A semana começou com uma parte expressiva da população despencando de 100 a 0. A euforia de um clima de “já ganhou” tomou conta de boa parte da bolha musical nas semanas que antecediam o primeiro turno das eleições, comunidade essa que naturalmente se posiciona ao lado mais progressista da política brasileira – vide raras exceções públicas – e ditou boa parte desse ciclo eleitoral do primeiro turno. Porém, a quebra de expectativas foi grande. Se alguns antes falavam de uma vitória fácil no primeiro turno, logo a realidade bateu na porta, com uma distância mínima entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), com o candidato da extrema direita liderando as porcentagens.

O cenário é preocupante. Nunca antes na história do Brasil redemocratizado houve uma “virada” para o candidato posicionado em segunda posição do primeiro turno e, junto com 30 milhões de abstenções e um primeiro turno sem outros candidatos com votações expressivas, existem grandes possibilidades da família Bolsonaro e a extrema-direita retornarem ao poder no próximo ano, tendo um Congresso e Senado à sua disposição, contando também com a indicação mínima de 4 ministros para a corte superior do país (STF).
Por outro lado, a diferença e distância são as menores entre os candidatos na história das corridas presidenciais e, se somando as abstenções e possibilidades de votos conquistados e até virados, pode atingir o objetivo de reeleger o presidente Lula.
Mas qual é o nosso papel?
A atividade artística musical, em essência, é progressista e contra as injustiças sociais, e não só floresce mais no contexto democrático, como é diretamente atacada num contexto político-social reacionário.
Durante a ditadura empresarial-militar brasileira, a Divisão de Censura de Diversões Públicas (DCDP) controlou com mão de ferro a produção musical no país e censurou não só músicas com conteúdo político crítico ao regime, mas também aquilo que violava “as morais e bons costumes”, indo de uma gama que se estendia desde o linguajar a questões morais, sexuais e de gênero.

A Arte é a expressão máxima de uma sociedade, mas também de toda a sua subjetividade e diversidade, algo que é automaticamente atacado, perseguido, taxado e boicotado por aqueles que se colocam como os bastiões da moral e bons costumes – por mais que alguns tenham dificuldade de compreender a profundidade de alguns temas artísticos, como nos casos de “fãs” conservadores chocados com os posicionamentos de Roger Waters, do Pink Floyd, ou Tom Morello, do Rage Against the Machine.
Assim, se eximir do papel histórico que a arte e a música desempenham em nossa sociedade como vetores de diversidade e questionamento do status quo político sistêmico não é só uma traição à nossa classe, mas à própria existência e legado revolucionário da cena e expressão musical.
Dessa forma, devemos todos nos engajar de corpo e alma nesse segundo turno, sejam artistas, fãs, produtores de conteúdo sobre música e todos os que se encontram na esfera musical brasileira.
Dos Reels as Ruas.
As redes têm uma importância gigantesca. As mesmas vêm pautando o debate público nos últimos 10 anos, mas apenas se manifestar nos stories com motes repetitivos não há de ser o suficiente para mudar a situação que nos encontramos. Diversos “Fandoms” já entregaram a disposição das redes sociais à campanha do presidente Lula e, para além das redes, muitos fãs, artistas e profissionais estão ativamente se posicionando, disputando votos e se engajando em comitês regionais para, além das redes, ter um papel ativo no segundo turno. Além das redes e da campanha tradicional, diversos atos para mostrar repúdio ao avanço da extrema direita e apoio ao presidente Lula estão se desenrolando, como no Rio de Janeiro, nesta quarta-feira, às 12h, na Candelária, e em São Paulo, no domingo, porém em todo país haverão demonstrações de diversos níveis e formatos.
Assim, artista, se coloque na posição ativa além do conforto da lei do esforço mínimo e, fã, se coloque ativamente a cobrar seu ídolo a ativamente estar presente nessa disputa.
E, para aqueles que acham que está tudo perdido, ou que acreditam que arte e política não devem ser misturadas, lembrem-se: o futuro e a soberania de uma nação estão em jogo! Devemos nos entregar o máximo possível, disputando voto a voto, pois a decisão dessa eleição será no detalhe.