Melton Sello faz mais do mesmo em “OPA!” — e era exatamente isso que a gente queria

Capa de "OPA!", primeiro álbum de Melton Sello. Créditos: Divulgação/Rodrigo Doin
Capa de “OPA!”, primeiro álbum de Melton Sello. Créditos: Divulgação/Rodrigo Doin

Melton Sello lançou nesta sexta-feira (10) o primeiro álbum completo da banda, genialmente apelidado pelo acrônimo “OPA!”. Oito anos após a formação da banda e cinco após o primeiro trabalho autoral, o disco conta com 12 faixas que contam uma história dividida em duas partes e que podem ser a trilha sonora perfeita para a sua próxima viagem de carro.

O álbum começa literalmente te dando olá e te explicando a maneira certa de ouvir o que vem a seguir. Respondendo a toda e qualquer crítica que possa surgir, Melton Sello assume que o primeiro trabalho do grupo não é exatamente disruptivo, mas se garante em entregar muito bem tudo o que se propõe a fazer.

“Melton Sello fazendo mais do mesmo. Desde 2000 e pouco até 2000 e tanto faz. Claro que você já viu alguma coisa igual, a gente não tem nenhuma pretensão de ser inovador. Pode ser que mais do mesmo seja até legal”.

Melton Sello em “Mais do Mesmo”, segunda faixa do álbum “OPA!”
Melton Sello em divulgação para “OPA!”, primeiro álbum da banda. Créditos: Divulgação/@doggskull

Em entrevista exclusiva para a E eu que era Emo? e ROCKNBOLD, Gabriel Barros (baixista) e Igor d’Alambert (guitarrista) contaram um pouco sobre a história da banda e o processo de criação do primeiro álbum. O quarteto, formado também por Caio Paranaguá (vocalista) e Gabriel (Bill) Dias (baterista), resgata o que há de melhor no riocore e no pop punk nacional ao longo dos 31 minutos de duração do álbum, mesclando a nostalgia do que já foi feito antes com o toque individual que faz a Melton Sello ser uma das bandas mais interessantes da cena alternativa carioca atual.

“Já tô falando, cara, não tem nada de diferente aqui, tudo que tem nas músicas que estão aqui, vocês já ouviram em algum lugar“, comenta Igor sobre a faixa Mais do Mesmo, que define o tom do álbum. “Pensamos no que a gente gostaria de ver dentro do pop punk, trouxemos um pouco diso e também elementos novos. Gostamos das mesmas músicas, mas cada um tem sua preferência dentro do rock, então tentamos misturar tudo isso e fazer algo diferente“.

Originalmente criada como uma banda cover de pop punk em 2019, Melton Sello começou a trabalhar em músicas autorais durante a pandemia e fez os primeiros shows em 2023. Com um novo álbum recheado de referências que vão de Sandy & Júnior a Leonardo & Zezé Di Camargo, o grupo carioca foge da estética esperada de uma banda de rock tradicional.

Como toda a geração que cresceu ouvindo músicas emo nas rádios e vendo videoclipes alternativos na MTV, Gabriel e Igor contam que o intuito do álbum era trazer de volta e brincar com o pop e o rock dos anos 90 e 2000. Apesar de ter blink-182, Forfun e New Found Glory como referências, “OPA!” é um álbum curiosamente versátil.

Faixas como “Microplásticos”, “Umbigo”, “Para Com Essa Parada” e “Boto Fé” realmente remetem aos anos 2000, mas de forma colorida e familiar aos que cresceram ouvindo Restart e assistindo Camp Rock. Simultaneamente, “Mais do Mesmo” e “É Mole?”, os primeiros singles do álbum, consolidam o tom bem-humorado, descontraído e divertido que a Melton Sello adota como identidade musical e que a diferencia do pop punk brasileiro padrão.

Já “O Pior TikToker da Minha Rua”, “Dei Bobeira” e “Mudar Pra Roça” provam que o quarteto, apesar das inúmeras comparações com outras bandas e épocas, entrega composições e letras que se destacam além da identidade da banda. Apesar de ser um álbum que soa familiar, qualquer trabalho de pop punk e/ou riocore em 2026 feito por quem pensa em música não pelo sucesso, mas sim pela qualidade, já é uma quebra de expectativa. A versatilidade com a qual os músicos transitam entre faixas que flertam com o country e o reggae, de froma coesa e sem abandonar o pop punk, nos prova que “OPA!” não é a mesmice que a segunda faixa nos prometeu que seria.

Eu queria fazer um disco que remetesse a minha adolescência, mas ao mesmo tempo trazer elementos novos, que não fosse só fazer um Control C + Control V do som que eu ouvia. Queria que as pessoas se teletransportassem pros anos 90 e 2000 ouvindo esse álbum“, explica o baixista.

Melton Sello para o álbum “OPA!”. Créditos: Divulgação/@doggskull

A ideia da Melton Sello surgiu em 2019 a partir do sentimento de vazio dentro do cenário de pop punk nacional na época. Entre o auge do riocore nos anos 2000 e as mega turnês que lucram com a nostalgia no pós-pandemia, o gênero ficou adormecido no meio do caminho. O último álbum inédito do Forfun foi lançado há 12 anos, Dibob esteve longe dos estúdios de gravação por quase duas décadas, o último álbum de Catch Side – que na verdade é um EP – foi lançado em 2015. Antes de perceber que era possível fazer dinheiro com gravações de shows no Circo Voador repletos de hits de décadas passadas, poucas foram as bandas que persistiram.

“Eu sempre curti pop punk e estava com a ideia de montar uma banda nessa pegada. Eu queria fazer esse som e também estava sentindo falta de bandas no Rio que fizessem esse tipo de música”, conta Igor, responsável pelo surgimento da Melton Sello.

O lançamento de um álbum tão coeso parece um milagre; cada integrante está em um momento diferente da vida. Uma banda formada por um ator, um pai com filha pequena, um publicitário e um baterista que toca em vários projetos tinha de tudo para enfrenar todos os desafios possíveis, mas a proximidade, tanto geográfica quanto criativa, facilitou a trajetória do quarteto até o primeiro álbum.

 “A gente deu sorte de ter quatro compositores na banda e, além disso, das composições fluírem muito facilmente“, conta Igor. “Mesmo cada um tendo uma rotina diferente, responsabilidades diferentes, a gente acaba se entendendo muito bem quando vai para a música, vai muito naturalmente“.

“Musicalmente, pensamos muito parecido. Apesar de não termos vivido no mesmo momento de vida, eu acho que a gente fala a mesma língua nesse sentido”, complementa Gabriel sobre a sinergia do grupo e a diferença de idade de dez anos entre alguns integrantes.

O match entre os membros foi feito por Pepe, membro da banda Meu Funeral e atual booker do quarteto. O projeto começou com Igor e Caio, que planejavam fazer covers de bandas de pop punk, e se expandiu com Bill, recrutado por conta de seus vídeos tocando músicas de blink-182 na bateria.

    O quarteto ficou completo em 2023, com a chegada de Gabriel, apelidado de Gabinete, no baixo. “A gente já não queria mais fazer cover porque queríamos dar um passo a mais. Pensamos, cara, tem que ser autoral, a gente tem que cantar em português e a gente tem que fazer pop punk. E aí o Gabinete entrou justamente com essa paixão dele pelo riocore“, conta Igor; Gabriel revela ser a primeira vez ouvindo a história completa.

    Diferente da grande maioria das bandas de rock atuais, sejam elas nacionais ou internacionais, o brilho da Melton Sello está na leveza com a qual eles enxergam a banda. Sem roupas pretas performáticas, sem pose de rockstar e sem aquela busca por aceitação que leva tantas bandas a fazerem, literalmente, mais do mesmo.

    “É um dos projetos mais irados que eu já fiz na vida. É o que eu queria ouvir, mas a expectativa é que tenha uma galera que curta mesmo assim”, conta Gabriel. “Eu particularmente estou muito satisfeito. A gente botou muito carinho, espero que dê para sentir a energia da nossa amizade, a leveza que a gente leva na banda“.

    “A gente compõe da forma mais orgânica possível, a gente ensaia, tem várias ideias novas, conversa sobre várias coisas… É meio clichê falar assim, mas somos quatro amigos que se juntaram fazendo músicas que são legais pra gente, porque achamos que seria maneiro, e não pensando no que seria legal para uma gravadora nos contratar, por exemplo. Não tem mega empresas por trás mandando a gente fazer tal coisa, fazemos o que a gente gosta e porque a gente gosta”, complementa Igor.

    “OPA!”, primeiro álbum da Melton Sello, já está disponível em todas as plataformas de streaming e foi lançado junto com um grande videoclipe com todas as faixas.

    Redação: Julia Santiago

    Total
    0
    Shares
    Related Posts