“Petals For Armor” e a busca por equilíbrio de Hayley Williams

Com Petals For Armor, Hayley Williams apresenta as próprias dores e o lado mais poderoso e vulnerável da voz de uma geração.
Hayley Williams

A maioria das pessoas ainda reconhecem Hayley Williams como a cantora de cabelo vermelho, delineador marcante e líder do Paramore. Crescemos ouvindo “Mysery Business”, “That’s What You Get” e “The Only Exception”. No entanto, da mesma forma que os fãs da banda se tornaram adultos com trabalhos e responsabilidades, Hayley também amadureceu. Com Petals For Armor, ela apresenta suas dores e o engrandecimento da sua voz. 

Desde seu disco de 2013, o Paramore já se mostra longe da pegada emo que os levou para o topo das paradas. Mesmo assim, ao se lançar numa jornada solo, a cantora se distancia do som energético e pop que apresentou na última década com o seu grupo. Suas letras continuam relatando seus medos e amores, mas agora é tudo da forma mais pessoal possível.

O álbum é inteiro produzido por Taylor York, seu companheiro de banda, fazendo com que possua uma química natural e não seja apenas várias músicas tentando se encaixar, elas realmente se conectam. Em quase toda a obra, Hayley está cantando um pouco diferente dos seus trabalhos anteriores. A voz segue belíssima e marcante, mas não vamos ouvir ela em sua forma alta e agressiva, essa parte segue no Paramore. Assim, o disco é a prova de que a cantora pode fazer algo diferente do usual.

“Petals For Armor” foi dividido em três partes para habituar o público com as transições do disco. Totalizando 15 músicas, a primeira parte é mais introspectiva, depois embarcamos em uma mudança de sensações para chegar ao final, onde Hayley encontra a paz interior com seus amigos e sua família ao redor.

A melhor decisão da artista no disco foi tornar “Simmer” seu primeiro single e a primeira faixa do álbum. Logo de cara, ela já mostra ao público que ninguém deve esperar o som colorido do “After Laughter”, último disco de sua banda. O ótimo trabalho de 2017 possui uma energia dançante e cheia de sintetizadores que escondem as melancólicas letras, entretanto, em sua primeira música distante do grupo, artista consegue expressar que todos esses sentimentos vêm acompanhados por um instrumental sombrio. A forma como a música é construída se assemelha ao que St. Vincent lançou em Marry Me, seu disco de estreia em 2007.

 “Leave It Alone” é bem semelhante a primeira faixa da obra, porém, mesmo com uma letra interessante e um ótimo vocal da artista, um ouvinte mais atento vai se sentir incomodado. Essa sensação ocorre do fato de que a faixa é muito parecida com Radiohead. Claro que é importante um disco possuir referências, mas ao escutarmos uma música nova, não queremos ter a sensação de que já a ouvimos antes. Se trocarmos o vocal da Hayley na faixa e adicionar a voz do Thom Yorke, fica idêntica a uma canção do grupo britânico.

Enquanto isso, “Cinnamon” é bem criativa, chega até a ser propositalmente estranha de uma maneira que pode tornar a experiência perturbadora. “Sudden Desire” é a maior surpresa da primeira parte do disco, a letra sobre a urgência de se conectar com alguém e o alcance vocal da artista na faixa mostram que, até em trabalhos mais introspectivos, ela está disposta a compor músicas para grandes públicos. No meio dessas faixas envolventes, “Creepin’” se torna esquecível.

Em “Dead Horse”, Hayley canta especificamente sobre seu antigo relacionamento, direcionando a letra para seu ex-marido.  A produção alegre com a letra mais para baixo remete ao “After Laughter”. Contudo, a semelhança não atrapalha a experiência do cantor. Ao chegarmos na sétima faixa, esperamos a virada de jogo do disco e ela vem: “My Friend” é a primeira prova de que ela está superando seu passado com a ajuda de pessoas queridas que estão ao seu redor. Apesar disso, o a obra ainda relembra o som do Radiohead de “Leave It Alone”, que já deveria ter sido superado nesse ponto do álbum – até lembrando que a própria Hayley o dividiu em três partes distintas.

“Over Yet” é o que esperamos ouvir ao ligarmos na nossa estação de rádio favorita. Uma música otimista e a verdadeira mudança de som do disco. Agora, após nove músicas, chegamos no ponto alto do disco. A faixa “Roses/Lotus/Violet/Iris” conta sobre como achar seu lado mais feminino e gostar dele. A jornada pela sua feminilidade é acompanhada pelo supergrupo boygenius que faz o vocal de apoio. Nesse ponto, Hayley afirma o motivo de lançar um álbum solo: ela realmente quer se desprender do seu passado e se conectar com o que está acontecendo no presente. Até por esse motivo, ela chama três cantoras com trabalhos relativamente novos para a ajudar nessa nova empreitada.

Em sua parte final, “Pure Love” e “Taken” mostram que ela conseguiu avançar em sua vida e se abrir para um novo amor. Uma forma fofa de começar o encerramento da obra. Ainda assim, as faixas são simples perto do que já foi apresentado ao longo das outras duas partes. Para terminar o álbum, “Crystal Clear” encerra tudo de forma serena, como esperado.

“Petals For Armor” é um bom disco, com um instrumental belíssimo, linhas de baixo memoráveis e um vocal arrasador da artista, mas, infelizmente, ele demora quinze músicas para chegar ao equilíbrio que ela quer nos apresentar. A jornada do herói de Hayley Williams é bonita, você sofre suas dores e fica feliz com a resolução do problema. Mesmo assim, em um trabalho que foi lançado em três etapas para preparar seus fãs para cada momento, a chegada do resultado final é quase decepcionante.

7/10

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