Dando continuidade ao especial de Visibilidade Lésbica, o ROCKNBOLD bateu um papo com o duo VENVS, formado por Elektra e Evie Dee, que através da arte e da música, pretende defender o amor, a liberdade de expressão e acima de tudo valorizar o trabalho feito por mulheres lésbicas brasileiras. Disponibilizado em todas as plataformas digitais nesta sexta-feira (28), o disco Sinergia é o primeiro trabalho em estúdio do casal e duo. Conceitual desde as composições, melodias, arte e data de lançamento, que marca a véspera do Dia Nacional da Visibilidade Lésbica, além de celebrar mais um aniversário de namoro das duas cantoras.

Confira abaixo a entrevista na íntegra feita com Elektra e Evie Dee:

Para início de conversa, gostaríamos de saber como foi o processo de autoconhecimento de cada uma em relação à sexualidade e como foi lidar com essa questão ao longo da formação pessoal e artística?

Evie Dee: Em relação a minha vida pessoal e com a minha família, foi tudo muito tranquilo e muito leve. Qualquer stress que possa ter acontecido por conta disso foi algo muito rápido, não tenho nada pra reclamar, não me deixou nenhum trauma, o que não é muito comum para grande parte da comunidade. Então eu me sinto bem privilegiada nesse aspecto, artisticamente inclusive eu acho que me ajudou muito, porque eu saí do armário “muito novinha” então eu sempre pude me expressar de todas as maneiras. Eu não sabia quem eu era, tava aprendendo, mas já entendia o que eu gostava, aonde eu queria estar e eu já tentava apoiar a comunidade o máximo possível. Em relação aos meus pais, como eu disse, eu só não tenho o meu pai, não falo com o meu pai então a minha relação com a minha mãe sempre foi muito amigável.

Elektra: Minha mãe descobriu quando eu era muito nova, eu tinha uns 17 anos e foi um pouco difícil pra ela e pra nossa relação. Ela ficou acho que, sei lá, um mês sem falar comigo, mas logo depois ela começou a entender o que era. Pra ela também era um mundo novo sabe? Da mesma forma que era um mundo novo pra mim, então ela levou o tempo dela e hoje ela trata a Evie como uma filha, meu pai também. Meu pai descobriu um tempo depois, eu mesma falei pra ele, escrevi uma cartinha explicando tudo e tal e ele foi muito incrível. Ele falou “Lívia, eu te amo de todo o jeito e vou continuar te amando independente de quem você ame”. Pra mim foi muito bonito ver esse processo deles também de aceitação.

Evie Dee: E artisticamente?

Elektra: Artisticamente eu demorei bastante tempo para poder sair do armário. Eu fui mostrar pro mundo quem eu era quando eu conheci a Evie. Ela participou de um clipe meu em que ela fazia a minha namorada, a gente se conheceu lá. Eu quis fazer isso porque eu senti que estava pronta naquele momento para falar da minha sexualidade e eu escolhi a forma da música, do clipe, de poder falar isso para as pessoas que me acompanham. Eu não queria chegar e falar “olha, eu sou isso, isso e isso”. Então eu preferi soltar um clipe falando sobre isso na história do vídeo e foi a maneira que eu achei mais fácil, foi super bem aceito e bem querido pelas pessoas.

Como foi ter a música e arte como aliada e forma de expressão neste processo de autoconhecimento e descobertas sobre si? Durante a adolescência e início da vida adulta, existia artistas lésbicas pelas quais vocês se sentiam representadas e inspiradas artisticamente?

Evie Dee: No meu caso, eu até muito pouco tempo atrás me via como bissexual. Na verdade, eu tinha uma coisa de não querer me rotular, de não querer dizer e ter nome nenhum e assumir sigla nenhuma. Eu tava dentro da comunidade, mas não queria ter que me limitar a uma, eu passei muito tempo da minha vida assim, porque eu me descobri muito cedo e foi pouco tempo atrás que eu comecei a me entender um pouco mais e dizer e me posicionar como mulher lésbica. Então, quando eu cresci assim, meu processo de crescimento ele não teve muito em questão de inspiração nada muito assim de mulheres lésbicas. Eu cresci ouvindo, por parte da minha família, muito rock então tipo era uma coisa que não tinha nada a ver, pelo contrário é um mundo bem machista. Então eu escuto muito rock desses bem clássicos mesmo, sempre internacionais. Quando eu comecei a gostar das coisas por mim mesma, também foi mais por esse caminho do rock. Eu gostava de… Minha banda favorita de pequena assim foi The Pretty Reckless que é da Taylor Momsen né , é uma banda de rock. E logo depois já veio Twenty One Pilots, The Neighbourhood que são bandas…A maior parte das bandas que eu gostei pela minha vida inteira assim eram homens vocalista, até a gente sempre conversa sobre isso e tipo como é engraçado e sempre foi. Então, eu não tive muito claro assim nas minhas inspirações. E também acho assim, óbvio que no meu crescimento já tinha muito mais cantoras lésbicas do que na época da Lívia, mas ainda assim, também não se era tão abertamente quanto hoje. Eu acho que cada dia mais as pessoas estão deixando claro a orientação sexual delas e acho que na época só não se falava muito talvez, eu acho que era mais bissexualidade assim. 

Elektra: No meu caso, eu falei sobre isso no twitter esses dias. Eu comecei na música 15 anos atrás então era um mundo muito diferente do que é hoje. Eu não tive essas referências do que a gente tem hoje… Hoje praticamente a música pop e etc é dominada por artistas LGBT. Então, eu não tive isso na minha época, eu tinha muito medo de me assumir e do que as pessoas iam pensar. Infelizmente, eu não pude, não tive força suficiente pra ser essa referência pra essas pessoas naquela época, mas eu também não tinha muitos artistas que tinham se assumido, principalmente mulheres, eram bem poucas e as que eram não eram referências musicais pra mim. A banda que eu mais amo na vida é o Paramore, mas também não tem nada a ver com LGBT e etc, mas eu fui tendo minhas referências de pessoas próximas que estavam lutando com isso, lutando pra se libertar e resolvi me libertar também de certa forma, mas musicalmente eu não tive essas referências naquela época. 

Em sua opinião, como é um duo de artistas lésbicas, além de claro, um casal, no cenário da música brasileira atual? E numa ótica externa, como vocês enxergam este cenário? Vocês acreditam que a comunidade lésbica é bem representada na música?

Evie Dee: Não (risos). Eu acho que, como a gente falou, muito mais do que já foi antes, eu acho que a gente sim encaminha para uma melhora, mesmo que com passos de neném recém-nascido, mas eu acho que ainda falta muita representatividade lésbica, a gente tem muita representatividade LGBT hoje em dia né. Falando ali na sigla completa, a gente já tem muitos gays, muitos bissexuais, eu acho que é o que mais tem hoje em dia em questão de artistas mesmo, mas temos muitos gays, drag… eu acho que as siglas mais invisibilizadas no mundo da música são lésbicas, transexuais ainda… agente ainda tá mais pra trás ainda. Como é ser um duo lésbico no cenário da música brasileira atual? Eu acho que já há uma abertura que não existiria 10 anos atrás, a gente sempre comenta sobre isso inclusive, do fato de que tipo a gente ter essa possibilidade, a gente poder existir, ser um duo que é um casal de mulheres. 

Elektra: O máximo que tinha na minha época era aquelas duas meninas do t.A.t.U, sabe?

Evie Dee: Que era mentira, era um marketing. 

Elektra: Então é muito louco pensar na evolução disso pra hoje. 

Evie Dee: Total sabe, graças à Deus. É isso o que eu falei, mesmo que seja lentamente, a gente tá melhorando muito. Mas acho que ainda falta muito, eu acho que ainda somos bem invisibilizadas ainda nesses aspectos. Talvez até enfim… É uma coisa que a gente até comentou muito sobre, até em outras entrevistas, falando justamente de que nós somos artistas lésbicas no mundo da música atual brasileira. Porém, nós não somos artistas com músicas com temáticas LGBT, nossas músicas não são provavelmente músicas que vão tocar numa Parada ou coisas do tipo. São músicas sobre a vida, sobre saúde mental, enfim, aborda outros assuntos. Então a gente ainda luta muito, acho que a comunidade inteira luta muito por ser reconhecido pelo seu estilo musical e não um duo LGBT sabe, simplesmente, um duo. 

Em algum momento de suas carreiras artísticas – tanto a Elektra como cantora ou a Evie ao longo também da carreira como modelo – vocês sofreram algum tipo de preconceito ou perderam oportunidades por conta da sexualidade?

Elektra: Não. Foi bem diferente na verdade, eu sentia que na época algumas pessoas que trabalhavam com a gente, gravadora, etc. Sabe quando a pessoa sabe, mas você nunca falou de nada e de certa forma a pessoa te repreende fazendo com que você tenha mais medo de falar? Eu nunca recebi diretamente esse preconceito, foi sempre assim, como se estivesse subentendido. Era um preconceito disfarçado, eu acho que eu lidei super bem com isso. Eu queria falar sobre isso quando eu estivesse pronta, quando eu já tivesse conversado com o meu pai, minha mãe, com a minha família. Eu acho que eu fiz tudo no momento certo, gostaria de ter feito antes, com certeza, levei muito tempo pra fazer isso. Eu só fui me assumir de verdade quando eu tinha 27. É uma vida inteira. Esse preconceito que eu sofri na época foi uma coisa por baixo dos panos.

Evie Dee: Pra mim também não. Eu acho que eu passei por uma coisa bem privilegiada mesmo, talvez por eu desde muito cedo ter me compreendido, eu tenha reprendido muita coisa antes de eu chegar a passar por alguma coisa do tipo. 

No ponto de vista de vocês, existe um movimento crescente de artistas que buscam dar visibilidade à arte lésbica e voz à esta comunidade, além do VENVS, afim também de quebrar a heteronormatividade na indústria musical? Para onde isto está caminhando?

Evie Dee: Sim, eu acho que tem muita gente mas eu acho que os artistas que estão lutando pela visibilidade lésbica são muito pequenos, são artistas principalmente independentes e que estão lá, lutando, mas é muito difícil. Hoje, que a gente conheça, são duas ou três artistas em todo o cenário musical brasileiro que a gente vê que agora, depois de muitos anos estão conseguindo aparecer nas mídias como realmente pessoas em ascensão. Está caminhando para um mundo mais colorido e mais tranquilo e mais igual, mas ainda estamos bem atrasados.

Também segundo o ponto de vista de vocês, o que falta no cenário artístico brasileiro para que mais artistas lésbicas conquistem espaço e visibilidade? E como pessoas engajadas na causa da comunidade LGBTQI+ podem ajudar e se posicionar a favor de artistas lésbicas?

Evie Dee: Falar é muito legal, a gente fala muito sobre isso. Tem muita gente aparecendo de todos os lugares nesse meio da visibilidade assim como tem gente aparecendo no meio do orgulho LGBT pra fazer isso, aquilo, aparecer… mas pagar ninguém quer. Mas consumir, contratar e efetivar uma mulher lésbica, ninguém quer. As pessoas só querem que a mulher fala, e a gente já fala o ano inteiro. Então falta isso, o consumo, o apoio, a divulgação. Seguir essas meninas, comentar nas coisas, compartilhar, apresentar para as pessoas. Coisa que a gente faz normalmente com artistas héteros, então eu acho que o falta no nosso meio, principalmente na própria comunidade é a gente consumir um ao outro.

Em suas opiniões e posicionamentos através da arte, como o VENVS busca servir de inspiração para uma nova geração de artistas lésbicas, além de representatividade para fãs que estão em processo de autoconhecimento e descoberta da própria sexualidade?

Evie Dee: Eu acho que em todos os momentos, é óbvio que a gente tá muito no começo de tudo, a gente tem oito meses de vida ainda. Mas desde sempre a gente quis deixar muito claro que somos um casal, justamente porque eu acho que uma coisa é você ser uma artista lésbica e comentar sobre isso só em agosto ou só quando alguém pergunta e outra coisa é ser uma artista lésbica em que demonstra a sua sexualidade o tempo inteiro. Então como um casal a gente tá sempre demonstrando a qualquer momento, seja sobre o que for a nossa música, a gente está mostrando que somos lésbicas.

Elektra: E um casal. 

Evie Dee: Exatamente, então eu acho que isso sempre foi parte da gente. Desde quando a gente decidiu o duo a gente quis deixar isso muito claro: nós não somos um duo de amigas, irmãs, familiares.. a gente não é um duo que deixa subentendido, a gente quer deixar muito claro que somos artistas lésbicas que cantamos o que quisermos cantar e que seja muito visível e muito comum, em algum momento. Então eu acho que é por aí, além de o que vocês falaram, das pessoas que escutam nossas músicas de estarem nesse movimento também. Acho que grande parte das nossas fãs são lésbicas.

Agora, sobre o VENVS, como sabemos, a Elektra está há mais tempo na carreira artística musical, desde o Fake Number, e a música é algo recente na carreira da Evie. Como surgiu essa vontade de criar um duo juntas, e relativamente bastante diferente do que era a proposta do Fake Number? E para Evie, como foi se envolver com a música pela primeira vez e se descobrir como cantora?

Evie Dee: Sempre foi meu sonho, sempre tive dentro de mim. O que foi desenhado pra mim, pra eu ser, para eu existir no mundo, minha missão. Eu passei por muitos problemas psicológicos durante minha pré-adolescência que me dificultou “sair do armário musical”, sabe? (risos) eu acho que eu me prendia muito, eu sempre fui muito insegura. Ainda lido com muitas inseguranças, mas foi necessário que a Elektra chegasse na minha vida e me mostrasse o que eu não conseguia ver, me ajudasse com tudo. A gente fala muito que apesar de qualquer coisa, apesar dela já estar na música há tantos anos, começar do zero. Rascunho mesmo, a gente tá começando do zero na nossa carreira musical, a gente forma algo que não é parecido com mais nada. Acredito eu.

Elektra: E quanto a mim, eu já vinha cantando muitos anos, eu comecei com a música com 10 anos, tive o Fake Number com 15 anos e praticamente a minha vida inteira foi de música, foi de show, etc. Logo que o Fake Number acabou eu lancei meu projeto solo e então eu já vinha mais ou menos caminhando para o estilo que a VENVS é hoje, e tudo com a Evie foi muito natural, ela já tinha esse sonho de cantar mas a gente nunca tinha parado pra falar “ah, vamos fazer algo juntas?”, foi muito natural. De repente, todo mundo começou a falar que a gente tinha que cantar juntas e aquilo ficou na nossa cabeça.

Evie Dee: Foi no embalo mesmo. As coisas aconteceram muito rápido e a gente viu acontecer na nossa frente. É muito clichê, mas foi destino mesmo. Sinais bizarros, até mesmo espirituais mostrando pra gente que era nosso caminho.

Como costumava ser o processo criativo de vocês e como ele mudou durante o período de isolamento social? E qual a primeira meta que vocês pretendem alcançar assim que esse período acabar e for seguro de novo se reunir com amigos e fãs?

Elektra: O isolamento social ajudou nossa criatividade e produção em 1000%.

Evie Dee: Não é nem questão de melhorar, é que quando a gente tem um bilhão de coisas pra fazer na nossa vida, a gente precisa resolver essas coisas. E quando a gente tá em isolamento social, mesmo que você se encha de compromissos, você está em casa. Tem uma hora que não tem mais o que fazer e você tem que lidar consigo mesmo. Então, queira ou não, seja positivo ou não, a gente teve que lidar com os nossos sentimentos e os nossos sentimentos sempre afloraram de forma criativa que se transformaram em composições, melodias, conceitos, fotos, videoclipes, então eu acho que o isolamento tirou essa força que existia dentro da gente. 

Elektra: A gente teve essa pausa pra colocar esses projetos no mundo, de alguma forma. Então é o que todo mundo fala, não estamos querendo romantizar uma pandemia, mas pra gente foi positivo na forma de criatividade.

Evie Dee: Nós soubemos usar esse momento difícil para fazer algo pra gente. E eu acho que nossa primeira meta quando a pandemia passar é fazer show.

Elektra: A gente tinha acabado de lançar um EP e pretendíamos fazer shows e de repente o mundo parou. Então o que a gente mais quer é conhecer os fãs, viajar, cantar, nos divertirmos, essa é a meta principal.

Até o momento vocês tem o EP autointitulado, VENVS, além de singles bastante elogiados por fãs como “Chega Perto Não”, “Contando os Dias” e “Proibido”. O que a gente pode esperar do VENVS daqui pra frente e seus planos para o futuro?

Evie Dee: Eu sou muito da parte dos conceitos (risos) foi uma ideia que ela surgiu antes de surgir, na verdade. A gente viu esse momento que a gente tava e até pela nossa saúde mental, a gente queria lançar algo e eu que sou um pouco imediatista comecei a pilhar pra fazermos um álbum. E a gente marcou a data de um álbum antes de ter um nome, antes de ter qualquer música, então marcamos a data 28 por dois motivos: por ser a véspera do Dia Nacional da Visibilidade Lésbica que pra gente é, basicamente o que a gente precisa, o que a gente quer é que com o nosso álbum a gente tenha visibilidade. Somos mulheres lésbicas então foi muito significativo. E além disso, é nosso aniversário de namoro. Então juntamos uma coisa a outra e começamos a produzir a partir do momento em que tínhamos uma data de lançamento e aconteceu de uma forma muito incrível. O conceito foi todo baseado numa evolução pessoal então tanto separadamente eu e ela quanto nós como casal passando por toda a fase de transtornos e problemas psicológicos até a fase de cura, empoderamento, felicidade, amor. Então a mensagem que a gente quis dar é essa, é possível sair de lá de baixo e viver a vida como ela é. Não é tão horrível quanto aquilo que a gente enxerga quando a gente tá muito mal.

A maior parte da letra foi feita por mim e a Elektra veio com a melodia. Tudo foi escrito pensando nesse processo de cura, então no começo eu pensei que tava fazendo para as pessoas escutarem e inspirar pessoas e nesse processo eu acabei entrando e me sentindo curada de alguma forma com esse lançamento então é super intenso e incrível pra gente e eu acho que vocês podem esperar bastante sentimento e entrega da gente. Foi algo que a gente se entregou 100% pra isso, em tudo, desde as músicas, até os clipes que foram roteirizados, filmados e editados por nós: Eu, Elektra e meu cunhado.. 

OUÇA “SINERGIA” NAS PLATAFORMAS DIGITAIS!

OUÇA NOSSA PLAYLIST ESPECIAL: