Depois de dois shows no MetLife Stadium em que declarou apoio à Palestina e cantou seu hino de protesto “Hind’s Hall“, Macklemore foi retirado do restante da etapa americana da Loop Tour, de Ed Sheeran. A justificativa oficial veio da Messina Touring Group, empresa que promove a turnê: casas de shows teriam avisado que não receberiam o espetáculo com o rapper gritando a favor da Palestina no line-up. Macklemore foi além e apontou o nome por trás da pressão: Robert Kraft, dono do time de futebol americano New England Patriots e de um dos estádios da rota, que mobilizou outros proprietários para dar a Sheeran um ultimato.
Em um longo texto no Instagram publicado nesta segunda-feira, o rapper relatou conversas privadas dos últimos dias com quem chama de amigo e “irmão” há 13 anos. Enquanto isso, o isentão favorito do Tumblr inicia seu depoimento da mesma maneira que conduz sua carreira – com covardia. Depois da frase com falsa equivalência de sofrimento do povo palestino e dos sionistas, se refere ao rapper apenas como “artista que respeita” e implica que o próprio pediu a participação na tour, deixando claro para todos os patrocinadores sionistas que ele não tem nenhuma relação pessoal com alguém de opinião política tão discrepante dos interesses capitalistas. Com isso, Sheeran conclui seu depoimento de cinco slides que, no final, não dizem absolutamente nada.
Segundo o relato de Macklemore, o cantor britânico lhe disse que as palavras “Palestina Livre” e a bandeira palestina eram “ofensivas” para boa parte das pessoas com quem conversou. Macklemore respondeu a única coisa que precisava ser dita: se duas palavras pesam mais do que dezenas de milhares de crianças mortas, o problema não é de vocabulário, é de prioridade moral. Depois de ter perdido a relevância dos anos do Tumblr, Ed Sheeran ainda tinha uma base de fãs nostálgicos que esgotariam mais uma turnê arrastada do seu oitavo álbum e quinto fracasso em sequência, mas ele não leva em consideração o progressismo de seu público geral, que apoia, em sua maioria, a libertação da Palestina.
Ed Sheeran deixou que outros falassem por ele: a Messina Touring Group emitiu uma nota administrativa e asséptica sobre “impacto em centenas de milhares de fãs”; Robert Kraft, segundo Macklemore, fez ligações e deu ultimatos nos bastidores; P!nk apareceu publicamente para acusar o colega de “propaganda anti-Israel”.
A “postura apolítica” de Sheeran, como o próprio e Macklemore a descrevem, parece valer para uma ideologia específica. Em 2022, Sheeran subiu ao palco em Varsóvia para cantar “2step” ao lado da banda ucraniana Antytila, cujos integrantes se revezavam entre turnês e o front de batalha. Neste ano, ele voltou a se associar publicamente à causa ucraniana, lançando com U2 e a própria Antytila, banda ucraniana que dividiu os palcos com o britânico, a música “Yours Eternally“, cujo clipe usa imagens reais de soldados ucranianos em combate.
Ou seja: existe uma bandeira que Ed Sheeran está disposto a erguer no palco com o próprio nome, e existe outra que ele prefere que um amigo defenda sozinho, para depois deixar que terceiros administrem a saída dele da turnê. Isso não é ausência de posição. É a posição.

Macklemore encerrou seu texto dizendo que não precisava de dez shows, precisava de dois: duas chances de dizer, na frente de 90 mil pessoas, palavras que se tornaram perigosas demais para serem ditas. Se isso custou o palco e, em troca, recolocou a Palestina no centro da conversa, foi, nas palavras dele, a turnê de maior sucesso que já fez. Fica difícil não concordar. E fica ainda mais difícil não notar quem, entre os dois amigos, teve coragem de falar com a própria voz e quem preferiu deixar que estádios, bilionários e comunicados corporativos falassem por ele.
Após a polêmica, artistas que estavam envolvidos na turnê declararam apoio a Macklemore e se retiraram da Loop Tour, como Finneas, Lukas Graham, Aaron Rowe e Beoga, banda do artista. Em seguida, o rapper anunciou uma turnê com lucros totalmente revertidos ao povo e a causas palestinas, com datas em Paris, Londres e Dublin, e ainda mais datas nos Estados Unidos e artistas participantes a serem anunciados.
De qualquer modo, sigamos boicotando P!nk e Ed Sheeran. Não que seja uma tarefa muito difícil.