Fresno faz pop político e sem amarras no ótimo “Vou Ter Que Me Virar”

Características da banda liderada por Lucas Silveira, verdade e sentimento regem necessário e liberto nono disco de estúdio do grupo

Lucas Silveira é um storyteller, mas não é como se apenas contasse histórias que narrem ou ilustrem a realidade daqueles que o acompanham com fervor. Há quase vinte anos, o fundador da Fresno, banda gaúcha que ganhou popularidade nos anos 2000 por ser um dos pilares do movimento emo no Brasil, é o mais sensível compositor e músico de sua geração: Lucas sabe exatamente como libertar o grito entalado na garganta do público que o segue. O senso aguçado de compreender e se conectar com quem o ajudou a tornar o grupo referência na indústria nacional é o diferencial que faz Silveira não ser simplesmente o eu-lírico de suas obras, mas sim encaixar-se perfeitamente na pele do líder de um culto à liberdade. E ainda que historicamente protagonistas de grandes narrativas na indústria fonográfica evitem se posicionar para fazer o que se conhece como “média” com diferentes públicos, Lucas e Fresno não querem endossar o discurso daqueles que ainda acreditam que arte não é um ato político.

O conjunto, que agora é trio, integrado por Silveira (voz principal, guitarra), Thiago Guerra (bateria e percussão) e Vavo (guitarra, backings), lançou na última sexta-feira, (5), seu nono disco de estúdio, Vou Ter Que Me Virar, pela BMG. No entanto, é crucial que o ouvinte entenda de onde surgiu o background de mais um capítulo grandioso no livro extraordinário que é a vasta carreira e vida dos responsáveis por mais uma obra muito sólida.

No decorrer de 2020, a banda viralizou com a QuarentEMO, uma livestream gratuita na Twitch que reuniu centenas de milhares de pessoas ao vivo durante a quarentena por conta do vírus COVID-19; tudo isso em prol do auxílio à profissionais da indústria musical nacional. Além disso, a banda, que antes da COVID-19 havia voltado a receber muita atenção do mainstream com o excelente Sua Alegria Foi Cancelada, de 2019, não quis se afastar do que a transformou num manifesto cultural moderno.

A Fresno ainda teve tempo de divulgar também as ótimas “DEUS EX MACHINA” e “BROKEN DREAMS (STRESS-DOMMAGE-INSOMNIE)“, com o vocalista do Fever 333, Jason Aalon Butler – definitivamente uma das maiores faixas da carreira; espere até vê-la ao vivo em turnê ano que vem.

Em 2021, no entanto, o trio – que ainda era quarteto antes do lançamento do novo disco, com Mario Camelo nos keyboards/synths – surpreendeu quando anunciou o lançamento da coleção de faixas INVentário: um compilado de tracks produzidas durante a quarentena, algumas antigas revitalizadas, outras mais recentes e que posteriormente se tornariam parte de Vou Ter Que Me Virar; tudo isso com participações especiais de artistas como Chediak, Mateus Asato, Terno Rei e vários outros. O resultado chamou atenção de audiências distintas, gerando expectativa no que estaria por vir. Ainda assim, não foi apenas por suas músicas grandiosas que mesclam elementos de estilos distintos que a Fresno chamou atenção: desta vez, eles queriam externar a própria revolta.

Isso fica claro quando o ouvinte aprecia com atenção os trabalhos produzidos pelo grupo desde 2018. Não é como se eles tivessem mudado apenas pelo momento quase apocalíptico que o Brasil vem atravessando recentemente, mas sim como se os integrantes da banda demonstrassem com veracidade o incômodo com o rumo da sociedade que eles estão inseridos em um aspecto geral. Esta suposta revolta não se justifica apenas pelo óbvio e não está mais diretamente atrelada aos tempos de juventude revolucionária que todo jovem em algum momento já viveu, mas também por Lucas, Vavo e Guerra já estarem na casa dos 30 e poucos, com a maturidade e vivência de quem agora possui outras responsabilidades. Eles querem deixar um legado, criando seus próprios manifestos tanto para quem está dentro de seus próprios lares quanto para os públicos que os seguem de norte a sul do país.

Então, quando o público percorre os caminhos que levaram a Fresno até seu nono disco de estúdio, ele percebe que com o passar do tempo a banda soube, quase de forma irretocável, se modernizar e se adaptar a tudo aquilo que sempre a cercou. É justamente neste tato e sensibilidade de conseguir ter se compreendido – com muita terapia e ajuda psicológica, segundo os próprios integrantes – que este inédito trabalho ganha corpo. VTQMV é gigantesco, não só pelo leque versátil de sonoridades e texturas que entrega, mas por expressar com verdade e fúria os sentimentos e sensações que revoltam àqueles que não estão alheios da atualidade.

Eu vou ter que me virar, vou ter que superar, às vezes me sinto só mas sei que não sou só eu, diz Lucas na introdução classuda que carrega o nome do álbum. Há aqui senso de pertencimento. Se em SAFC o grupo já soava liberto mas muito melancólico – ainda que com seus momentos de falso otimismo, é verdade – , em Vou Ter Que Me Virar eles tiram um pouco o pé do acelerador mas finalmente parecem estar certos que querem mudar o jogo. O trio não se considera revolucionário e até se distancia da posição de referência do rock moderno – gênero, inclusive, que é assassinado dia após dia pela mente ultrapassada daqueles que o consomem -, mas, na prática, possui a abordagem do estilo mais palatável às gerações atuais sem precisar moldar e policiar as próprias composições e sonoridades. Neste ato de se sentir livre para fazer o que deseja sem ligar tanto assim para números e algoritmos – que hoje quase soam como sinônimos de qualidades -, a Fresno cria em seu nono disco completo de estúdio uma viagem redondinha que vai do hyper e synthpop anos 80 até o stoner e indie rock dos anos 2000.

Ouça “FUDEU!!!!” e seu riff introdutório a la Foo Fighters em The Colour and the Shape e versos influenciados por Nothing But Thieves para entender o óbvio: “o prеsidente, basicamente, quer te exterminar e o ideal fascista já conquistou teu núcleo familiar… fudeu!!!“. Mentiu?

Casa Assombrada” mergulha no lado emotivo característico do grupo e disserta acerca da existência íntima de cada ser humano em uma relação com a própria cabeça. O eu-lírico entende problemas e tabus construídos por sua própria mente e externa toda sua angústia nos versos e nos refrões que definitivamente serão berrados a plenos pulmões nas turnês em meio a lágrimas e abraços.

Um dos destaques do álbum fica com a classuda e charmosa “Já Faz Tanto Tempo“, parceria com o brilhante Lulu Santos. Ainda que na letra não entregue muito além de confissões e indagações acerca de um amor ou relacionamento, é impressionante a abordagem dos artistas envolvidos nessa track. Se não conquistam tanto assim na mensagem, ganham na sonoridade extremamente agradável. Não funciona como parte de O Último Romântico, de 1983, se fosse lançado nos tempos atuais, mas se encaixa perfeitamente como uma colaboração de estreia ou retorno de Lulu no cenário brasileiro, se este fosse o caso. Que acerto!

Outro momento de brilho do disco, “ELES ODEIAM GENTE COMO NÓS“, tem tudo para se tornar um dos maiores hits do grupo. Não apenas pelo já mencionado senso de pertencimento e sensibilidade da banda em relação ao seu próprio público, mas também por reunir tudo que tem os tornado referência no pop rock moderno em uma única track. Aqui, utilizam uma ótima progressão de acordes que dá mais força ainda para o riff do refrão (influenciado por Matt Bellamy nos trabalhos recentes do Muse), engrandecido pela voz estridente de Lucas, que explode como uma bomba no clímax da faixa. No entanto, atente-se ao que é dito durante o que, na opinião do ROCKNBOLD, já é hino indispensável na carreira da banda.

“Tanto nos disseram ‘isso vai passar’, que é coisa para o tempo resolver,
todo o dia a morte testa a minha sorte,
eu não sou um bicho fácil de abater,

mas eu não aguento mais,
o tempo não é de paz pra quem aprendeu a ver

e quem não viu que a porta do inferno abriu, eles odeiam gente como nós.

O calafrio que hoje você sentiu é o medo que faz a gente mais veloz.”

A complexidade de “Agora Deixa” lembra os trabalhos de keyboards/synths dos anos 80 e 90 das maiores nomes do hyperpop, mas funciona na atualidade como uma colaboração entre PVRIS, Bring Me The Horizon e até Evanescence. É evidente que existe uma tendência no mainstream pop/alt rock que explore os inúmeros layers e os synths com vozes modificadas harmonizadas que entregam a sonoridade de quem está prestes a viver uma distopia; o Linkin Park desmistificou isso ainda em Hybrid Theory e Meteora, lá nos início dos anos 2000, tornando a mistura dos elementos eletrônicos com o hip hop e o rock mais evidente e aceitável no mainstream. Então, seria Fresno nesta canção sua versão mais HYPER POP ou ARENA ROCK? Na verdade, nenhum dos dois. É neste desapego de querer ser rock de menos, pop demais ou qualquer outra coisa que eles criam uma obra feita para as multidões.

Caminho Sem Fim” explora elementos clássicos da música nacional, mas abre espaço para as vozes dobradas criarem o clima melancólico que também é muito querido pelos fãs da banda. A canção é íntima e até confessional. Vale o play. “Essa Coisa (Acorda – Trabalha – Repete – Mantém)” coloca em pauta a rotina monótona e cruel das realidades deturpadas do mundo atual. A canção também utiliza de andamentos que decompõem os padrões utilizados, mas ainda assim explora os synths que cada vez mais se tornam parte da identidade do trio. Tudo é delicadamente inserido e harmonizado em apenas um corpo, o que torna a experiência do play muito mais agradável do que se isso fosse lançado por algum outro artista. O cuidado de Lucas, Vavo e Guerra em construírem atmosferas é, definitivamente, um dos grandes destaques da banda.

Tell Me Lover” conta com as participações de Scarypoolparty (vice campeão do American Idol) e Yvette Young e possui refrões grandiosos mergulhados em referências pop e até mesmo do industrial. Mais uma boa faixa que antecede momentos mais calmos dos gaúchos: “6h34“, um samba peito aberto de garagem bem otimista, onde Lucas explora as melodias para mostrar mais uma vez seu talento como cantor: “eu nunca fui daqueles que fazem sentido, tô em São Paulo, aqui o céu nunca é azul, tô aqui cantando um samba com sotaque do sul / amanheceu e eu deveria estar dormindo mas estes versos são palavras explodindo e no teu colo um dia elas vão cair… e aonde isso vai dar, não cabe a nós decidir.”

Grave Acidente” encerra o disco de forma redondinha, fazendo alusão ao hit cheio de balanço, “Cada Acidente“, mas colocando os pés no chão e flertando com o repentino sofrimento originado da perda da inocência: “meu fardo é pesado mas é de se compreender, eu sinto ter mais passado que futuro a viver / é só ficar do teu lado pro meu sonho escurecer e um oceano encarnado de um ódio infinito afoga eu e você / não sou piloto nem carro, eu sou um grave acidente, eu vou acontecer”. Tudo isso enquanto explora synths e efeitos eletrônicos a la Daft Punk em Tron ou Jordan Fish em amo e gritos no background como faziam os Deftones em seus bons tempos.

Fresno lança álbum "Vou Ter Que Me Virar" com crítica ao presidente | NSC  Total

Ainda que possua senso crítico (e político) necessário, o nono álbum de estúdio da Fresno é uma ode ao amor pela arte, vista e sentida como porto seguro de muitos durante os tempos mais sombrios já vividos pelas últimas gerações. É a voz da união, que transmite, grita, ecoa e estica a mão para àqueles que também não aguentam mais a própria realidade.

Lucas, Guerra e Vavo possuem senso aguçado e sensibilidade para enxergar – ou pelo menos entender – as perspectivas daqueles que fazem eles serem quem são. É neste diálogo próximo e até intimista com a geração mais jovem e com aqueles na casa dos trinta e poucos – ou tantos – que o trio ganha espaço e cresce como referência, mesmo que desmistifique a ideia de ser gigante o bastante para sintetizar os sentimentos complexos de milhares por todo o país.

Enquanto o medo continuar alimentando a arte destes três enormes talentos, os fãs estarão longe de se sentirem órfãos de bandas e artistas que os compreendam. A Fresno se destaca pelo sentir; é o tipo de arte que conforta, torna porto seguro, abraça e fala por quem ouve. É aí que se abrilhantam. Hoje, principalmente em Vou Ter Que Me Virar, o fazem com maestria. Daí se considera as abordagens e os sentimentos nas composições que ecoam a voz de inúmeras audiências e a estética visual caprichada para entender os motivos por trás do fenômeno que a banda se tornou nos últimos três anos: um som agradável de apreciar, feito pra ouvir tanto nas horas confessionais quanto nas de embarcar em uma viagem só de ida. Essa dualidade faz a Fresno ser o que a Fresno é: um respiro de esperança, um manifesto de liberdade, uma permissão do sentir e do viver. Ainda bem.

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