Música, política e ativismo andam lado a lado há muito tempo, mas artistas ainda são criticados por suas opiniões – ou falta delas

A temporada coincidente de eleições nos Estados Unidos e no Brasil trouxe estresse, discussões, memes, e uma velha questão: afinal, artistas musicais deveriam ou não expor suas visões políticas?

Nos EUA, artistas como Miley Cyrus, Taylor Swift, Ariana Grande, Eminem, Fall Out Boy e muitos outros declararam abertamente seu apoio à campanha presidencial dos democratas Joe Biden e Kamala Harris. O apoio mais notório talvez tenha vindo de Lady Gaga, que chegou a produzir um vídeo recriando alguns dos figurinos mais icônicos de sua carreira para pedir aos fãs que fossem votar, e se apresentou em um comício da chapa em Pittsburgh, na Pensilvânia. Gaga incomodou tanto a campanha de Donald Trump, rival de Biden, que o candidato republicano não apenas mencionou a cantora em um comício, como também emitiu um comunicado oficial a seus apoiadores em que condenava o apoio dela.

Porém, antes de Biden ser escolhido para concorrer à presidência pelos Democratas, quem tinha o maior apoio de grandes nomes da música era o colega de partido Bernie Sanders. Desde cedo, a campanha de Sanders focou em trazer o suporte de artistas ao candidato, indo ativamente atrás de empresários e gravadoras. Foi assim que conseguiram com que Jack White, que se apresentou em um comício, apoiasse um candidato presidencial publicamente pela primeira vez na vida. Outros apoiadores incluem Cardi B, que conversou com o “tio Bernie” em uma live no Instagram, e The Strokes, que se apresentaram em um comício em New Hampshire logo antes das eleições primárias do partido no Estado – uma pesquisa mostrou que 47% dos eleitores que votaram em Sanders por lá tinham entre 18 e 29 anos.

Poucos nomes declararam publicamente apoio a Trump, entre eles 50 Cent e Lil Wayne. A rejeição ao republicano foi tão grande entre a classe musical que alguns artistas expressamente proibiram que suas canções fossem utilizadas pela campanha dele – como “In The End”, do Linkin Park, e “High Hopes”, do Panic! At The Disco. Bruce Springsteen também criticou o uso de “Born in the U.S.A.” por apoiadores de Trump, chamando o candidato de “idiota” e uma “ameaça a democracia”

Em uma enquete feita no Instagram do ROCKNBOLD (inclusive, siga a gente lá em @ROCKNBOLD), 97% das pessoas que responderam disseram achar importante a manifestação pública de artistas na política. Saber quem o ídolo apoia pode ajudar os fãs a entenderem com quais valores um artista se identifica ou não, e isso acaba sendo muito significativo quando se leva em conta que a música é praticamente uma extensão de nossa personalidade. Como grandes influenciadores, artistas também podem incentivar seu público a se engajar mais com questões políticas, especialmente fãs mais jovens. 

Isso pode ser ainda mais importante em um ano cheio de reviravoltas e agitação como 2020, no qual assuntos como saúde pública, desigualdade social, e violência policial têm sido centrais. E, para alguns fãs, isso pode ser um elemento decisivo para que continuem apoiando e consumindo o conteúdo de alguém – o que, às vezes, leva o músico a optar pelo silêncio.

Durante as eleições de 2018 no Brasil, por exemplo, Anitta foi duramente criticada por não se posicionar publicamente contra a campanha de Jair Bolsonaro. A cobrança veio porque o candidato, que àquela altura já havia dado diversas declarações homofóbicas, racistas, e machistas, representava justamente o contrário dos ideais de grande parte da fanbase da cantora, abraçada pelo público LGBTQIA+. “Não quero ser obrigada a odiar ninguém por isso”, ela escreveu no Twitter à época. “Não quero ser obrigada a fazer campanha política quando não foi esse o trabalho que escolhi.” (Algum tempo depois, ela atendeu aos pedidos e se juntou ao “#EleNão”.)

A sertaneja  Marília Mendonça, por sua vez, foi atacada na mesma época justamente por expressar repúdio a Bolsonaro em uma postagem – indo na contramão de colegas como Zé Neto e Cristiano e Gusttavo Lima, que apoiaram publicamente o então candidato. A cantora relatou ter recebido ameaças nas redes sociais e chegou a pedir desculpas aos fãs por seu posicionamento. “Minha mãe tem recebido ataques tanto quanto o restante da minha família que nem compartilham da mesma opinião que a minha. Deixo aqui essa mensagem, e o meu profundo silêncio em qualquer questão que seja política”, ela escreveu em um post no Instagram. “Não posso opinar já que não sei do que o Brasil precisa.”

Quando música  = política

É claro que política vai além de apoiar um partido ou outro. Ela também está em visões de mundo, que muitos artistas traduzem em suas músicas – tornando-as inseparáveis de questões políticas e sociais. 

Entre os anos 1960 e 70, por exemplo, quando os EUA viviam um momento de mudança com movimentos de direitos civis e contra a guerra do Vietnã, músicas como “The Times They Are a-Changin’”, de Bob Dylan, e “Give Peace a Chance”, de John Lennon com sua Plastic Ono Band, se tornaram emblemáticas. Em 1969, Lennon notoriamente devolveu sua condecoração da Ordem do Império Britânico para a rainha Elizabeth II em “protesto contra o envolvimento da Grã-Bretanha na [guerra civil] da Nigéria-Biafra, contra o nosso apoio à América no Vietnã, e contra ‘Cold Turkey’ ter caído nas paradas.” No ano anterior, o Padrinho do Soul, James Brown, cantava sobre empoderamento negro no lançamento “Say It Loud – I’m Black and I’m Proud”. 

O movimento punk rock nos anos 1970 também era carregado de política. Bandas como The Clash, Sex Pistols, e Dead Kennedys usavam suas letras para ir contra o establishment, capitalismo, e racismo, entre outras questões sociais. O primeiro álbum homônimo dos britânicos do The Clash, de 1977, foi considerado tão ofensivo pela gravadora deles que ela se recusou a lançá-lo nos EUA. A banda é considerada pioneira do punk político e era crítica ferrenha da monarquia e aristocracia mas, diferente de outros grupos da cena, como os Sex Pistols, rejeitava o niilismo. 

A política continuou com forte presença na música com o crescimento do hip hop nos anos 1980 e 1990 e ascensão de grupos como os californianos do N.W.A., com “Fuck tha Police”, e os novaiorquinos do Public Enemy, com “Fight the Power”. Também não faltou política no rock: o R.E.M. teve o hit “Orange Crush”, com letra anti-guerra, e o Rage Against the Machine chegou com um leque de músicas-protesto, como “Killing in the Name”, que comparava a força policial americana à Ku Klux Klan.

Os ataques do 11 de setembro e a subsequente “guerra ao terror” do presidente americano George W. Bush inspiraram muitas canções-protesto nos anos 2000: P!nk fez uma carta-aberta cheia de críticas em “Dear Mr. President”, enquanto Neil Young foi ainda mais explícito em “Let’s Impeach the President” e o Green Day criticou a imprensa pela cobertura da Guerra do Iraque em “American Idiot”. 

Nos anos 2010, o crescimento da violência policial contra negros foi tema de músicas como “Formation” e “Freedom”, de Beyoncé, “Alright” e “Fear”, de Kendrick Lamar, e “Wildfires”, da banda “anônima” SAULT. O governo de Trump também inspirou artistas como Fiona Apple, com “Tiny Hands”, Eminem com “Campaign Speech”, e Demi Lovato, com “Commander in Chief”. 

No Brasil, um dos períodos mais sombrios do país também foi um dos mais ricos em músicas-protesto. Durante a ditadura civil-militar de 1964 a 1985, artistas críticos do regime foram perseguidos, censurados, e muitos deles, exilados. Foi o caso de Caetano Veloso e Gilberto Gil, que escreveram “Panis et Circenses”, Chico Buarque, de “Cálice” (coescrita com Gil) e “Apesar de você”, e Geraldo Vandré, compositor de “Pra não dizer que não falei das flores” – considerado um hino contra a ditadura. 

Pelos campos há fome / Em grandes plantações / Pelas ruas marchando / Indecisos cordões / Ainda fazem da flor / Seu mais forte refrão / E acreditam nas flores / Vencendo o canhão”

Para não dizer que não falei das flores, 1968

Nas décadas seguintes, as maiores críticas políticas vieram no rap nacional, marcado por canções como “Diário de um Detento”, do Racionais MC’s, que fala sobre a rebelião do presídio do Carandiru em 1992, e “Soldado do Morro”, de MV Bill, que conta sobre a vida nas favelas do Rio de Janeiro. Críticas sociais também estão presentes nas letras de “Não existe amor em SP”, de Criolo, e “Dedo na ferida”, de Emicida. Mais recentemente, o “funk consciente” tem trazido letras que abordam questões sociais da periferia, como “Sou Vitorioso”, de MC Lele JP e MC Neguinho do Kaxeta, e “Sou maloqueiro memo”, de Mc Thiaguinho da CV. Já o trabalho da rapper e drag queen Gloria Groove aborda questões de violência e exploração LGBTQIA+, como em “Magenta Ca$h” e o clipe de “A Caminhada”, assim como Pabllo Vittar com “Indestrutível”.

Só uma fase?

Mesmo com uma trajetória de ativismo e músicas-protesto, muitos artistas veteranos acabam criticados por fãs justamente por… se posicionarem politicamente. Roger Waters, do Pink Floyd, foi vaiado durante a passagem de sua turnê pelo Brasil em 2018, quando fez críticas a Bolsonaro nos palcos e em entrevistas. 

Recentemente, um fã tuitou para o Tom Morello, do Rage Against the Machine, reclamando que deixaria de apoiar a banda após descobrir as opiniões políticas do músico. “Música é meu santuário e a última coisa que eu quero ouvir é m*rda política quando estou ouvindo música”, teria dito o fã. Ao que Morello simplesmente respondeu: “Quais das minhas músicas que você era fã que NÃO continham ‘m*rda política’? Preciso saber para que eu possa deletar do catálogo”. 

Alguns artistas que também se mantêm convictos em suas posições políticas são Patti Smith, que cantou “People Have The Power” pelas ruas de Nova York com Lenny Kaye às vésperas das eleições presidenciais, e mesmo Caetano Veloso, que em 2020 promoveu um show virtual em apoio às candidaturas de Manuela d’Ávila e Guilherme Boulos e é um crítico constante de Bolsonaro. 

Jonny Rotten, 2020.
Johnny Rotten, do Sex Pistols, com uma camiseta MAGA em setembro de 2020

Já outros são, às vezes, acusados de terem “traído o movimento”. Alguns exemplos são John Lydon (ou Johnny Rotten), do Sex Pistols, que foi recentemente fotografado vestindo uma camiseta vermelha com a estampa “Make America Great Again”, e Kanye West, que foi de crítico de Bush e apoiador de Hillary Clinton a amigo de Trump e candidato à presidência americana. Lobão é outro músico cujas visões políticas são vistas como controversas por alguns fãs, tendo sido apoiador de Lula, amigo do conservador Olavo de Carvalho, e atualmente crítico do governo Bolsonaro

Seja por medo de ameaças ou de queda em vendas e streams, ainda há quem prefira não se posicionar. Mas, cada vez mais, a impressão é a de que artistas que escolhem ficar em cima do muro acabam também ficando pelo meio do caminho.