John Mayer faz as pazes com seu eu interior em “Sob Rock”

Guitar Hero millennial, John Mayer retoma a boa forma em oitavo disco; longe da pose de virtuoso guitarrista sedutor e arrependido, artista obtém sucesso no que soa como uma homenagem polida aos hinos pop rock anos 80 e 90

John Mayer é um músico com bagagem. O artista, que estreou na indústria com pose de pop-rockstar galante no início dos anos 2000 com o ótimo Room for Squares, dos hits “No Such Thing“, “Why Georgia“, “Your Body Is A Wonderland” e a extraordinária “Neon“, sempre foi em busca de suas próprias realizações. No fim da década de 90, por exemplo, ainda muito jovem, tentava superar o receio de cantar ao mesmo tempo que soltava alguns arquivos demo no MySpace e no extinto Napster, junto ao amigo Clay Cook. Mayer, inclusive, frequentou a notória Berklee College of Music na cidade de Boston durante 1995 e 1997, mas se mudou para Atlanta logo depois. Foi lá que talvez ele tenha se convencido que era bom o bastante para se tornar o que em 2021 finalmente é.

O grande trunfo do baralho da carreira do estadunidense, no entanto, está bem distante de sua formação como musicista ou as formas como levou sua arte a diversos cantos do globo através das primeiras plataformas digitais na internet: John Mayer é um romântico orgulhoso. No charme de sempre ter se deixado levar pelas sensações e sentimentos instintivos e imediatos durante toda vida e carreira, obteve destaque por ter se transformado no simples e básico produto para os apaixonados mundo afora. Entretanto, nem só de relações amorosas sustentam-se as paixões.

O também extraordinário multi instrumentista é apaixonado por suas raízes, sua família, seus amores de idas e vindas, suas referências e suas inspirações, mas é na maior importância dada às próprias experiências em 43 anos de existência que ele se sobressai. E John sabe o talento que tem. No segundo disco da carreira, por exemplo, ele largou a pose de quem queria ser um jovem rockeiro vindo do blues espelhado por Stevie Ray Vaughan e se entregou ao mais comercial que podia soar.

Heavier Things, lançado em 2003, é resultado do redirecionamento de sua carreira ao pop. “Daughters” o rendeu dois gramofones dourados do Grammy e números estratosféricos, “Bigger Than My Body” e “Clarity” também foram sucessos e sua fanbase começou a crescer consideravelmente nos Estados Unidos, o tornando em uma realização.

O fenômeno Continuum e as polêmicas da vida pessoal

Após a explosão meteórica do novo queridinho da geração millennial, o músico fez turnês por todo o globo, conheceu grande parte do planeta com sua arte, lançou alguns projetos ao vivo e fez amizade com muito bons instrumentistas no caminho; entre eles estão Steve Jordan e Pino Palladino, essenciais na história de vida do norte-americano. Três anos depois, em Los Angeles, Mayer produziu o que posteriormente se tornaria o maior marco de sua existência, ao lado de Steve e Pino: Continuum, seu terceiro trabalho, que contém faixas extraordinárias como “Waiting On the World to Change“, “I Don’t Trust Myself“, “Belief“, “Gravity“, “Vultures“, “Stop This Train“, “Slow Dancing In A Burning Room” e um excelente cover soft de “Bold As Love“, de Hendrix.

John Mayer em Where The Light Is
(John Mayer em Where The Light Is)

Completamente imerso nos oceanos da soul music, do jazz e do blues, John criou no sucessor de Heavier Things não apenas a obra de arte de sua vida, mas também um dos maiores manifestos pop rock dos anos 2000. O disco, indicado a “Álbum do Ano” no Grammy, se tornou o divisor de águas da carreira do músico, mas não só isso: o colocou em uma prateleira notória da indústria.

Mayer conheceu Buddy Guy, BB King e Eric Clapton, foi considerado por grandes ícones da história da música como um dos maiores guitarristas da nova geração, explodiu como um fenômeno de uma vez por todas no mainstream e, encantado pelo próprio sucesso, foi se perdendo dentro de suas próprias odisseias. Seu disco ao vivo, de 2008, Where the Light Is, gravado diretamente do Nokia Theatre, também em LA, foi muito bem recebido por público e crítica, que exaltavam todo o talento de John como músico e também como entertainer/performer. Na ocasião, ele dividiu seu show em três partes: a primeira acústica, apenas contando com sua voz e violão, a segunda com o John Mayer Trio (ao lado de Steve e Pino) e a terceira com sua banda completa. A performance rendeu prêmios ao multi instrumentista e foi muito elogiada por todos, transformando-se em um dos marcos de sua carreira.

No que parecia ser o auge da vida técnica e musical, em meados de 2009, o artista começou a se envolver em polêmicas extracurriculares. Não que seja de interesse popular, afinal, personalidades da mídia também tem todo o direito de fazerem o que bem entenderem, mas JM começou a ser visto frequentemente em boates abusando de álcool e drogas após ter lançado o bom disco pop Battle Studies, com “Heartbreak Warfare“, “Who Says“, “Half Of My Heart“, “Assassin” e “Edge Of Desire“. Irritado com a exposição, o guitarrista começou a fazer piada com os paparazzis que o perseguiam, tendo confrontado por diversas vezes os tabloides estadunidenses. Neste meio tempo, ele ainda achou que seria uma boa ideia tentar fazer uma piada sobre sexo que para muitos foi de cunho racista (e, de fato, foi). O músico pediu perdão publicamente e decidiu parar de se expor na indústria por alguns anos.

Entre namoros problemáticos com outras artistas e declarações ásperas e irônicas, John começou a entrar em decadência. Talvez por ter se deixado levar pela vida luxuosa que havia começado a ter ainda muito novo, por ter se tornado o queridinho da geração ou por ter virado amigo daqueles que enxergava como suas maiores referências, Mayer passou pela pior fase da carreira durante o fim da primeira década deste século. Ele até chegou a se apresentar no festival de Clapton, Crossroads Guitar Festival, em 2010, (viralizando por um cover excelente do clássico “Ain’t No Sunshine“) durante a tour do quarto disco, mas foi alguns meses depois que descobriu que estava com um granuloma nas cordas vocais.

John se preparava para gravar um novo álbum em meio a tantas polêmicas e sair novamente em turnê – seria a primeira vez que viria ao Brasil, inclusive -, mas foi impedido por conta da doença. Segundo o músico, ele teve que passar meses sem poder sequer falar uma palavra para tentar voltar a cantar. Entre inúmeras sessões com fonoaudiólogos e médicos especializados, até retornou a praticar exercícios vocais, mas precisou aplicar botox na faringe. Diante tantos problemas, o natural de Connecticut resolveu repousar em sua casa de campo interiorana no estado norte-americano de Montana. Foi lá que ele compôs grande parte do que se tornou uma das melhores obras da sua discografia: Born and Raised, lançado em 2012.

O vulnerável, dolorido e necessário retorno de um maduro Mayer

O disco, predominantemente influenciado por sonoridades acústicas que flertam com o country norte-americano e até o folk europeu, foi um retorno preciso de John, que precisava expor suas perspectivas atualizadas acerca não só de erros do passado, mas também do período mais tenebroso de sua vida íntima. É claro, ele havia enfrentado uma doença séria e passou meses sem dar uma palavra, mas todos ansiavam por sua volta à música pelo interesse de tentar entender o que o artista tinha a dizer sobre a própria existência, sobre o período distante dos holofotes focado na própria recuperação e autoanálise… e o resultado não decepcionou.

Born and Raised é a expressão unilateral de um ser humano arrependido com os erros de seu passado e que busca encontrar a própria paz. Na verdade, o projeto de 12 faixas entrega muito mais do que apenas um estado de espírito de John, mas também traz as reflexões do multifacetado e talentoso instrumentista durante os anos recluso.

John Mayer

Canções como “Shadow Days“, “Born and Raised“, “Walt Grace’s Submarine Test, January 1967“, “Whiskey, Whiskey, Whiskey” e “A Face To Call Home” são algumas das músicas mais verdadeiras e francas de Mayer em seus mais de vinte anos de carreira, oferecendo ao ouvinte uma experiência que transcende apenas o feeling de um guitarrista virtuoso. O quinto álbum de estúdio de John é uma confissão, uma espécie de manifesto que expressa a perspectiva de um homem que atua entre o perdão e a autocrítica. Nessa função, cumpre muito bem o seu papel; ainda que seja muito leve em sonoridade, traz a bagagem mais pesada da discografia do estadunidense.

Entretanto, o que é intrínseco na personalidade de um ser humano não desaparece de uma hora ou pra outra: aconselhado a não fazer turnê do disco por conta do problema na voz, artista entrou mais uma vez em estúdio para lançar o razoável e superficial Paradise Valley, uma tentativa soft country de retomar o topo das paradas: feat amoroso com o que na época aparentara ser o amor de sua vida, Katy Perry (“Who You Love“), canção sobre o relacionamento que teve com Taylor Swift (“Paper Doll“), colaboração com o excelente Frank Ocean (“Wildfire“) e a retomada da pose de heartbreaker interiorano. Esse trabalho, no entanto, o trouxe ao Brasil pela primeira vez. Sua apresentação na quinta edição do Rock In Rio permanece muito elogiada até hoje.

Mais capítulos de idas e vindas em sua vida pessoal escritos, ele retornou ao estúdio quase quatro anos depois, prometendo faixas que “dariam aos fãs o que os tornaram apaixonados por sua música“. O resultado? The Search for Everything, um conjunto de tracks que até lembram bons momentos de Continuum e Battle Studies – como em “Still Feel Like Your Man“, “Helpless“, “Moving On And Getting Over” e “Rosie” -, mas que não se aprofundam além do que a gente sabe que o norte-americano pode fazer. As canções que não são destaques, inclusive, são tão esquecíveis quanto a playlist reproduzida em volume baixo no elevador ou hall de um shopping.

John Mayer's 'Sob Rock': What Inspired the Album's '80s Throwback Look -  Variety
(Foto: Divulgação/Reprodução

A grande questão que paira sobre os ares de John Mayer e tudo aquilo que o artista já fez em mais de duas décadas de estrada é sobre como o cantor aparenta sempre estar querendo se provar; isto fica evidente se analisarmos o histórico recente do multi-instrumentista, que pareceu cansado durante todos esses anos enquanto tentava convencer público – e, de certa forma até a si mesmo – que ainda valia a pena ser ouvido. Foi nesta busca por justificativa que o músico se viu estagnado e perdido dentro de suas próprias (e poucas) limitações.

Seja como o genial guitarrista que é, como o bom vocalista que se tornou, como o romântico sedutor que se criou, como o bom compositor e produtor que aprendeu a ser, John deveria estar muito mais tranquilo com a poltrona que reservou na indústria fonográfica mainstream. Room For Squares, Heavier Things, Continuum, Battle Studies e Born and Raised foram grandes obras solo de um extraordinário músico da geração millennial, que se tornou referência justamente por modernizar sonoridades que haviam sido esquecidas pelo público de uma forma geral; que sejamos sinceros, quem no mainstream pop teria tempo nos anos 2000 para ouvir uma track cheia de groove com solos de guitarra bluesy?

Não entenda mal, John Mayer não é um dos mais revolucionários da história e nem chega perto de ser comparado com seus maiores ídolos, mas ao tornar comercial tudo aquilo que moldou suas características e bagagem musical, foi importante na indústria do início do século ao abrir portas para sons que não eram predominantes no mercado.

Ok, mas e Sob Rock? Vale a pena?

Sob Rock, oitavo álbum de estúdio da carreira de Mayer, não só vale a pena como também finalmente expressa a tranquilidade de um artista que não precisa mais se provar. O disco é A CARA do estadunidense e resume em partes o que o tornou em febre mundial durante a primeira década do século XXI, ainda que também conte com duas faixas tão vazias quanto uma bexiga furada.

New Light“, primeiro single, mostrava bem o que estava por vir: uma homenagem polida aos maiores sucessos pop rock anos 80 e 90, explorando linhas e riffs de guitarra cheios de groove enquanto também utiliza com leveza sintetizadores e teclados no background. Se aqui estivessem créditos a Santana ou Nile Rodgers não seria surpresa.

No vídeo, Mayer abraça o ridículo das péssimas edições de vídeos da época, utiliza roupas largas e faz danças descompromissadas quase soando como o churrasqueiro de domingo que já se perdeu em sete ou oito garrafas de cerveja. “Meu nome é John Mayer e estou preparado para ser uma estrela!” diz o músico no início do clipe, que é basicamente uma sátira ao atual chroma-key low budget pessimamente utilizado no período oitentista, o que para a época funcionava como tecnologia de ponta.

I Guess I Just Feel Like” e “Carry Me Away“, outros dois singles que antecederam o lançamento do disco, são canções sólidas e principalmente bem compostas e escritas, que navegam em mares antes já muito bem explorados pelo artista. A primeira poderia ter sido b-side de Born and Raised ou uma track comercial divulgada antes de Paradise Valley, com uma proposta acústica a la o folk e country pop maturado que é a cara de Mayer em seus trabalhos mais suaves; a segunda, no entanto, não é tão profunda quanto a anteriormente citada, mas talvez agrade mais por não ser linear e possuir certo clímax nas bridges e refrões.

Na maior parte do tempo, Sob Rock é a guinada de retorno necessária na discografia de um artista que sempre teve ciência de suas maiores qualidades mas que por um longo período de tempo quis sempre ser o melhor – ou, provavelmente, o mais notado e/ou amado. John Mayer até pode dizer que não, mas em mais de vinte anos de estrada ficou óbvio para quem vai além de “Daughters” e “Your Body Is A Wonderland” que o músico possui além de certo zelo à própria reputação de “último romântico”, um orgulho indomável. Isso fica claro na incrível “Shouldn’t Matter But It Does“, track que mascara seu real significado com a roupagem love song característica do artista, mas que pode ser interpretada como mais uma das confissões do estadunidense sobre suas próprias diretrizes. Que arranjo e vozes lindas, hein, Johnny?

Last Train Home” é uma ótima introdução diretamente inspirada por Mark Knopfler e até Bob Weir do Grateful Dead. Weir, inclusive, se tornou companheiro de banda de John no incrível projeto Dead & Company, com quem Mayer faz turnês já há alguns bons anos. Há aqui texturas suaves e brilhantes, explorando um trabalho excelente de captação sonora e mixagem. Grande ponto para os produtores do disco, inclusive. O vídeo não poderia ser mais JM do que é: um foco de luz em seu protagonista que canta sob os holofotes em um microfone Shure e brilha com seu talento virtuoso de guitarrista trazendo em suas mãos a já amada e querida pink Silver Sky, da PRS.

Melhor canção do álbum, “Wild Blue” é uma ode a Dire Straits e os trabalhos geniais de Knopfler no decorrer da carreira, com lapsos de Vaughan e até mesmo de Jeff Buckley. Entretanto, não se deixe levar pelas referências: a faixa é muito maior do que simplesmente uma homenagem ou reverência a grandes nomes do instrumento na história. É claro, todo fã espera que Mayer entregue sempre canções com este tipo de roupagem, algo entre o classic rock influenciado pelo blues em arranjos pop recheados de vozes em timbres médios, mas esta definitivamente não é a prioridade aqui. “Shot In the Dark“, por exemplo, carrega consigo o peso de levar o mesmo nome de canções de Ozzy Osbourne e AC/DC, mas está muito mais para um bom trabalho criado e produzido por Toto, originado diretamente de 1982. Coloque os óculos escuros, penteie o cabelo e aproveite a viagem conversível nesta canção refrescante, veraneia, leve, sutil e cheia de charme.

Til the Right One Comes” segue a mesma ideia, mas soa como se tivesse desperdiçado potencial quando abraça as raízes country e folk do artista; contudo, está bem distante de ser uma track ruim. Vale o play, assim como o encerramento melodramático “All I Want Is to Be With You“, que possui uma letra tão água com açúcar quanto a ruim e vazia “Why You No Love Me“.

John Mayer: Sob Rock — hard to take this corny nostalgia seriously | Times2  | The Times
(Foto: Divulgação/Reprodução)
Sob Rock é “John Mayer rock” e assim se justifica

O oitavo disco da carreira do genial guitarrista, romântico cantor, sexy simbol da geração millennial e ex garoto-problema do pop é exatamente o que você espera de um álbum de John Mayer em 2021: um manifesto descompromissado de quem reconhece todas as próprias conquistas. No conforto de finalmente autocompreender sua existência e obra durante anos sob os holofotes de mídia e público, o estadunidense não aparenta mais querer provar que merece a atenção da indústria – ainda que este trabalho já tenha estreado no top 5 dos charts da Billboard e esteja a caminho de se tornar um dos sucessos mais lucrativos de sua discografia.

Sonoramente, o sucessor de The Search for Everything não busca entender tudo e todos, pelo contrário: obtém sucesso quando vira as costas para a opinião e perspectiva popular e entrega aquilo que atualmente parece fazer mais sentido na vida de sua estrela principal. Mayer adora o protagonismo, é verdade, mas não há quem possa responsabiliza-lo por erros do passado sustentados pela vontade superficial de constantemente ser bajulado. Não existe até um ditado popular por aí que diz que elogios deveriam ser tão construtivos quanto as críticas?

Este álbum não foi feito para “superar Continuum” (como parte dos fãs continuam aguardando mesmo após quase quinze anos), muito menos para atestar que o norte-americano merece estar em um quadro pendurado no meio da sala de seu fervoroso público, seja como guitarrista ou atuando em qualquer outra função. O álbum é um deleite de John em relação às próprias raízes e uma revisitação aos seus maiores sucessos comerciais, um verdadeiro trabalho confortável de alguém que há muito tempo tenta reencontrar-se nos moldes adaptáveis que o tornaram referência de grande parcela da geração que, cá pra nós, parece estar cada vez mais cansada das fórmulas atuais de se fazer hits no mercado.

O grande tópico que envolve Sob Rock é sua prioridade. Aqui, JM finalmente curte o momento e aproveita os resultados da carreira brilhante e sólida que conquistou em (quase) vinte anos. O álbum adapta-se perfeitamente como uma carta aberta do musico àqueles que ainda esperam comportamentos que justifiquem seu egocentrismo; contudo, age e funciona muito melhor quando analisado e experimentado através da ciência de que é apenas um disco do artista e ser humano John Mayer, que finalmente parece ter feito as pazes com seu eu interior, ainda que volta-e-meia encontre tempo para alimentar a postura de protagonista falso solitário do showbusiness.

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