A primeira lista T&NB da história do Rock in Rio merece ser tratada pelo tamanho do que representa.
Dá pra discutir quantidade de ingressos? Claro. Foram 150 gratuidades e, considerando o tamanho do festival, é fácil argumentar que poderiam ser mais. Só que reduzir tudo a esse número também apaga uma parte importante da história: até então, essa lista simplesmente não existia.
Quando um festival com o alcance do Rock in Rio reconhece oficialmente pessoas trans e não binárias dentro de uma ação como essa, ele ajuda a colocar essa população num espaço onde ela ainda é constantemente invisibilizada.
E isso importa principalmente quando falamos de pessoas não binárias.
Ainda existe muito preconceito, inclusive dentro da própria comunidade LGBTQIAPN+, e quanto menos essas pessoas aparecem, são reconhecidas e ocupam espaços, mais fácil fica para uma parcela da sociedade continuar tratando suas identidades como se fossem menos legítimas.
Por isso, ver uma lista que não para no “T”, mas inclui também pessoas não binárias, dentro de um festival desse tamanho, tem peso simbólico.
E tem outro ponto que me chamou atenção porque eu mesmo me inscrevi.
O formulário não pergunta apenas se a pessoa é trans ou não binária. Existem questões que ajudam a entender o contexto social e o grau de vulnerabilidade de quem está solicitando o ingresso.
Isso faz diferença.
Eu, por exemplo, sou uma pessoa não binária e já tenho ingresso comprado para um dos dias. Existem pessoas T&NB com condições de estar no festival e existem outras para quem o preço de um ingresso pode tornar essa experiência praticamente inacessível.
Quando a seleção tenta olhar também para essa realidade, a ação ganha uma camada que vai além de simplesmente distribuir cortesias.
Então sim, podemos cobrar que nas próximas edições sejam mais ingressos, mais pessoas alcançadas e mais iniciativas desse tipo.
Mas também dá pra reconhecer quando alguma coisa avança.
Porque depois que um festival do tamanho do Rock in Rio faz, outros festivais passam a ter uma referência, e uma pergunta inevitavelmente começa a aparecer:
“Se eles fizeram, por que a gente ainda não faz?”
Pra mim, essa talvez seja uma das partes mais importantes dessa história.
A lista T&NB do Rock in Rio pode ser pequena diante do tamanho do evento. O precedente que ela abre, não.
Texto de Igor Sudano para o ROCKNBOLD

Igor Sudano atua como referência em bodypiercing seguro, com reconhecimento nacional e internacional, além de produzir conteúdo sobre pautas trans, liberdade corporal e diversidade, compartilhando também sua trajetória como cantor, compositor, DJ e ativista LGBTQIAPN+.
Saiba mais em @eusudano no Instagram.