Holding Absence, tecnologia e as bandas sem alma
Com a força com que a IA adentra o espaço musical substituindo o trabalho criativo humano, fica cada vez mais claro que é necessário não só a sua regulamentação, como também transparência quando se fala de trabalhos 100% feitos por IA. Recentemente, um escândalo em uma grande empresa trouxe uma série de debates sobre a ferramenta na esfera musical.
No fim de 2025, a empresa Suno, uma plataforma que gera músicas com o uso da inteligência artificial, foi hackeada, mas a notícia só foi divulgada ao público geral recentemente. O receio inicial era de que essa invasão seria perigosa, pois colocaria dados pessoais de usuários em risco, como endereços e informações de pagamento.
A Suno funciona supostamente, pegando dados de plataformas como Youtube, Deezer, Spotify, Genius e outras. A plataforma então, usava essas informações como letras, e outros arquivos para treinar o seu sistema. Todas com informações e dados públicos mas que, até o momento da invasão, o uso específico das mesmas não era claro. Posteriormente, em uma nota para a Pitchfork, um representante da plataforma afirmou que a invasão foi rapidamente remediada e que nenhum dado sensível de usuários foi efetivamente vazado ou comprometido.
Curiosamente, o responsável por invadir a plataforma, se manifestou e afirmou não ter interesse em usar essas informações, que apenas gostava de invadir sistemas, seja lá qual fosse.
Mas afinal, qual é o tipo de ameaça que a Suno representa? Bom, a empresa já carrega nas costas processos feitos por grandes gravadoras como Sony e Universal Music Group, tudo por conta do uso indevido de materiais que violam as leis de copyright (o famoso uso de direitos autorais). Além desses grandes nomes, a Warner também entrou num processo contra a empresa, mas o atrito foi resolvido com uma parceria oficial entre ambas as partes. No entanto, as gravadoras não são as únicas que se mostram incomodadas com a Suno.
Em setembro do ano passado, a banda Holding Absence expôs uma situação alarmante. O vocalista Lucas Woodland escreveu em suas redes sociais: “Então, uma banda de IA que nos mencionou como inspiração (o prompt é treinado usando nossas músicas) acabou de nos ultrapassar no Spotify em apenas DOIS meses. É chocante, é desanimador, é insultante e, mais importante, é um aviso para acordarmos.” A banda de IA em questão é Bleeding Verse; que já acumula mais de 400 mil ouvintes mensais no Spotify e quase 3 mil inscritos no YouTube. Em sua descrição nas plataformas podemos ler:
“Bleeding Verse é uma banda emotiva, post-hardcore que constrói trilhas cinematográficas e melodias que partem o coração. Inspirada em artistas como Dayseeker e Holding Absence, nós mesclamos texturas, vocais crescentes e lirismo poético para explorar o luto, identidade e cura. Letras do coração. Instrumentação e vocais gerados por IA.
A banda parece ser empurrada para novos ouvintes pelo próprio Spotify, que afirma trabalhar arduamente para remover essas faixas de IA. Até outubro de 2025, 75 milhões de faixas foram removidas. Fica a reflexão: quando o trabalho sem alma foi aceito de braços abertos ao invés do trabalho feito por humanos?