Na manhã desta segunda-feira (28), a internet teve seus olhos voltados para um dos primeiros anúncios do The Town 2027: o polêmico Marilyn Manson. O festival, que acontece nos dias 04, 05, 06, 11 e 12 de setembro de 2027 no Autódromo de Interlagos, está sendo alvo de muitas críticas por sua escolha de atração para o primeiro dia (04) de evento. Marilyn Manson, nome artístico de Brian Hugh Warner, vem ao The Town ao lado de Slipknot e tem sua carreira inteira envolvida em crimes de agressão sexual, física e psicológica, e até mesmo simpatia com o movimento nazista, para além do que se especula ser apenas o uso das imagens como crítica ao partido.
Em entrevista para O Globo, ao ser questionado sobre a escolha do “artista”, Zé Ricardo, vice-presidente artístico da Rock World, reconheceu a controvérsia em torno do cantor, mas defendeu a contratação: “É um artista controverso, mas muito talentoso e pesa muito isso sobre o fato de ele não ter sido condenado”. Roberto Medina, presidente da empresa, também comentou a escalação em comunicado enviado à imprensa: “Marilyn Manson traz ainda mais potência de rock e metal, em um dia que reúne artistas internacionais gigantes, cada um com uma identidade muito própria e uma história enorme dentro de suas vertentes”.
Entretanto, essa justificativa não é válida para encerrar a discussão. A escolha de trazer Manson para o festival se dá em um timing em que o nome do cantor ainda circula na justiça com as acusações de sua ex-assistente, Ashley Walters, que afirma ter sido violentada sexualmente pelo músico em meados de 2010. A Rolling Stone Brasil afirma que o caso havia sido aberto em 2021, mas foi rapidamente arquivado, o que aconteceu duas vezes até 2026, quando o juiz Steve Corchan observou que o caso “havia percorrido um caminho sinuoso” e que estaria disposto a conceder uma data acelerada para novo julgamento, caso Walters desejasse.
A abertura do caso de Ashley Walters, assim como o de inúmeras vítimas que alegam ter sido violentadas por Manson, tem uma grande influência do relato compartilhado pela atriz e ativista Evan Rachel Wood. Logo no início de sua vida adulta, Wood teve um relacionamento extremamente conturbado com Marilyn Manson, que só descobriríamos por detalhes no ano de 2021.
Em 2016, em entrevista para a Rolling Stone EUA, Evan falou sobre ter passado por abusos físicos, psicológicos e sexuais nas mãos de um ex-parceiro, mas Wood não havia citado nomes até então. Já em 2018, a atriz testemunhou, perante o Subcomitê de Crime, Terrorismo, Segurança Interna e Investigações, em apoio à Declaração de Direitos dos Sobreviventes de Violência Sexual, e no ano seguinte, testemunhou a favor da Lei de Phoenix, a qual prorroga o prazo prescricional para crimes de violência doméstica, em audiência com legisladores da Califórnia, sendo aprovada no mesmo ano e assim, prorrogando de 3 anos para 5 anos.
Evan Rachel Wood revelou então, no ano de 2021, via postagem em seu Instagram que seu abusador era ninguém menos do que Brian Warner (Marilyn Manson), acusando-o de tê-la aliciado desde a adolescência e de tê-la abusado “terrivelmente” por anos. Seguido do relato nas redes sociais, a HBO produziu e lançou o documentário “Phoenix Rising” em 2022, no qual vemos com detalhes o processo de criação da Lei de Phoenix, além de detalhes sobre como foi a relação do músico e da atriz, mostrando de forma tocante o quanto isso afetou Wood como mulher.
O músico processou Evan Rachel Wood e a artista Illma Gore pelo documentário, acusando-as de calúnia e difamação, negando as acusações e afirmando que todas as suas relações haviam sido consensuais.
Nos primeiros minutos do documentário, Evan ressalta que “não é sobre vingança ou sobre ‘ele é um monstro e precisa ser punido e destruído’. Ele já foi destruído. Aquele homem não é mais um homem; ele se foi”.
Com o anúncio do The Town, os comentários, em grande maioria de aprovação e até mesmo de comemoração pelo retorno do músico ao Brasil, nos mostram que, no mundo em que vivemos, acusações de abuso sexual vindas não só de uma, mas sim de várias vítimas a um homem infelizmente não são capazes de acabar com sua vida — e muito menos sua carreira.