uma participação de KDot no refrão da faixa “Under the Sun“, presente em Revenge of the Dreamers III, com Lute e DaBaby, da Dreamville – projeto colaborativo que reúne os artistas da gravadora -, e algumas raras aparições em apresentações ao vivo durante turnês.

Rumores pra lá, fake news pra cá, em 2016 o rapper da Carolina do Norte retornou com 4 Your Eyez Only, seu quarto álbum, e um documentário pra lá de importante acerca de suas origens. Nas filmagens do projeto, encomendado pela HBO, Cole havia antecipado duas canções de sua nova fase: “False Prophets” e “everybody dies“, que foram diretamente relacionadas a nomes como Kanye West devido algumas linhas dos versos, criando certo hype em cima do trabalho que seria disponibilizado algum tempo depois. Até hoje não se sabe ao certo para quem Jermaine direcionava tais rimas, entretanto.

O disco, com dez músicas, apresenta um dos storytellings mais bem produzidos e bem contados do hip hop moderno, com faixas íntimas e vulneráveis sobre a história de vida de Cole e de amigos próximos de seu bairro (referência a DreamVILLE, que já é uma referência à cidade onde cresceu, FayetteVILLE), representadas através da grande carga emocional ao redor de uma obra audiovisual muito sólida que mostra e conta o dia-a-dia de parte do povo estadunidense enquanto passeia por sonoridades predominantemente influenciadas pelo jazz, indo muito além do que sempre é vendido para o mundo em relação ao “sonho americano”. O buraco da realidade está muito mais abaixo da superfície mostrada pela mídia.

É impressionante como o artista se envolveu neste projeto também por trás das câmeras e do microfone. O desenvolvimento natural de uma ideia principal pode ser acompanhado em quase uma hora de filmagens reais sobre o processo criativo de algumas faixas e o documentário original.

(J. Cole durante cenas gravadas para o documentário de "4 Your Eyez Only")
(J. Cole durante cenas gravadas para o documentário de “4 Your Eyez Only”)

O conceito de STORYTELLER (na tradução “contador de histórias”) pode ser aplicado em diversas áreas, mas quando se é referido na arte deve significar tanto a persona que cria certa narrativa ficcional quanto alguém que conta as próprias experiências em forma de narração, ilustrando determinadas situações, contextos e ambientações. E este é o significado quase que literal de 4 Your Eyez Only.

Ao se colocar em diferentes perspectivas e divagar na autoreflexão, Cole pinta um quadro para aqueles que não conhecem a vida real de milhares de pessoas dentro e fora do país, abordando temas como o abandono e a falta de apoio do governo em relação às classes mais baixas e histórias reais de pessoas de sua área que foram brutalmente assassinadas ou que na necessidade foram atraídas pela criminalidade. Segundo o músico, a sua ideia é mostrar “como a mídia marginaliza os cidadãos que vivem em áreas mais violentas ou precárias“, além de enfatizar como o racismo ainda é um dos maiores motivos da morte de cidadãos negros em todo o território estadunidense. Tracks como “For Whom The Bell Tolls“, “Immortal“, “Change“, “Ville Mentality“, “Deja Vu” e “She’s Mine” apresentam sonoridades mais sutis com violinos e até metais apoiados por backing vocals a lá corais de igrejas dos anos 60, mas os maiores destaques da obra, entretanto, ficam com “Neighbors“, – que conta um episódio da vida do artista onde a SWAT invade seu homestudio e confisca quase um milhão de dólares após supostas denúncias anônimas que os moradores da residência seriam traficantes – e a track que dá nome ao disco.

4YEO” enfatiza como J. Cole é, na atualidade, o melhor contador de histórias do rap. Em quase nove minutos ele parece fazer um freestyle sincero e honesto o bastante para entregar à filha de um amigo próximo que foi brutalmente assassinado assim que ela estiver pronta para conhecer e entender a realidade do próprio pai, que aparentemente era envolvido no crime desde muito novo. Não há como destacar uma ou duas rimas em uma canção como essas da mesma forma que é quase impossível se grifar com marca-texto a melhor parte de um livro em um contexto geral, mas o play se justifica principalmente pelos dois últimos versos. Contudo, ainda que também tenha conquistado platina, o disco não agradou parte de sua fanbase que não entendeu os motivos por trás da mudança brusca na sonoridade.

A perfeita leitura do jogo

Em 2018, menos de dois anos depois dos números e feedbacks de 4YEO, o MC anunciou o lançamento de K.O.D, seu quinto disco, e a criação da “The Fall Of Era“. O significado da sigla é “King OverDose“, “Kids On Drugs” e “Kill Our Demons” (“Rei Overdose”, “Crianças nas Drogas” e “Mate Nossos Demônios”).

O álbum também conquistou platina, mas ganhou destaque na indústria por possuir uma abordagem muito mais direta em relação a política e ao “rap game” do que qualquer outro trabalho que o artista havia feito anteriormente. Faixas como “KOD“, “ATM“, “Motiv8“, “Friends“, “Window Pain” e “1985 – Intro to the Fall-Off” (que inicialmente foi considerada uma diss a Lil Pump) falam diretamente com o público mais jovem, alertando parte da geração sobre o abuso excessivo de substâncias lícitas e ilícitas que são frequentemente romantizadas e endeusadas por artistas, além de também mencionar o crescente número de casos de pacientes diagnosticados com problemas psicológicos como ansiedade, depressão e pânico. Ainda neste trabalho, Jermaine dá vida a sua outra persona, KILL EDWARD, e experimenta apresentar dois pontos de vista em algumas canções como “The Cut Off“. Na prática, “os feats” não funcionam exatamente como deveriam pois os efeitos distorcidos na voz de seu alter ego não são bons, mas quando Cole reserva espaço apenas para destrinchar suas visões e sua própria verdade, o faz muito bem.

Com sua turnê a pleno vapor, o rapper decidiu parar por um tempo e focar no que todos o pediam já há muitos anos: colaborações. E foi aí que ele mudou de patamar outra vez. Com tracks excelentes e frequentemente nos primeiros lugares dos charts, o músico fez participações em faixas de Ty Dolla $ign, J.I.D, Royce Da’59, Jay Rock, Wale, 6LACK, Miguel e vários outros, mas as que mais chamaram atenção definitivamente foram “The London” com Travis Scott e Young Thug, “Tribe” com Bas (que se tornou até soundtrack do game FIFA 20) e “a lot” com 21 Savage, que rendeu o primeiro Grammy da carreira do artista para “Melhor Canção de Rap”.

Após esta cartada inovadora para a própria carreira, muitos se questionavam quando se ouviria um novo trabalho de Jermaine novamente. É muito difícil ver o rapper se expondo de forma desnecessária por aí, ainda que nos últimos tempos ele tenha se aproximado muito de grandes atletas da NBA. Provavelmente a ideia e o padrão do mercado em sempre capitalizar ao máximo um disco ou single via planejamento e estratégias de marketing não agrade Cole – e isto é visto em KOD, onde há diversas metáforas acerca da postura e comportamento de alguns MCs nas redes sociais ao ganharem muito dinheiro, por exemplo. Contudo, na última sexta-feira, (14), chegou em todas as plataformas de streaming The Off-Season, o novo e tão aguardado trabalho após tantos feats hypados e finalmente um troféu do Grammy. Valeu a pena a espera?

O arremesso certeiro que precede a partida

The Off-Season é um dos três melhores discos da discografia de J. Cole, mas seria incontestavelmente o trabalho perfeito de sua carreira ao lado de “2014 FHD” se fosse lançado como mixtape, já que a abordagem é um pouco mais íntima e informal, retratando o dia-a-dia das ruas com muita proximidade à realidade enquanto discursa sobre seu amadurecimento dentro do rap. Entretanto, a premissa não é soar quadrado ou tornar a obra um produto facilmente consumível por diversos tipos de público, ainda que o faça em canções que soam mais comerciais que outras, aproveitando instrumentais influenciados pelo trap e o autotune; tudo isso fica claro quando o rapper resolve lançar como “single” o interlúdio do disco, mencionando os falecidos e notórios Pimp C e Nipsey Hussle. Como se ainda não fosse o bastante, ele criou expectativa o suficiente também com seu primeiro freestyle em quase dez anos, dessa vez no famoso LA Leakers.

Em seu sexto disco de estúdio Cole claramente não se importa em apenas fazer dinheiro e muito menos em atingir o maior número de pessoas possível, assim como também não volta a se questionar sobre adversidades acerca da existência e do caminho a se percorrer até o estrelato, mas sim enfatiza que é, de fato, um dos maiores da geração, sabendo até onde quer e pode ir. Jermaine não entrega um trabalho versátil, ainda que seja muito maleável e adaptável em relação a qualquer tipo de sonoridade explorada, mas direciona o disco com clareza ao caminho que deseja: a de conquistar o que é seu por direito. Esse discurso, analisado de forma individual e sem qualquer contexto, talvez soe egocêntrico e até narcisista, mas tendo uma carreira sólida como a do artista e após ter passado tantos anos abrindo portas para novos MCs e criando obras que vão muito além de apenas bons sons, a confiança em si mesmo é fruto natural de toda uma vida dedicada a arte e a cultura hip hop. É nessa linha tênue que o rapper se transforma em referência e dá outro significado às suas reverências.

Como diz a intro explosiva com a ilustre presença de Cam’ron e um enorme final sampleando Lil Jon, “95 . s o u t h“, que parece ter sido feita na transição dos anos 90 para os anos 2000, com alusões diretas a JAY-Z em um beat mais lento, característico do fundador da Roc Nation: “essa merda ficou fácil demais de fazer, Cole vem ganhando platinas desde que por aí ainda estavam os CDs“. O nome da canção é uma referência à “Interstate 95”, estrada interestadual que liga os extremos norte e sul da costa leste dos Estados Unidos, alusão direta às origens de Cole na Carolina do Norte e Nova Iorque. Aqui também há menções a Nelly e Kid Cudi. Definitivamente essa é uma das melhores intros da discografia do artista.

É impossível falar de The Off-Season sem mencionar que em TODAS as faixas presentes no disco os maiores destaques são os flows utilizados pelo MC, principalmente quando analisados através das punchlines, que exploram com maestria efeitos na voz enquanto Cole versa em cima de instrumentais de diversos compassos – que de vez em quando vão além das conhecidas “16 barras”, coisa que não havia sido priorizada em sua carreira antes do lançamento do hit “MIDDLE CHILD” no fim de 2019 (single irretocável produzido por T-Minus onde o rapper assume o posto de “irmão do meio” e se enxerga como exemplo para artistas mais jovens como 21 Savage e Lil Baby – e daí você entende mais ainda a postura adotada em K.O.D) enquanto ainda diz aprender muito com os maiores nomes da cultura.

a m a r i” explora o trap atual com uma canção melódica a lá Travis Scott e Young Thug, repleta de melodias pegajosas nos refrões. Outra grande faixa que começa a fazer com que o ouvinte entenda os motivos por trás da decisão de Cole ter reunido um grande time de produtores, ainda que ele mesmo esteja creditado em todas as faixas também como produtor. Talvez seja por isso que em relação a mixagem e masterização o resultado final felizmente também seja muito sólido. Cole e Timbaland: quem diria?

Produtores de "The Off-Season", álbum de J. Cole
(Produtores de “The Off-Season”, álbum de J. Cole)

Jermaine colhe os frutos de seu próprio talento e visão quando acelera os versos e dita o arranjo e a melodia das canções, quando parte para frases mais cantadas com autotune ou melodyne, quando versa com agressividade, quando utiliza de forma classuda samples do blues e do soul para rimar com mais velocidade em cima de instrumentais sustentados por teclados e vozes dobradas (ou excelentes backing vocals), quando faz uso de metáforas e trocadilhos para se referir a astros da NBA como Russell Westbrook, Lebron James e Stephen Curry… isso quando não conta com o brilho das colaborações pontuais do disco. Sim, você leu certo: colaborações. FEATS!

m y . l i f e“, por exemplo, com 21 Savage e Morray, é quase uma sequência do hit ganhador do Grammy “a lot“, onde o instrumental segue o mesmo andamento da track lançada em 2019 com um arranjo e sample muito similar. Tem potencial pra outro prêmio na Academia. Se este não for o caso, é óbvio que a canção já nasceu um hit. Essa é, sem dúvida alguma, uma das dez melhores músicas da carreira dos três artistas. O refrão de Morray é melódico, melancólico e esperançoso, assim como as linhas de 21 Savage que carregam certo peso emocional. Que track.

a p p l y i n g . p r e s s u r e” é um boombap redondinho a lá Wu Tang Clan onde o MC não poupa esforços para mostrar sua versatilidade, dando mais uma vez conselhos (ou AULAS?) a outros rappers: “se você está fodido e quebrado mas ainda assim paga de milionário, a piada é você“. Ouch. “p u n c h i n ‘ . t h e . c l o c k“, diminui o ritmo do trabalho de uma forma geral e conta com um curto discurso de Damian Lillard, retirado de uma entrevista do astro da NBA após um jogo onde ele marcou mais de 60 pontos em 2020.

Outro grande ponto positivo do álbum é a presença de Bas, amigo íntimo e parceiro artístico de Cole já há alguns anos, que mostra ser também um excelente vocalista, expandindo seus horizontes e range. “1 0 0 . m i l ‘” é a prova, com melodias arrastadas e cantadas após o segundo verso, soando como as produções de Kanye West entre Graduation e 808s & Heartbreak.

Como se as participações especiais já não fossem brilhantes o bastante, Lil Baby agiganta “p r i d e . i s . t h e . d e v i l“, uma canção sobre orgulho que também já nasceu hit: “tenho parentes orgulhosas demais para pedir desculpas, fui percebendo lentamente qual é a raiz de todos os meus problemas e isso faz com que eu me sinta diferente quando alguém diz que está orgulhoso de mim“. Com um beat trap marcadinho a lá Russ em suas “não tão ruins” faixas, graves altíssimos e versos velozes e/ou cantados, um dos maiores nomes em ascensão na indústria torna a track um dos grandes pontos do disco, chamando a atenção do ouvinte quando começa a rimar logo após uma das melhores transições do hip hop dos últimos tempos. Leve. Estético.

l e t . g o . m y . h a n d” com Bas e 6LACK traz de volta a sonoridade já visitada em 4 Your Eyez Only, utilizando influências do jazz para os MCs escreverem sobre conflitos internos e demonstrarem suas visões acerca da indústria atual, mas o que mais chama atenção é uma frase curiosa de Cole: “minha última briga foi com Puffy Daddy, quem diria? Eu comprei o álbum dele de um mano na sétima série e botei pra tocar muitas vezes, você certamente pensaria que meu rapper favorito era Puff, naquela época eu não sabia de merda nenhuma mas agora eu sei muita coisa, a ignorância é uma benção e a inocência é apenas ignorância antes de ser introduzida a dinheiro ou armas“. Após tantos rumores, aparentemente Cole realmente foi as vias de fato com Diddy por volta de 2013. Um dos fundadores da Bad Boy/Interscope Records e um dos maiores artistas da cultura, Puff foi grande amigo de Notorious B.I.G e um dos pilares do conflito entre Costa Leste e Oeste nos anos 90. Há rumores e teorias que o suspeito de atirar em Tupac, Orlando “Baby Lane” Anderson, era parente de um dos seguranças particulares de Puffy. Ainda não se sabe se o rapper da Carolina do Norte se refere exatamente ao que aconteceu com Pac, se a briga teria acontecido após Diddy ter o ofendido em um vídeo, se os rumores do “beef” ter sido criado por conta de Kendrick Lamar e seu verso em “Control” onde se autodeclara “rei de Nova Iorque” são verdadeiros… não se sabe. Entretanto, essa é a primeira vez que Jermaine expõe de forma clara alguma desavença que obteve com algum outro artista depois de tantos anos de carreira. É perceptível que o MC mencionou a situação pois claramente faz referência às origens e os lugares onde cresceu e viveu parte da vida, que são semelhantes aos de Diddy. Ainda há algo entalado na garganta, Sean?

i n t e r l u d e” é um interlúdio fora da curva que faz citações a nomes que já se foram e deveriam ser mais valorizados na cena, segundo Cole. “t h e . c l i m b . b a c k“, o primeiro single divulgado do álbum, é uma das melhores tracks da carreira do rapper muito pela abordagem similar a “MIDDLE CHILD”, com versos e trocadilhos inteligentes como quase o primeiro verso inteiro (a linha sobre flipar como a letra I que invertida se torna um ponto de exclamação é NOJENTA). Além disso, artista questiona o público atual sobre a cultura do cancelamento, dizendo que apenas uma ligação basta para as pessoas o taxarem como “homofóbico” ou algo do tipo momentos antes de também o chamarem de “um dos melhores de todos os tempos igual chamam Chief Keef de Sosa“. A interpretação é por sua conta e risco, mas fica claro que Jermaine fala aqui sobre a necessidade de atenção e aceitação das pessoas na internet, que precisam frequentemente darem seus posicionamentos sobre tudo e se sentirem inseridas dentro de algo.

c l o s e” é uma ótima faixa e explora a fonética final das palavras com sílabas similares durante toda a canção. Nível técnico altíssimo. O pontapé com referência ao ídolo e padrinho Nas também é muito sútil. O disco se encerra com um “até breve” excelente em “h u n g e r . o n . h i l l s i d e“, também com Bas – mais uma vez obtendo destaque por seus versos melódicos e cantados – , que discute sobre como o MC se enxerga após ter alcançado o maior patamar da indústria, expressando seus sentimentos acerca de como conquistou respeito e aceitação no rap com humildade, foco e muita perseverança: “as coisas vão ficar difíceis mas mantenha a cabeça no lugar, o dinheiro talvez suma mas o respeito não / toda a dor que você carrega faz você valer o seu peso em ouro“. Algumas linhas no fim da track, inclusive, parecem ser direcionadas a Drake.

Tracklist de The Off-Season, novo álbum de J. Cole

Na tentativa de soar como um dos pilares do mercado fonográfico não só do hip hop mas também dos Estados Unidos inteiro, J. Cole o faz com raiva e energia ao entregar doze faixas que mesclam elementos característicos do jazz, do soul, do blues ou do R&B, utilizando até samples de grandes clássicos da história da música negra estadunidense e reunindo parte dos maiores produtores do cenário para atrair atenção ao resultado final, que pode ser considerado como um gigantesco disco de rap, muito também por não se prender apenas a elementos computadorizados. Você ouvirá neste sexto álbum de estúdio de Jermaine diversos instrumentos acústicos como linhas de guitarra, baixo, teclado e um excelente uso da caixa da bateria. Tudo soa orgânico ao mesmo tempo que parece moderno demais para ornar com sonoridades e elementos muito distintas, mas o resultado final é surpreendentemente positivo, ainda que não seja tão funcional no mainstream – e essa nem é a prioridade aqui.

O trabalho age como se o rapper estivesse cansado de ouvir os maiores lançamentos e tendências da música atual e demonstrasse para todos aqueles que ainda priorizam majoritariamente dinheiro e fama que fazer o que eles fazem é muito fácil para quem enxerga a cultura por outras perspectivas. Essa é a primeira vez que você o verá rimando com autotune em parte majoritária de um disco, por exemplo, e utilizando flows que são usados e reciclados de forma genérica nos singles mais consumidos nas plataformas.

A entrega da coroa àquele que nasceu rei

O grande diferencial do artista criado em Fayetteville em relação a outros nomes da indústria se dá pelo fato dele soar honesto, vulnerável e humanizado o bastante a ponto de fazer com que seus fãs o enxerguem não apenas como uma celebridade ou estrela da música, mas sim como uma referência próxima. Essa relação quase fraterna faz com que de vez em quando o artista não se sinta confortável o bastante para se expor além de sua própria arte, o que causa estranheza em seu tão apaixonado público que sempre espera por posicionamentos acerca dos diversos assuntos que rodeiam o cenário e até mesmo a realidade do país. É neste espaço de talvez soar “blindado” por sua fanbase fiel que Jermaine recebeu algumas críticas nos últimos anos, ainda que seja da personalidade do artista ser naturalmente um pouco mais introvertido. É verdade, J. Cole já deu ao público tudo o que eles queriam (exceto o álbum com Lamar, continuamos no aguardo) e não precisa provar mais nada a ninguém, afinal, trabalhos como 2014 Forest Hills Drive estarão para sempre marcados na história do hip hop, entretanto, há muito o que se discutir em relação ao que torna um álbum em um clássico. Por exemplo, é inegável que All Eyez On Me de Tupac é um dos maiores trabalhos da história da cultura, assim como Ready To Die de Notorious BIG, Illmatic de Nas, Straight Outta Compton do N.W.A, The Chronic de Dre e tantos outros, mas o que tornou estes discos referências? Agressividade e punchlines, beats/instrumentais, letra, produção, toda esta mistura ou como o trabalho afeta e representa quem o ouve? O conceito de se expressar artisticamente, desde os primórdios da existência da arte, sempre foi fazer com que o ouvinte/espectador pudesse sentir algo ou se sentir representado. Ainda que não siga os padrões e a exatidão das regras da cultura ocidental, o gênero originado das raízes africanas ainda assim também prioriza a vontade e o dever de um artista demonstrar suas visões e posicionamentos através de sua expressão artística.

Contudo, a indústria fonográfica é muito mais cruel na prática do que na teoria, ainda mais em um século onde a modernização e o avanço tecnológico é constante. É difícil chegar no topo, mas ainda é mais complicado se manter nele. Este é um dos motivos de Jermaine saber e conhecer todas as quadras onde joga e ter a noção de contra quem está jogando. Fora ou dentro de casa, o rapper sabe com quem deve fazer música, o que deve falar em uma entrevista, como deve utilizar sua facilidade em rimar por cima de diversos tipos de beat em diversas sonoridades, como pode aconselhar novos artistas e ainda assim permanecer aprendendo com suas referências e muito mais. Não é como se fosse um produto com bons assessores ou se tivesse por trás de seu nome uma equipe gigantesca para seguir os padrões que o mercado pede, ele é muito mais real e profundo, ainda que seja simplista no estilo de vida (demorou quase dez anos, por exemplo, para estampar as capas dos jornais e tabloides do país – ele se tornou o primeiro artista a ser capa da revista de basquete SLAM – e ser patrocinado por marcas grandes da cultura norte-americana).

Por estar na margem da realidade desde que se mudou para os Estados Unidos com sua mãe quando ainda era bebê, Cole entende o seu lugar na cultura e indústria, o que implica e justifica diretamente o desejo de se autoproclamar um dos melhores e maiores da geração ainda que criticado e desvalorizado por uma pequena parcela de público e mídia. Jermaine não merece os questionamentos que sofre desde 2016, muito pelo contrário. Talvez este também seja o objetivo de todo o conceito por trás da era atual: dar tudo o que se pode e se quer para trilhar o fim dos próprios caminhos de forma triunfal. A chave de ouro de J. Cole aparenta estar perto de chegar, mas enquanto esta porta ainda não é trancada, que apreciemos e agradecemos estarmos vivos na mesma época que um dos maiores rappers de todos os tempos. Até lá, fiquemos no aguardo de It’s A Boy e The Fall Off, o que, até agora, é o que aparenta soar como os últimos dois discos de sua carreira.

Antigamente reconhecido também como Young Simba, hoje Jermaine está mais para O.G. Mufasa, com a serenidade de quem ensina e com a gana de quem nunca deixa de aprender, portanto, permanece como middle child na interminável partida contra o mainstream fonográfico. Com The Off-Season as referências do mercado não perecem ser páreas para o rapper que agora também é um jogador profissional de basquete, realizando o outro sonho de sua infância. Na estante do hip hop, o artista já cativou o seu lugar na maior prateleira, tendo em vista que é possível enxergar sua foto e feitos ao lado de nomes como Nas, JAY-Z, Kanye West, Kendrick Lamar, Tupac e Biggie. Se no esporte não for tão brilhante quanto é na arte, entretanto, que se contente com o desbloqueio de mais uma conquista pessoal.

No jogo inconstante e volátil do rap que um dia já foi tão marginalizado mas que continua abrindo portas, dando significado à vida de tantas pessoas e narrando histórias para públicos transformarem as próprias perspectivas, J. Cole parece estar para o hip hop como Stephen Curry está para o esporte: um jogador inquestionavelmente genial e preciso, mas que ainda que permaneça quebrando recordes e entregando performances memoráveis enquanto escreve os capítulos de sua própria história continua sendo desvalorizado por quem não entende a visão do futuro de quem sempre pareceu estar mais que um passo a frente.

Você tem razão, Cole, agora ficou muito fácil. Contudo, não esperamos que as coisas voltem a ser difíceis, mas também não negamos que seria excelente se continuássemos tendo por “perto” uma referência tão grandiosa quanto a mente criativa por trás de The Off-Season, que realmente parece soar como o início de um adeus: não dura tempo bastante para sentir que foi perfeitamente aproveitado, mas termina de conquistar o respeito que, a longo prazo, é muito mais intrínseco, duradouro e abstrato que o sucesso.

Melhores tracks: “95 . s o u t h” / “a m a r i” / “m y . l i f e” / “p r i d e . i s . t h e . d e v i l” / “l e t . g o . m y . h a n d” / “t h e . c l i m b . b a c k” / “h u n g e r . o n . h i l l s i d e“.

Este é um artigo que representa apenas a opinião do autor do conteúdo, não do ROCKNBOLD.

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