Em 1995, Mariah Carey encontrou no rock alternativo uma forma de escape e terapia com a banda secreta Chick

Em um dia qualquer em meados dos anos 2000 – possivelmente, 2006 –, uma parceria musical inesperada aconteceu. Courtney Love, recém-saída da rehab, se preparava para montar seu segundo trabalho solo e estava procurando alguém para cantar o verso “People like you fuck people like me”, de sua composição “Samantha”. Entre os colegas que educadamente recusaram o convite estavam Billy Corgan, do Smashing Pumpkins, e Gerard Way, do My Chemical Romance. Courtney, então, levou sua busca até a mansão de Los Angeles do amigo Brett Ratner, diretor de “A Hora do Rush”. Enquanto ela mostrava “Samantha” para Ratner, uma vozinha interrompeu: “Eu canto [essa parte].” Era Mariah Carey, que havia colaborado com o diretor no clipe de “We Belong Together”. 

Segundo Courtney, Mariah realmente cantou a música para ela. Só teve um problema: ninguém ali tinha um gravador. E assim encerrou a breve participação de Mimi no álbum Nobody’s Daughter, que acabou saindo apenas em 2010 como um projeto da Hole, a antiga banda de Courtney.

“Eu nunca encontrei Mariah por mais de um minuto na minha vida, mas a gente meio que cancelou uma a outra. Nós não tínhamos nada de negativo para dizer uma sobre a outra”, Courtney disse à época. “Eu não estou no universo dela e ela não está no meu.”

O que Courtney Love – e o mundo inteiro – provavelmente não sabia era que, muito antes daquele encontro em Los Angeles, Mariah já tinha, sim, um pé no universo do rock alternativo.

Muito mais do que só um pé, na verdade: em 1995, Mariah não apenas escreveu, como produziu e cantou a voz de fundo de todas as músicas (exceto por um cover) de Someone’s Ugly Daughter, único álbum de sua banda grunge secreta Chick. A revelação veio quando ela compartilhou em seu Twitter um trecho da autobiografia “The Meaning of Mariah Carey”, escrita em parceria com a autora e ativista Michaela Angela Davis e lançada no fim de setembro.

Em 1995, Mariah estava trabalhando em Daydream, seu aclamado quinto álbum de estúdio, no qual ela ganhou um pouco mais de controle sobre a direção musical e pôde incorporar com mais destaque elementos de R&B e hip hop. Foi durante esse trabalho também que a artista teve intensas divergências criativas com o então marido, o empresário e, na época, CEO da Sony Music, Tommy Mottola.

Mariah encontrou nas sessões de Someone’s Ugly Daughter uma forma de descarregar suas frustrações com, entre outras coisas, seu relacionamento abusivo e a pressão de ser uma jovem artista de sucesso. 

“Eu estava brincando com o estilo grunge informal e punk leve das cantoras brancas que eram populares na época. Sabe, aquelas que pareciam tão despreocupadas com seus sentimentos e sua imagem. Elas podiam ser bravas, angustiadas, e desarrumadas, com sapatos velhos, vestidos amassados e sobrancelhas indomadas, enquanto todo movimento que eu fazia era tão calculado e bem cuidado”,  Mariah Carey escreveu na biografia. “Eu queria me libertar, me soltar, e expressar minha angústia – mas também queria rir. Toda noite, eu esperava ansiosamente pelas sessões da minha banda alter-ego depois de Daydream.”

Mariah aproveitou o pessoal que já estava trabalhando com ela, com o programador Gary Cirimelli na guitarra, o produtor e compositor Walter Afanasieff no teclado e bateria, e um membro da equipe de empresários dela no baixo. A amiga e ex-colega de quarto Clarissa Dane Davidson entrou para ser o rosto e a voz principais. Com seus cabelos loiros e olhos claros penetrantes, Clarissa incorporou uma personagem cheia de atitude que visualmente lembrava a própria Courtney Love na época, especialmente no clipe de “Demented” – um dos dois únicos disponíveis hoje, publicados em 2009 no Vevo oficial da Chick

It’s like when you whisper what you really want to scream

Demented, 1995

Curiosamente, Mariah parece já ter aludido especificamente a essa música secreta há anos. Em “The Billboard Book of Number One Hits”, de 2003, o jornalista Fred Bronson explicou que, menos de um ano depois de “Always Be My Baby” chegar à primeira posição na Billboard, Mariah tinha seu próprio selo musical, chamado Crave. “[O nome] veio de uma canção que eu escrevi que ninguém nunca ouviu”, a artista disse. “É um segredo. Um dia eu falarei sobre isso.” A faixa secreta passou a ser referida como “The Crave Song” entre os Lambs, mas o refrão de “Demented” deixa poucas dúvidas sobre qual música seria.

Clarissa Dane no clipe de "Demented" (1995) e Courtney Love no clipe de "Doll Parts" (1994)
Clarissa Dane no clipe de “Demented” (1995) e Courtney Love no clipe de “Doll Parts” (1994)
O álbum

Todas as faixas têm um quê de raiva misturada a uma certa melancolia e até mesmo solidão. Temos um eu-lírico que parece estar um tanto quanto inseguro ou perdido quanto a seu papel no mundo em “Stork: Orphan In My Room”, “Hermit” e “Prom Queen” – esta última, uma narrativa sobre uma adolescente transexual. 

Já faixas como “Joe” e “Violent” aludem a um relacionamento que não parece ir muito bem, frustração que fica ainda mais explícita em “Love Is a Scam” (“I don’t wanna kiss you with morning breath/ I don’t wanna treat you with tenderness”) e na animada “Malibu” – cujo clipe, dirigido por Mariah, mostra Clarissa cantando como deseja que o parceiro estivesse morto enquanto arranca a cabeça de uma Barbie em um quarto que parece saído diretamente de um filme adolescente dos anos 1990. 

O clipe de “Malibu” conta ainda com uma participação especial de Jack, o cachorrinho de Mariah. O plano original dela, na verdade, era vestir uma fantasia em que ficasse irreconhecível e participar ela mesma de um clipe, como contou recentemente no programa de Stephen Colbert. Mas o pessoal da gravadora não ficou muito feliz com a ideia. “Sou eu fazendo um sotaque, uma imitação de alguém que eu criei que não existe de verdade,” disse. “Somente alguém que realmente conhece minha voz seria capaz de ouvir e saber que sou eu.” 

A influência de artistas e grupos femininos dos anos 1990 como PJ Harvey, Liz Phair, L7 e, é claro, Hole, é gritante – Chick poderia muito bem ser uma das bandas favoritas de Kat, de “10 Coisas que Eu Odeio em Você”. Dookie, do Green Day, também era um dos álbuns favoritos de Mariah na época.

Someone’s Ugly Daughter, como a própria artista descreve em seu livro, não soa como algo extensivamente produzido. “Eu trazia minha musiquinha alt-rock para a banda e cantarolava um riff de guitarra bobo. Eles pegavam e nós gravávamos imediatamente”, ela conta. “Era irreverente, cru, e urgente.” Em entrevista à Rolling Stone, um dos produtores de Mariah na época, Dana Jon Chappelle, confirmou como tudo acontecia rápido. “Muitas vezes, ela escrevia uma música e a letra estaria pronta em 10, 15 minutos”, ele disse. “Ela sentava lá com um bloco e soltava letras ou ideias e aí as terminava outro dia.” 

Na internet, é possível encontrar pequenos trechos de cada faixa. Infelizmente, o álbum (por enquanto) não está disponível em nenhum serviço de streaming e a única cópia física à venda na Amazon custa quase 500 dólares – a própria Clarissa, em 2015, deixou uma avaliação em que dizia que amou fazer o CD e que ele tem “um ingrediente secreto”. Bom, agora a gente já sabe. 

Mas isso deve mudar em breve: Mariah já anunciou que está procurando pela versão do álbum em que ela canta os vocais principais, então é possível que logo, logo tenhamos um relançamento. 

Já imaginou uma Mariah Carey de coturno e maquiagem borrada?

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