Para os fãs hardcore de música, nenhum show é apenas um show. É o preparo, a roupa, a viagem, a ansiedade e antecipação. Depois que tudo isso passa, vem o vazio. Um sentimento de gratidão pelo que aconteceu, mas um vazio com gostinho de “quero mais”, e existe uma explicação química por trás dessas sensações.
O ROCKNBOLD conversou com Caroline Vilaça, fã e psicóloga, que nos explicou que esse fenômeno tem um nome: post-concert blues, ou, do português, depressão pós-show. O tema já é pauta de diversos estudos científicos no meio médico e reforçam a forte ligação entre música e saúde mental, e como “voltar para a vida real” após grandes eventos culturais pode motivar uma queda no humor.
Caroline explica quimicamente o porquê desse sentimento ser tão comum, principalmente entre os fãs mais apaixonados: “Durante atividades prazerosas, nosso organismo aumenta a produção de endorfina e dopamina, substâncias responsáveis pela sensação de bem estar, e diminui a produção de cortisol, hormônio ligado ao estresse. Visto que estamos falando de uma situação intensa, essa produção praticamente dobra, triplica, e como se isso já não fosse o suficiente, ganha um adicional de produção de adrenalina“.
Segundo a psicóloga, os sentimentos mais comuns são de vazio ou tristeza, desinteresse por fazer outras atividades por achar que nada vai proporcionar sensações iguais ou similares, sensação de cansaço e falta de energia e até mesmo questões relacionadas à concentração, tomada de decisões, apetite e insônia. “Ao fim do evento, o organismo sente, de forma brusca ou não, a queda da produção dessas substâncias e surgem os primeiros sinais de baixa no humor e sintomas“, conta Caroline, que falou sobre o tema pela primeira vez após a passagem do My Chemical Romance pelo Brasil em fevereiro de 2026.
Ok, então tem explicação para a depressão pós-show… E agora?
Além de revisitar todos os vídeos e memórias e já planejar o próximo grande evento, Caroline explica que a auto observação é uma parte muito importante nos dias seguintes e pode evitar que o desbalanceamento químico seja gatilho para outros distúrbios e transtornos. “Entender que você vai ficar desregulado por um tempinho é parte importante do processo, pois funciona da mesma forma que um distúrbio de adaptação“.
Apesar dos sentimentos de vazio e desinteresse que podem surgir, é importante priorizar o autocuidado e bem-estar nos dias seguintes do evento. “Continuar realizando atividades que você considere prazerosas, se alimentar bem e iniciar ou manter uma boa rotina de sono ajudam a amenizar os sintomas”, recomenda a psicóloga.
Os sintomas costumam durar cerca de duas semanas, mas, caso eles se intensifiquem ou permaneçam por mais tempo do que a estimativa, há a recomendação de procurar um profissional habilitado da área de saúde mental para investigar se existe algo a mais ou que possa ter sido engatilhado pelo evento em si. “Em resumo: prestar atenção nos sintomas, no tempo de duração deles e não ter vergonha de pedir ajuda por achar um motivo bobo e sem importância”, adverte Caroline.