Do profano ao Sagrado: Rosalía traz a ‘LUX:Tour’ ao Rio de Janeiro 

Desde o anúncio das duas datas da turnê LUX, tudo parecia estar contra o sucesso do evento. Dois shows fora da cidade astro, São Paulo, o grande eixo da música ao vivo de onde normalmente as outras cidades costumam orbitar, se unindo a datas no começo de uma semana útil. Até os 45 do segundo tempo parecia que a profecia iria se cumprir com as duas datas com ingressos disponíveis. Até mesmo nas horas anteriores ao show: a Farmasi Arena, voltada para eventos de público médio, parecia uma descampada vastidão. 

Mas às 21:15, ao apagar das luzes, Rosalía fez alquimia. Num milagre da transubstanciação, a arena da Barra da Tijuca se tornou uma ópera e ao aparecer de forma triunfal com a abertura de seu álbum que leva o nome da turnê, Rosalía começou seu espetáculo com a emblemática ‘Sexo, Violencia y Llantas’. Essa primeira canção deu o tom ao resto da apresentação da catalã: o profano e o divino se misturando em um palco em formato de cruz onde, apesar de sua distância, tais temáticas se misturavam, se separavam, se opunham e se equilibravam.

O primeiro ato do show se baseia na estrutura inicial de LUX, onde Rosalía apresenta, por meio de seu talento e um vasto repertório cultural, desde a sacralidade católica, que é uma das colunas fundadoras do álbum, até referências ao balé em ‘Porcelana’ e a ópera na linda Mio Cristo piange Diamanti’. Rosalía se mostra uma cidadã do mundo em todo o espetáculo, mas a sua admiração nacional que mais brilhou na noite foi a brasileira, aquando a cantora, num português quase perfeito, se comunicou e brincou com o público carioca.

Um dos auges da obra viva de Rosalía veio na apoteótica ‘Berghain’, onde a cantora surge como uma figura trágica — no melhor sentido — e embala o público na soturna, mas igualmente intensa, canção que conta com a participação de uma de suas mestras, a islandesa Björk, fazendo com que o público carioca suplicasse por uma ‘Intervenção Divina‘. Mas não só de ópera foi Berghain, afinal, seu nome remete a uma das mais emblemáticas baladas do mundo. Ao final da música, a mesma se torna um “batidão” que transformou a Farmasi arena em um exclave do superexclusivo clube berlinense em terras cariocas.

O ato 2 segue com as palavras de Rosalía “Vocês não vieram aqui apenas para chorar, mas também para balançar a bunda!”, trazendo uma série de canções de seu álbum anterior ‘Motomami‘ e levando os cariocas à loucura. Rosalía mostrou a diversidade não só linguística, mas também de gêneros durante todo o show e ato 3, com um alcance que se baseou na música castellana e foi até as canções vocalizadas do Norte da África

O show ganhou outro tom com a animada — mas igualmente profunda — ‘La Perla’, o cover de ‘Can’t Take My Eyes Off You’ do Americano Frankie Valli e o convite muito bem recebido pelo público da mineira Marina Senna, que no confessionário montado para a turnê, admitiu a catalã que havia entrado em um relacionamento aberto e se aventurado para além do gosto de seu parceiro. ‘Sauvignon Blanc’ trouxe as luzes dos celulares cariocas e sem dúvidas foi o auge emocional do show em um momento lindo de piano e voz. 

No ato 4, Rosalía vai para o meio do público em um palco B. Quando volta, aos poucos traz de volta o clima de balada para a sua Missa, agora com um “incensário” gigantesco que ungiu o público que, num ato de epifania ou até glossolalia, gritou em plenos pulmões a faixa ‘CUUUUuuuuuute’. O fim do ato 4 foi apenas um prenúncio do que seria o ato 5, recheado das músicas dançantes de Motomami, como ‘BIZCOCHITO’ e ‘DESPECHÁ’.

o Show terminou com ‘Magnólias’ e definitivamente foi o ato final perfeito para fechar com chave de ouro os portões divinos dessa noite emblemática. O setlist completo foi: 

Setlist — ROSALÍA | Rio de Janeiro, 2026

Abertura

  • Overture (introdução musical tocada pela orquestra)

Acto I

  1. Sexo, violencia y llantas
  2. Reliquia
  3. Porcelana
  4. Divinize (com trecho de “Thank You”, de Dido)
  5. Mio Cristo piange diamanti

Acto II
6. Berghain
7. SAOKO
8. LA FAMA
9. LA COMBI VERSACE
10. De madrugá

Acto III
11. El redentor
12. Can’t Take My Eyes Off You (cover de Frankie Valli)
13. La perla (segmento “Confesionario” com Marina Sena)
14. Sauvignon blanc
15. La yugular

Acto IV — B-Stage
16. Dios es un stalker
17. La rumba del perdón
18. CUUUUuuuuuute (outro estendida, com trecho de “Sweet Dreams (Are Made of This)”, do Eurythmics)
19. El atardecer

Acto V
20. BIZCOCHITO
21. DESPECHÁ
22. Focu ‘ranni

Encore
23. Magnolias

Do profano ao divino, do vulgar ao sagrado, Rosalía conseguiu repetir no espetáculo o que propôs fazer em seu álbum LUX, trabalhar todas as dinâmicas que acontecem dentro de seu coração e mente, as oposições entre o imaginário religioso, e a imagética Católica que vai para muito além do próprio catolicismo e esfera europeia, mas também se projeta para temas que não se limitam só a religiosidade. O divino se choca com o mundano, converge, briga e se junta, tudo isso no palco, em que Rosalía é nossa maestrina, regente de uma ópera caótica, com um arcabouço cultural e musical inigualável. Rosalía ainda tem mais um show da LUX tour no Rio de Janeiro nesta terça-feira (11) e os ingressos para alguns setores ainda estão disponíveis no site da Ticketmaster.

Para ler mais sobre música alternativa, acesse Rocknbold.

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