Balaclava Fest: como um selo independente construiu uma das principais pontes entre o Brasil e a música alternativa internacional

Line-up do Balaclava Fest 2026. Créditos: Balaclava
Line-up do Balaclava Fest 2026. Créditos: Balaclava

Existe uma diferença entre organizar um festival e construir uma identidade de festival. No primeiro caso, existe uma programação, no segundo, existe uma curadoria capaz de fazer com que o público reconheça uma espécie de assinatura antes mesmo de conhecer todos os nomes do line-up. É justamente nesse segundo território que o Balaclava Fest construiu sua história. 

Realizado pela Balaclava Records, selo e produtora cultural criada em 2012 por Fernando Dotta e Rafael Farah, o festival nasceu a partir de uma iniciativa ligada diretamente à cena independente brasileira. Os dois, que integravam a banda Single Parents, já circulavam por diferentes núcleos da música alternativa nacional e buscavam criar conexões entre artistas e cenas de diferentes lugares do país. A Balaclava surgiu desse desejo de construir um circuito, anos depois, a ideia ganhou uma dimensão internacional.

Em 2026, o Balaclava Fest chega à sua 16ª edição e realiza sua maior edição até agora, serão 16 atrações distribuídas entre os dias 26 e 27 de setembro, no Tokio Marine Hall, em São Paulo. O evento terá dois palcos e oito apresentações por dia, sem conflito de horários.

Antes do festival, veio o selo

A Balaclava Records nasceu em 2012 e rapidamente passou a trabalhar com artistas da cena independente brasileira, incluindo nomes como Terno Rei, Bonifrate e Luziluzia. Ao mesmo tempo, o selo estabeleceu relações com gravadoras independentes estrangeiras, criando uma ponte entre artistas brasileiros e uma rede internacional que muitas vezes não chegava ao público brasileiro pelos caminhos tradicionais.

Essa atuação ajuda a explicar uma característica que permanece no festival até hoje, a programação não parece construída a partir de um único gênero. O que conecta os artistas é uma determinada visão de música alternativa.

Shoegaze, pós-punk, indie rock, dream pop, emo, experimentalismo, R&B, hip-hop e psicodelia podem aparecer lado a lado porque o critério não é necessariamente a sonoridade em comum. É a existência de uma cena, de uma linguagem ou de uma comunidade artística que dialogue com o universo construído pela Balaclava.

Em 2015 nasce o Balaclava Fest

O festival surgiu em 2015, a primeira edição teve como atração Mac McCaughan, músico conhecido pelo Superchunk e fundador da gravadora independente Merge Records, ao lado da banda paulista Shed. Ainda naquele ano, Mac DeMarco passou pelo evento, que também recebeu nomes como Swervedriver, Yuck, TOPS e Mild High Club.

Pouco depois, o Balaclava colocaria outro nome fundamental do shoegaze em sua história, o Slowdive. A partir daí, o festival foi ampliando sua capacidade de reunir artistas internacionais que possuem grande relevância dentro da música alternativa, mesmo quando não necessariamente estão entre os nomes mais populares do circuito mainstream.

Primal Scream, Warpaint, Future Islands, RIDE, Kelela, Connan Mockasin e Black Midi estão entre os artistas que passaram pelo universo de shows da Balaclava ao longo dos anos.

Em 2025, o festival chegou a reunir Stereolab e Yo La Tengo na mesma edição, exemplo de como a curadoria passou a trabalhar com artistas de diferentes gerações e trajetórias dentro da música alternativa.

A maior edição da história

Agora, em 2026, o festival dobra de tamanho em relação à estrutura anterior e ocupa dois dias do Tokio Marine Hall.

No sábado, 26 de setembro, a programação reúne Blonde Redhead, Dry Cleaning, Pedro The Lion, bar italia, Wishy, Liv.e, Sharp Pins e Ludovic. No domingo, 27, chegam DIIV, Beach Fossils, Wednesday, High Vis, Sudan Archives, Winona Riders, Adorável Clichê e Budang.

Sábado, do art rock ao R&B experimental

Blonde Redhead representa uma trajetória de décadas atravessando indie rock, noise, dream pop e experimentação. O trio formado por Kazu Makino e pelos irmãos Simone e Amedeo Pace construiu uma identidade marcada por atmosferas densas e melodias delicadas.

Dry Cleaning, por outro lado, leva ao festival uma das faces mais particulares do pós-punk britânico contemporâneo. A banda combina guitarras angulares com o spoken word de Florence Shaw, criando músicas em que a narrativa vocal tem papel tão importante quanto os instrumentos.

Pedro The Lion, projeto liderado por David Bazan, traz uma conexão com o indie e o slowcore dos anos 1990 e 2000. É uma apresentação que representa uma geração para a qual vulnerabilidade, introspecção e guitarras econômicas ajudaram a redefinir o rock alternativo.

O londrino bar italia acrescenta outra camada ao sábado, o trio trabalha com indie rock de atmosfera minimalista, alternando vozes e construindo músicas que transitam entre tensão, melancolia e contenção.

Wishy representa uma geração mais recente ligada ao shoegaze e ao dream pop, enquanto Liv.e amplia ainda mais o espectro sonoro do festival ao misturar R&B, soul, jazz e hip-hop experimental.

Sharp Pins, projeto de Kai Slater, mergulha no lo-fi e no jangle pop, enquanto os paulistanos Ludovic representam uma parte da história do rock alternativo brasileiro, com sua mistura de pós-punk e rock dos anos 1990. Não existe um único gênero capaz de definir o sábado, e essa é justamente a ideia.

Domingo, shoegaze, hardcore, psicodelia e experimentação

O domingo começa com uma das atrações mais aguardadas da edição, o DIIV. A banda norte-americana construiu sua trajetória a partir do shoegaze e do dream pop, mas incorporou ao longo dos anos elementos eletrônicos, texturas mais pesadas e uma abordagem cada vez mais experimental. O Balaclava destaca que o grupo apresentará um show inédito no país.

Na sequência, Beach Fossils representa outra vertente do indie nova-iorquino, com suas guitarras atmosféricas, melodias nostálgicas e estética lo-fi.

Wednesday, liderada por Karly Hartzman, aproxima noise pop, country alternativo e shoegaze, enquanto High Vis mostra como o pós-punk contemporâneo pode conversar diretamente com o hardcore.

A proposta fica ainda mais ampla com Sudan Archives, projeto de Brittney Parks, que combina R&B, hip-hop e música eletrônica experimental com violino e loops de cordas.

Da Argentina vem Winona Riders, mergulhando na neo-psicodelia e no garage rock.

O Brasil aparece novamente com Adorável Clichê, de Santa Catarina, ligada ao dream pop, e Budang, que aproxima hardcore e pós-punk em uma abordagem marcada por humor, caos e crítica social.

Mais do que um festival indie

Talvez seja justamente aqui que esteja a importância do Balaclava, o festival não se tornou relevante apenas por conseguir trazer bandas estrangeiras ao Brasil. Sua trajetória é parte de um ecossistema que envolve selo, produção de shows, editora, eventos e outras iniciativas ligadas à música independente.

Em entrevista ao Music Non Stop, os fundadores destacaram justamente essa pluralidade como parte da construção da marca. A estratégia, segundo Rafael Farah, foi ampliar as frentes de atuação sem perder a essência independente do projeto. 

Isso muda a relação entre festival e público, em vez de funcionar somente como uma vitrine de artistas, o Balaclava atua como um ponto de encontro entre cenas.

É possível chegar para assistir a uma banda conhecida e sair de lá tendo descoberto outra completamente nova. É possível encontrar um nome brasileiro dividindo espaço com um artista internacional sem que um seja tratado simplesmente como atração de abertura do outro.

Uma curadoria que funciona como mapa

Festivais grandes normalmente precisam trabalhar com nomes capazes de atrair multidões, o Balaclava construiu outro caminho.

Sua programação funciona quase como um mapa da música alternativa contemporânea, algumas bandas estão em ascensão, outras possuem décadas de carreira, algumas são conhecidas por um público específico e outras estão começando a construir sua própria comunidade.

A conexão entre elas não está necessariamente no gênero, está na descoberta. E, depois de mais de uma década de Balaclava Records e 16 edições do festival, essa curadoria deixou de ser apenas uma característica do evento para se transformar em sua própria identidade.

O Balaclava Fest 2026 acontece nos dias 26 e 27 de setembro, no Tokio Marine Hall, em São Paulo, com abertura dos portões às 15h e encerramento previsto para as 23h.

Mais do que reunir 16 artistas em dois dias, a edição representa uma espécie de fotografia da música alternativa que a Balaclava ajudou a construir no Brasil, uma cena em que fronteiras entre indie, shoegaze, pós-punk, hardcore, R&B, psicodelia e experimentalismo podem existir no mesmo espaço.

Balaclava Fest 2026

SERVIÇO:

Datas: 26 e 27 de setembro de 2026
Local: Tokio Marine Hall – Rua Bragança Paulista, 1281, Várzea de Baixo, São Paulo (SP)
Horário: abertura dos portões às 15h; encerramento às 23h

Ingressos disponíveis pela Ingresse, com opções de ingressos avulsos por dia e Balaclava Combo para os dois dias. Também há ponto de venda físico sem taxa de conveniência no Takkø Café (Rua Major Sertório, 553, Vila Buarque).

Ingresso social disponível para todos os públicos mediante doação de 1 kg de alimento não perecível.

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