Música nordestina com atitude de trap. Assim se define Dupê, baiano de 28 anos que faz sucesso nas redes sociais com a adaptação de clássicos alternativos para ritmos de forró, piseiro e pagodão. Além dos covers inusitados, o cantor também viralizou com a música Te Amo/Te Odeio e uma paródia envolvendo Shadow, o personagem de Sonic.
Dupê cresceu assistindo animes, com uma mãe que escutava rock em casa, andava com todos os grupos da escola — dos góticos aos populares — e começou na música por meio de batalhas de rimas em ônibus em Salvador. A junção dessas vivências levou o cantor a se tornar parte de um dos gêneros mais curiosos do Brasil: o PisEmo.
“Sempre tinha um momento para cada coisa, tá ligado? Tinha uma época que eu só andava com a camisa do Avenged e ouvia rock para caralho, só que eu ia para São João, ia para festa e dançava pagodão baiano. Eu sempre gostei de tudo um pouco“, contou Dupê em entrevista para a “E eu que era Emo?“.
O cantor começou a carreira em 2017 fazendo rap e militando por uma vertente abrasileirada do gênero. A partir dessa ideia surgiram os primeiros intercâmbios que, futuramente, fariam de Dupê um dos artistas mais versáteis da música brasileira atual. Um dos pioneiros da mistura entre pagodão e trap, hoje incorpora o ritmo nordestino também ao rock, ao emo e à cultura otaku.
referências imporváveis e onde tudo começou
“Eu não sei se você lembra dos vídeos do Whindersson que ele tocava versões internacionais de forró. Quem tocava os beats era o Vesgo, ele botava Nirvana versão forró e tal. Aí eu comecei a pensar, ‘por que eu não faço covers de rock e os bagulhos internacionais, além dos que eu faço de música brasileira?’. Aí, eu fiz de System of a Down e Pearl Jam e estourou”, conta Dupê sobre seus primeiros passos no rock.
Com o sucesso, foi lançado o álbum “Cangaço Sessions Vol. 1“, que inclui covers de diversos hinos de forró, mas com a atitude e a releitura inusitada de Dupê. Em um cenário de dar inveja a qualquer Tiny Desk, uma apresentação do álbum na íntegra foi disponibilizada pelo YouTube e mistura balaclavas, chapéus de palha, paieros e tênis de marca em meio a um churrasco entre amigos.
Dois meses depois, o segundo volume de Cangaço Sessions foi lançado, agora com visuais familiares a qualquer jovem que cresceu sendo alternativo. Com direito a cosplays parecidos com integrantes do Slipknot e góticas franjudas, a estética de Dupê agora flerta com os jovens que cresceram frequentando o Garage e a Audio Rebel, mesmo sem ter passado a juventude no Rio de Janeiro.
O bolivarismo da música alternativa
A ideia de misturar sonoridades tradicionais a ritmos modernos não é exclusividade de Dupê. No México, Peso Pluma e Fuerza Regida se destacam no gênero Corridos Tumbados, que mistura a música tradicional mexicana com elementos de hip-hop. Muito antes disso, em 2012, a banda Pierce The Veil já se aventurava aos poucos na mistura, o que resultou na icônica música Bulls In The Bronx, cuja bridge inclui um solo de flamenco. O movimento também se espalha pela Argentina, onde Milo J se destaca com letras antirracistas em melodias que mesclam trap, rap, R&B, tango e música folclórica argentina.
Segundo Dupê, o movimento de intercâmbio sonoro entre gerações que vem acontecendo em toda a América Latina é algo que chama a atenção dos europeus, mas, para ele, o Brasil muitas vezes fica de fora por conta da língua. “O Brasil é muito excluído por causa da língua, tá ligado? E a gente mesmo se exclui, o brasileiro se acha muito diferentão entre os latinos”, relata o cantor.
Semelhante ao pensamento do revolucionário Simón Bolívar, que defendia a integração territorial de toda a América Latina, Dupê também acredita que a união de diferentes vertentes do mesmo movimento seria benéfica para a música sul-americana e latina como um todo.
“Se você botar um forró e uma cumbia para tocar, um pagodão baiano e uma conga, o gringo vai achar que é a mesma coisa, porque são músicas que conversam muito entre si. Então eu acho que tem que existir uma unidade latina entre o Brasil e todos os países da América Latina, porque a gente se parece muito, e expandir isso para o mundo todo, tá ligado?”
a filosofia dO CyberCangaço
O mundo estético criado por Dupê conquistou tamanho público que se tornou festa. CyberCangaço é o nome do evento organizado por Dupê que já reuniu nomes como MC Taya, Mago de Tarso e Chorões da Pisadinha em São Paulo. Com planos de conquistar novos estados brasileiros, o nome vai muito além de atrações e entretenimento.
“O CyberCangaço é justamente um bagulho para ser revolucionário. Para ser um estilo, um gênero diferente, tipo o novo rock, não como gênero, mas o rock como atitude, tá ligado? Como se fosse um movimento de revolução na indústria musical. Ser uma pauta social, política, de lutar pelas minorias, por tudo que for desfavorecido, por tudo que for invisibilizado”, conta Dupê.
O cantor relata também que a aceitação de suas músicas é muito maior no Rio de Janeiro e em São Paulo do que em Salvador, sua cidade natal. No Spotify, as duas capitais assumem o topo com a maior quantidade de ouvintes, seguidas por Belo Horizonte, Brasília e Curitiba. Parte do motivo desse fenômeno pode ser explicada através do fluxo migratório nordestino.
Segundo dados do IBGE de 2022, São Paulo e Rio de Janeiro são as cidades com a maior concentração de nordestinos imigrantes, sendo a maior parte deles vindos da Bahia. A influência de populações do Nordeste nas grandes cidades resulta em intercâmbios culturais frequentes e, consequentemente, na criação de costumes e traços que mesclam ambas as vivências, como a Feira de São Cristóvão (RJ) e o Centro de Tradições Nordestinas (SP).
Sendo assim, é possível compreender o apelo de Dupê entre cariocas e paulistas, indo além dos imigrantes e descendentes de nordestinos. São cidades que naturalmente abraçam o intercâmbio cultural, e não seria diferente com o cantor baiano. Por último, Dupê ressalta que as raízes mais tradicionais dos gêneros regionais e visões estereotipadas da região motivaram o movimento.
“O forró e o sertanejo são gêneros brasileiros muito enraizados no passado. Além disso, quando você pensa no Nordeste, em forró, pelo estereótipo, as pessoas pensam em pobreza, seca, chapéu de palha e gente passando fome. Isso é a forma como o Sudeste e o resto do país enxergam o Nordeste, como aparece nas novelas da Globo. O Cyber Cangaço é justamente a tentativa de mudar essa visão sobre o forró e sobre o Nordeste, tá ligado?”
“Não é só um gênero musical, mas também um movimento. É pensar o forró e a estética nordestina como um bagulho novo e futuramente até exportar isso para fora do Brasil”, conclui Dupê.
Apesar de ter suas raízes no forró e influências de trap, Dupê se mostra muito mais punk do que muitas bandas simplesmente pelas bandeiras que levanta e sua atitude frente à indústria musical. Mesmo com mais de meio milhão de seguidores e colaborações com artistas gigantes, Dupê se consolida como um dos maiores rockstars da atualidade não apenas pela troca com bandas como Radiohead e Slipknot, mas justamente pelo seu carisma, suas motivações e a vontade de fazer diferente.