Por Eduardo Ohana, João “Janjo” Pierro e Matheus Izzo

O Hip Hop deu voz ao povo! Através da cultura de rua, da forma de se expressar artisticamente, da atitude e do estilo, o movimento conquistou o mundo e revolucionou a cultura pop. Para muitos, o hip hop é um lifestyle: afirmar-se como ser humano, marcar um território, valorizar a identidade e ocupar espaços. Nos livros, a história do Rap, gênero musical derivado dos quatro elementos da cultura Hip Hop (DJ, MC, Grafite e Breakdance), teve seu nascimento nos anos 70, no agitado bairro do Bronx, Nova York. Para outros, o estilo vinha criando vida desde os anos 60 tendo sua origem na Jamaica, principalmente pelo fato que foi impulsionado pelo surgimento dos equipamentos sonoros.

No início dos anos 80 o Hip Hop passou a ter protagonistas/grupos, assim como já foi mostrado na série The Get Down da Netflix. Alguns desses principais nomes são DJ Kool Herc, DJ Hollywood, Afrika Bambaataa e Grandmaster Flash. Este quarteto é até hoje apontado como o responsável pela origem, desenvolvimento e difusão da cultura. Através da organização Zulu Nation, fundada pelo Afrika Bambaataa, foi criado o conceito de “elementos do hip hop”, que tem como lema: paz, amor, união e diversão, tendo como objetivo dar voz, visibilidade e identidade aos jovens que praticam dança, pintura/arte, música e composições/poesia (outra dica para ficar por dentro de toda a cultura é assistir a série documental Hip-Hop Evolution, também disponível na Netflix).

De Tupac a Travis Scott, o gênero passou por muitas mudanças com o desenrolar dos anos e se popularizou de forma meteórica após a virada deste milênio. É claro, os percussores do estilo começaram o árduo trabalho de conquistarem espaço na indústria durante a segunda metade do século passado, mas foram nos anos 90 que o rap se tornou uma febre mundial. Substituindo o apreço popular pelo rock, os riffs de guitarra abriram espaço para canções mais groovadas e beats eletrônicos orgânicos, além de synths e efeitos que foram cruciais no molde das diversas gerações do hip hop na indústria.

Se no início o rap priorizava as rimas e o conteúdo poético através de discursos politizados e pela busca sobre igualdade social, hoje o estilo se solidificou como o tipo de música mais vendido no planeta também através de canções dançantes e palatáveis ao público mainstream, misturando influências das sonoridades originadas da cultura negra antes de 1960 como funk, blues, soul, jazz e R&B. Seja no boombap com seus beats kick/snare, no grime ou no trap, a cultura hip hop está presente diariamente na vida de todo ser humano, mesmo que indiretamente, e parece auxiliar através de sua moderna e atual abordagem o entendimento de outras perspectivas.

Para comemorar uma das maiores culturas de todos os tempos, o ROCKNBOLD preparou, após longas e estudadas conversas, uma lista sobre os 20 Melhores Álbuns de Rap Internacional. Além da opinião da nossa equipe, foram considerados também os marcos de cada trabalho em seus determinados contextos históricos.

Você confere as nossas minuciosas escolhas abaixo!

Eric B. & Rakim – Paid In Full (1987)
Arte de capa de Paid In Full
Arte de capa de Paid In Full

Em 1986, a poderosa voz do rapper Rakim e as habilidades do DJ Eric B. puderam, finalmente, ser contempladas pelo público, no single “Eric B. Is President”, que trazia ainda “My Melody” no lado B. Com o sucesso do lançamento, o duo foi rapidamente contratado pela Island Records. Nos primeiros meses de 1987, a dupla gravou, em Manhattan, mais oito faixas que, juntamente com as duas anteriormente lançadas, deram forma ao álbum Paid In Full, uma das obras mais importantes da história do hip hop. Produzido pelo próprio duo, o álbum trazia uma mistura avassaladora de rimas e batidas, que tomou forma a partir da química do flow relaxado de Rakim e dos scratches e samples de Eric B. O álbum trazia grandes clássicos como “I Know You Got Soul”, “Move The Crowd” e o hit-single “Paid In Full” que, embalado pelo remix “Seven Minutes of Madness” (feito pela dupla Coldcut), chegou às paradas de sucesso do mundo todo e se mantém como uma das faixas mais conhecidas do duo. Paid In Full é reconhecido também por ter ajudado a popularizar a cultura do sampling, que seria difundido ainda mais nos anos subsequentes, inclusive nos lançamentos posteriores da dupla.

Highlights: “Paid In Full”, “My Melody”, “I Know You Got Soul”, “Move The Crowd”

Public Enemy – It Takes A Nation Of Millions To Hold Us Back (1988)
Arte de capa de It Takes A Nation Of Millions To Hold Us Back
Arte de capa de It Takes A Nation Of Millions To Hold Us Back

Com o lançamento do parcialmente ignorado Yo! Bum Rush The Show em 1987, o Public Enemy, formado por Chuck D, Flavor Flav, Professor Griff e Terminator X, aperfeiçoou suas técnicas, acelerou suas composições e, ainda no mesmo ano, entrou em estúdio para gravar o grandioso It Takes A Nation Of Millions To Hold Us Back, lançado em 1988. O álbum apresentava um enorme avanço, não só em relação a seu antecessor, mas ao hip hop de modo geral, que àquela altura ainda não tinha tomado a forma como o conhecemos hoje. Com letras fortes, extremamente diretas e politizadas, bases pesadas e carregadas de sampling e scratches, Nation Of Millions tinha uma proposta muito mais séria que os álbuns de hip hop existentes naquele momento, como Paid In Full, Raising Hell (RUN-DMC) e Licensed To Ill (Beastie Boys), e revolucionou completamente a sonoridade do gênero, influenciando toda a cena da época e pavimentando o caminho para os lançamentos subsequentes. Em um ano, mesmo sem a ajuda da gravadora – que não fez o menor esforço para promovê-lo – o álbum já era disco de platina nos EUA com um milhão de cópias vendidas. As faixas “Bring The Noise”, “Black Steel In The Hour Of Chaos”, “Don’t Believe The Hype” e “Rebel Without A Pause” foram singles de enorme influência no rap mundial, sendo esta última uma das composições mais conhecidas do grupo. Nos dias de hoje, Nation Of Millions ainda é citado entre os melhores álbuns da história, não só dentro do hip hop, mas da música em geral.

Highlights: “Rebel Without A Pause”, “She Watch Channel Zero?!”, “Black Steel In The Hour Of Chaos”, “Bring The Noise”

N.W.A. – Straight Outta Compton / Efil4zaggin (1988 / 1991)

Em 1987, um grupo composto por Ice Cube, Dr. Dre, Arabian Prince, Eazy-E, MC Ren e DJ Yella, o N.W.A, que havia sido formado nesse mesmo ano, ainda caminhava a passos de formiga e tinha em seu currículo apenas alguns singles lançados e uma compilação não autorizada (N.W.A. And The Posse), que fizeram pouco barulho na cena. Ninguém imaginaria que, na segunda metade do ano seguinte, o grupo lançaria um dos discos mais influentes da história do hip hop: Straight Outta Compton. Um álbum que começa com a frase “You are now about to witness the strength of street knowledge” já diz muito sobre a obra completa de um dos maiores grupos da cultura hip hop, com faixas absolutamente brutais, como o lead single “Straight Outta Compton” que abre o disco e é seguida pela infame “Fuck Tha Police”, um verdadeiro bombardeio lírico que chamou até mesmo a atenção do FBI, que enviou uma carta ao grupo, detalhando aspectos negativos e os acusando de incitação à violência. A carta acabou por ter um efeito contrário à vontade do FBI e só tornou o álbum e o grupo ainda mais conhecidos.

O “Gangsta Rap” (denominado assim pela imprensa) já era um estilo com certa notoriedade no underground do hip hop, carregado principalmente por Public Enemy e Ice-T, mas foi com o N.W.A. e seu arrasador debut que o subgênero chegou ao mainstream mesmo sem muito apoio por parte da mídia. O disco ainda trazia os singles “Gangsta Gangsta” e “Express Yourself”, que impulsionaram as vendas do álbum à marca de um milhão de cópias, ganhando assim, em 1989 o certificado de platina. A controvérsia gerada por “Fuck Tha Police”, acabou por chamar muita atenção para o grupo, que incitou discussões sobre censura e, de certo modo, criou a tática usada por diversos rappers até hoje, de estrategicamente virar as polêmicas a seu favor e se beneficiar delas. Atualmente a famosa carta do FBI ao N.W.A. está em exibição no Rock And Roll Hall Of Fame.

Todas as faixas de Straight Outta Compton possuem letras explícitas e que tratam da realidade dura dos guetos, versando sobre o uso de drogas, a prostituição e a violência, principalmente em Compton, onde os integrantes residiam. Por tais letras, no ano de 2016 o disco foi incluído no National Recording Registry, uma biblioteca do congresso americano, de álbuns que são considerados culturalmente e historicamente importantes, e que refletem ou informam sobre a vida nos Estados Unidos. Apesar do enorme sucesso, Straight Outta Compton teve uma produção minimalista e em certos pontos até simples em excesso. Em contraste a isso, em 1990 o N.W.A. já dava indícios de sua evolução lírica e sonora no EP 100 Miles And Running, que foi sucedido em 1991 pelo segundo e último álbum de estúdio do grupo, o explosivo Efil4zaggin (Niggaz4Life). Agora sem Arabian Prince e, principalmente, sem Ice Cube, que compôs a maior parte do primeiro disco, a tarefa de escrever as letras acabou ficando com um amigo de longa data do grupo, o rapper The D.O.C., que juntamente com MC Ren acabou por compor 90% do álbum. O trabalho ficou marcado por seu conteúdo explicitamente sexual e violento, especialmente na segunda metade do tracklist, e também por ter apresentado um enorme salto no nível da produção em relação a seu antecessor, contando com bases muito mais melódicas e bem construídas, que já davam uma pista da sonoridade que seria criada por Dre nos anos seguintes. E falando em Dre, um dos fatores predominantes para o sucesso do álbum foi o fato de que o rapper tomou conta dos microfones em dez das dezoito faixas e seus vocais foram muito apreciados pelo público e também pela crítica. Além das faixas absolutamente geniais “Real Niggaz Don’t Die” e “Real Niggaz”, os singles “Appetite For Destruction” e “Alwayz Into Somethin’” encerraram com chave de ouro a carreira do grupo mais perigoso do mundo.

Highlights: “Straight Outta Compton”, “Fuck Tha Police”, “Gangsta Gangsta”, “Express Yourself”, “If Ain’t Tha 1” / “Alwayz Into Somethin'”, “Appetite For Destruction”, “Real Niggaz Don’t Die”

Dr. Dre – The Chronic (1992)
Arte de capa de The Chronic
Arte de capa de The Chronic

Recém saído do N.W.A. e da gravadora Ruthless, Dr. Dre tinha a difícil missão de se provar numa carreira solo. Depois de ficar meses fora da mídia, o rapper e produtor ressurgiu no fim de 1992 com The Chronic, o primeiro lançamento de sua nova gravadora, a infame Death Row Records. A sonoridade do álbum, que era claramente influenciada pelos grupos de funk de George Clinton, Funkadelic e Parliament, foi um divisor de águas para o hip hop e o reinventou com uma roupagem que deu origem ao G-Funk, estilo que viria a ser imitado nos anos subsequentes por muitos, incluindo rivais de Dre, como Eazy-E e Ice Cube. The Chronic foi responsável também por lançar a carreira do rapper, hoje consagrado, Snoop Dogg, que participa de dez das dezesseis faixas do álbum, o que inevitavelmente lhe levaria ao status de maior revelação daquele momento e alavancaria ainda mais as vendas de seu álbum de estreia Doggystyle, lançado no ano seguinte.

Highlights: “Nuthin’ But A “G” Thang”, “Deeez Nuts”, “Let Me Ride”, “Lil’ Ghetto Boy”

Ice Cube – Death Certificate (1991) / Lethal Injection (1993)

Após sair do N.W.A. em 1989, Ice Cube lançou dois discos surpreendentes no ano seguinte, o álbum AmeriKKKa’s Most Wanted e o EP Kill At Will, sendo que este último se encerrava com uma provocação a seu antigo grupo, uma resposta aos insultos feitos por eles no EP 100 Miles And Running. Em 1991, a rixa continuou e o grupo fez ainda mais insultos a Ice Cube no álbum Efil4Zaggin, lançado em maio. Sem perder tempo, em outubro do mesmo ano, o rapper lançou Death Certificate, que já é marcante desde o título. O disco apresentava uma sonoridade impecável, muito mais polida que a de seus antecessores, distanciando-se dos beats pesados da Bomb Squad em AmeriKKKa’s Most Wanted, que deram lugar a bases recheadas de funk e soul setentistas. As composições, de uma vez por todas, colocaram Ice Cube no topo do jogo, com “The Wrong Nigga To Fuck Wit”, “Look Who’s Burnin’”, “A Bird In The Hand”, o single “True To The Game” e, por fim, “No Vaseline”, que encerra o disco com um verdadeiro ataque lírico de cinco minutos, dando assim a resposta definitiva aos ataques do N.W.A. A faixa foi tão poderosa a ponto de virtualmente dar fim ao grupo, que jamais respondeu e se desfez naquele mesmo ano.

Após o enorme sucesso do álbum The Predator de 1992, Cube mais uma vez renovou sua sonoridade, dessa vez indo em direção ao G-Funk da costa oeste, que naquele momento dominava o hip hop. No fim de 1993, chegava às lojas Lethal Injection, um álbum completamente diferente de tudo que Cube havia feito até então, com letras menos agressivas, bases mais lentas, com maior ênfase no groove ao invés do peso, e uma produção melhor do que nunca. Apesar da crítica ter reagido de forma bem mista ao álbum, os singles “Really Doe” e “You Know How We Do It” foram de enorme sucesso nas rádios e também na televisão, com seus ótimos videoclipes. Além das faixas de trabalho, o disco ainda trazia verdadeiras obras de arte do G-Funk, como “Ghetto Bird”, “What Can I Do?” e “Make It Ruff, Make It Smooth”. Assim como os trabalhos anteriores do rapper, Lethal Injection foi muito bem comercialmente, chegou ao topo da Billboard em 1993, vendeu mais de duzentas mil cópias na primeira semana e posteriormente ganhou certificado de platina por ultrapassar a marca de um milhão de cópias vendidas.

Highlights: “A Bird In The Hand”, “No Vaseline”, “The Wrong Nigga To Fuck With” / “Really Doe”, “Ghetto Bird”, “You Know How We Do It”

Wu-Tang Clan – Enter the Wu-Tang (36 Chambers) (1993)
Enter the Wu-Tang Clan (36 Chambers) [Disco de Vinil]: Amazon.com ...
Arte de capa de Enter the Wu-Tang (36 Chambers)

Um grupo cheio de reverências que acabou virando referência após seu disco de estreia: Wu-Tang Clan e o impecável Enter the Wu-Tang (36 Chambers)! A maioria dos membros do Wu-Tang tiveram como inspiração os filmes de Kung Fu para criarem seus nomes artísticos, incluindo o próprio nome do grupo, referindo-se ao filme “Shaolin and Wu-Tang” e até “The 36th Chamber of Shaolin”, que dá nome a este primeiro álbum. Foram esses mesmos filmes que os membros do grupo se reuniam para assistir quando mais novos e que acabaram se tornaram parte fundamental da inspiração por trás da ideologia dos rappers, misturando cultura asiática e artes marciais, com o fascínio pelo xadrez e pelo estilo de vida que os membros compartilhavam nas ruas de Nova York no início dos anos 90.

Em Enter the Wu-Tang (36 Chambers) os nove integrantes do grupo conseguem trazer todas as emoções que estes mesmos filmes e culturas passam. A primeira coisa que pode se ouvir ao dar play é o diálogo de “Shaolin & Wu-Tang” (1983), filme de Gordon Liu e que retrata conflitos de diferentes escolas de artes marciais, e logo em seguida, os beats, scratches e letras afiadas, mas que as vezes vinham com certa leveza e humor na voz de Ol’ Dirty Bastard, que faleceu em 2004. “C.R.E.A.M.“, oitava faixa do álbum, traz um dos beats mais conhecidos da história do hip hop, uma letra provocativa e uma mensagem em seu nome: “Cash Rules Everything Around Me“. RZA, Ol’ Dirty Bastard, Method Man assinam a produção do disco, que foi lançado pela RCA, se tornando um dos pilares do rap nos anos 90 ao apresentar novas influências.

Highlights: “Bring da Ruckus”, “Shame On A Nigga”, “C.R.E.A.M.”, “Method Man”, “Protect Ya Neck”.

Snoop Doggy Dogg – Doggystyle (1993)
Arte de capa de Doggystyle
Arte de capa de Doggystyle

Com o enorme sucesso do já citado The Chronic, Snoop estava com a corda toda para engatar em um debut poderoso na Death Row, e foi o que ele fez em Doggystyle de 1993. O álbum logo se mostrou uma obra de arte à frente de seu tempo, combinando a sonoridade funkeada de Dr. Dre com as letras explícitas de Snoop, que explorava temas sexuais a torto e direito, assim como drogas e violência, sempre abusando de seu característico flow carregado de muita ironia e deboche. Doggystyle ficou marcado como um dos melhores lançamentos do hip hop na década de noventa, não só por ter sido o álbum de hip hop vendido mais rapidamente na história até então, mas também por seu conteúdo lírico que tangencia o ridículo ao mesmo tempo em que beira a genialidade. Além dos singles “Gin And Juice” e “Who Am I? (What’s My Name?)” que se tornaram hits nas rádios e nos clubes, as faixas “Ain’t No Fun (If The Homies Can’t Have None)” e “Murder Was The Case” também foram de grande sucesso, sendo esta última uma das mais pesadas do álbum. Assim como The Chronic, Doggystyle também foi crucial na popularização do G-Funk e até hoje é citado como um dos lançamentos essenciais do estilo.

Highlights: “Gin And Juice”, “Lodi Dodi”, “Who Am I? (What’s My Name?)”, “Murder Was The Case”.

Nas – Illmatic / It Was Written (1994 / 1996)

Nas apareceu no cenário underground com o antológico Illmatic, de 1994, lançado pela Columbia Records. O álbum, que foi gravado nos dois anos anteriores, se tornou um clássico em pouco tempo de existência. Através de composições substanciais e narrativas acerca da juventude do rapper em Nova Iorque, sua cidade natal e berço do hip hop, o trabalho fugiu da mesmice da Costa Oeste guiada pelos grandes medalhões da Death Row como Dr. Dre e Tupac – que, inclusive, chegou a dedicar alguns versos diss a Nas na última faixa do póstumo The Don Killuminati: The 7 Day Theory – e reacendeu a chama dos rappers novaiorquinos, chamando novamente atenção do público mainstream da cultura para o cenário do outro lado do país. Nas também era próximo de artistas da Bad Boy Records, gravadora de Sean Combs (Puff Daddy), que permaneciam em conflito com Suge Knight e os integrantes da Death Row, aumentando a rivalidade entre os dois grupos. Illmatic é um dos melhores e maiores álbuns da história do hip hop por ser uma das primeiras referências em técnica e produção. Ao lado de DJ Premier e Large Professor, Nas entonou rimas multissilábicas e flows originais enquanto usava de sua característica lírica para descrever a realidade da narrativa que havia criado, além de tornar fácil ao ouvinte construir identificação com seus versos. Um dos maiores responsáveis pela abertura de portas a diversos outros rappers vindo da Costa Leste, o disco de estreia de Nas é considerado por muitos o maior da história da cultura também por sua energia e força ao entregar o discurso esperançoso de justiça social, falando abertamente sobre a possibilidade de jovens negros e de origens mais humildes poderem chegar ao topo em uma sociedade indiscutivelmente racista. Illmatic já conquistou dezenas de prêmios e possui certificado de platina com mais de 1,3 milhões de cópias vendidas.

Após ter conquistado indiscutivelmente seu espaço na indústria, Nas precisava se superar. Após um início de carreira extraordinário com seu antológico disco de estreia, o rapper se tornou um dos maiores nomes do mainstream com It Was Written, de 1996. Também lançado pela Columbia Records, o trabalho de 14 faixas conta com participações especiais de Dr. Dre (ex N.W.A. que surpreendeu ao romper seus laços com a Death Row e se afastar de alguns nomes da Costa Oeste tendo participação direta em um trabalho de Nas), Lauryn Hill, Mobb Deep e mais, contando novamente com a produção de DJ Premier com os toques de Dre. Não tão underground, cru e direto quanto Illmatic, o segundo álbum de estúdio do rapper mostrou com qualidade como tornar um trabalho polido e robusto em termos de produção em um produto totalmente comercial, colocando o hip hop em relevância mais uma vez. Na época, grande parte da sociedade ainda esbanjava preconceitos e racismo sobre o gênero e a cultura, e Nas foi um dos maiores responsáveis por ter mostrado perspectivas diferentes que puderam ser mais facilmente aceitas pelo pensamento conservadorista americano, levando o estilo a novos públicos, por mais que ainda falasse sobre a realidade das ruas e sobre a máfia das gangues. O disco vendeu mais de 2 milhões de cópias e alcançou a dupla platina anos após seu lançamento. “Street Dreams“, um dos singles do trabalho, contém referências ao hit do Eurythmics, “Sweet Dreams”, e utiliza o mesmo sample de “All Eyez On Me”, uma das maiores e melhores tracks de Tupac Shakur, com quem o rapper já havia tido alguns conflitos.

Highlights: “N.Y. State Of Mind”, “The World Is Yours”, “Halftime”, “It Ain’t Hard to Tell” / “The Message”, “Street Dreams”, “If I Ruled The World (Imagine That)”

2Pac – Me Against The World / All Eyez On Me (1995 / 1996)

Distanciando-se do estilo urbanizado de seu debut e da ostentação presente em seu segundo álbum, 2Pac colocou seu coração em Me Against The World, um álbum sincero, emocionalmente carregado e repleto de raiva, dor e tristeza, combinando canções agressivas como “Fuck The World” e “Death Around The Corner” com clássicos introspectivos como “So Many Tears”, “Lord Knows” e “Dear Mama”. Lançado em 1995, o álbum trouxe aos ouvintes um lado muito mais honesto e humano de Pac, que ali expunha seu lado mais vulnerável, com composições acessíveis, ainda que brutalmente realistas. Encarcerado na época do lançamento, o rapper pôde observar apenas de longe o enorme sucesso de suas composições. Já em 1996, longe das grades, em All Eyez On Me, Tupac fazia questão de mostrar que, após tantos acontecimentos ruins, era hora de celebrar como se fosse a última vez. O álbum, carregado de G-Funk, trazia entre suas 27 faixas, clássicos instantâneos do hip hop, como “Ambitionz Az A Ridah”, “California Love”, “2 Of Amerikaz Most Wanted” e “How Do U Want It”, além de faixas passivo-agressivas como “Picture Me Rollin’” e “Can’t C Me”. O álbum foi o primeiro lançamento duplo da história do hip hop e trazia um time impecável de colaboradores, contando com nomes de peso como Dr. Dre, Snoop Dogg, Nate Dogg e a dupla Redman & Method Man, entre outros.

Highlights: “Dear Mama”, “Lord Knows”, “So Many Tears” / “2 Of Amerikaz Most Wanted”, “California Love”, “Picture Me Rollin’”, “Holla At Me”

Fugees – The Score (1996)
Arte de capa de The Score
Arte de capa de The Score

Em 1994, o grupo, formado por Lauryn Hill, Wyclef Jean e Pras Michel, lançou seu debut Blunted On Reality que, por conta das composições mornas e da sonoridade atrasada, passou praticamente despercebido pelo público geral e teve uma vendagem pouco expressiva. Mesmo com o fracasso, a gravadora Ruffhouse acreditava no potencial dos novatos e decidiu dar uma segunda chance ao trio. Em 1995, já com o produtor Salaam Remi, o grupo criou a faixa “Fu-Gee-La”, que acabaria por ser o pontapé inicial do próximo álbum. Lançado em dezembro daquele ano, o lead single já era disco de ouro quando The Score saiu, em fevereiro de 1996. O álbum trazia hits clássicos como “Ready Or Not”, “No Woman, No Cry” e a poderosa “Killing Me Softly”. Em apenas um ano, The Score já havia vendido seis milhões de cópias apenas nos EUA, e um total de dezoito milhões mundialmente. No Grammy de 1997, o álbum ganhou o prêmio de Melhor Álbum de Rap e o single “Killing Me Softly” também foi premiado por Melhor Performance de R&B.

Highlights: “Fu-Gee-La”, “Ready Or Not”, “The Mask”, “Killing Me Softly”

JAY-Z – Reasonable Doubt (1996)
Arte de capa de Reasonable Doubt
Arte de capa de Reasonable Doubt

Visto por muitos como o sucessor de rappers como Biggie Smalls e Nas, JAY-Z estreou na indústria do hip hop com o grandioso Reasonable Doubt, lançado em junho de 1996. Narrando as experiências de um grande traficante aos 26 anos de idade, o álbum é repleto de faixas que viriam a se tornar clássicos, como “Ain’t No Nigga“, “Dead Presidents II“, “Can’t Knock The Hustle” e “Brooklyn Finest“, passeando por temas como política, desigual e questões raciais, além de também expressar posicionamentos sobre traições acerca da máfia e do código das ruas. Servindo como voz para muito jovens da época que ainda estavam entretidos entre o conflito das costas Leste e Oeste, Jay conseguiu contornar os caminhos que a indústria do rap aparentava seguir. O álbum teve na produção nomes como DJ Premier e Knobody e foi lançado no Estados Unidos pela até então gravadora underground Roc-A-Fella.

Reasonable Doubt recebeu certificado de platina por ter vendido mais de 1,5 milhão de cópias só em território norte-americano e contém participação de nomes como The Notorious B.I.G e Mary J. Blige. O disco é indiscutivelmente um dos melhores de todos os tempos de existência hip hop.

Highlights: “Ain’t No Nigga”, “Dead Presidents II”, “Can’t Knock The Hustle”, “Brooklyn Finest”,

The Notorious B.I.G. – Life After Death (1997)
Arte de capa de Life After Death
Arte de capa de Life After Death

Como uma bela resposta malcriada ao G-Funk dançante da costa oeste, Biggie, acompanhado pela produção impecável de Puffy e Stevie J., criou Life After Death (“Vida Após A Morte“, em português), que popularizou um estilo não tão explorado até então: o mafioso rap. O álbum duplo, lançado duas semanas após o assassinato de Biggie em março de 1997, trazia uma sequência ao aclamado Ready To Die e, assim como este último, também deixava sua marca na história do gênero, com os singles arrebatadores “Hypnotize” e “Sky’s The Limit”. O álbum duplo, em resposta ao grandioso All Eyez On Me de seu rival 2Pac, trouxe com seu lançamento momentos extremamente marcantes além dos singles citados acima, entre eles o hino do mafioso rap “Ten Crack Commandments”, a profunda e direta “Notorious Thugs”, a funkeada “Going Back To Cali” – feita em cima da clássica “More Bounce to the Ounce” do lendário grupo Zapp – e a faixa de encerramento “You’re Nobody (Til Somebody Kills You)”, que originalmente já era sombria e acabaria se tornando muito mais amarga e sombria devido ao contexto em que o álbum foi lançado.

Highlights: “You’re Nobody (Til Somebod Kills You)”, “Notorious Thugs”, “Sky’s The Limit”.

Eminem – The Eminem Show (2002)
Arte de capa de The Eminem Show
Arte de capa de The Eminem Show

Hoje um dos artistas mais bem-sucedidos da história, em 2000 Eminem já havia lançado os clássicos The Marshall Matters LP e The Slim Shady LP e não tinha nada mais a provar. Mesmo assim, o rapper logo entrou em estúdio novamente e, em maio de 2002, chegava às lojas The Eminem Show, um dos discos mais memoráveis do hip hop moderno e, sem sombra de dúvida, o lançamento mais importante da carreira de Marshall Matters. O álbum trazia um conteúdo distante do horrorcore contido em seus antecessores, explorando muito mais os temas políticos e as letras autobiográficas, tornando esta a obra mais pessoal e introspectiva de sua discografia até então, além de indicar certa maturidade por parte do rapper. A maior parte das faixas foi produzida pelo próprio Eminem, que teve uma abordagem muito mais experimental e polida, em relação aos trabalhos anteriores, indo de encontro ao rap rock e utilizando elementos mais orgânicos para dar contraste às batidas eletrônicas. Como mencionado anteriormente, as composições de The Eminem Show alternam entre as palhaçadas características do rapper, que não hesita em debochar de tudo e todos, e os temas sérios, que vão desde a situação política dos EUA naquele momento até sua infância, seu relacionamento conturbado com a mãe e o abandono por parte de seu pai, além de também citar sua ex esposa Kim e sua filha Hailie. Essa diversidade de temas, que não era algo presente em lançamentos anteriores do rapper, acabou por agradar muitos públicos e alavancou absurdamente as vendas do álbum. Hoje em dia, o trabalho soa quase como um greatest hits, com faixas que praticamente qualquer pessoa reconheceria logo de cara, como “Without Me”, “Cleanin’ Out My Closet” e “Sing For The Moment”, além das ótimas “Business”, “White America”, “Superman” e a absolutamente genial “Hailie’s Song”. Como já era de se esperar, o álbum foi apenas o disco mais vendido no mundo naquele ano e, no Grammy do ano seguinte, o rapper faturou os prêmios de Melhor Álbum de Rap (por The Eminem Show) e Melhor Videoclipe (por “Without Me”).

Highlights: “Without Me”, “Business”, “Cleanin’ Out My Closet”, “Hailie’s Song”, “Sing For The Moment”

50 Cent – Get Rich Or Die Tryin’ (2003)
Arte de capa de Get Rich Or Die Tryin'
Arte de capa de Get Rich Or Die Tryin’

A década de 2000 não começou bem para Curtis Jackson, hoje conhecido como 50 Cent. A pouco mais de um mês do lançamento de seu álbum Power Of The Dollar, o rapper foi atingido por nove tiros a queima-roupa em um tiroteio de circunstâncias até hoje não esclarecidas. No hospital, Jackson chegou a assinar um contrato com a Columbia, mas a gravadora o demitiu logo que soube do tiroteio. Completamente desacreditado na indústria, o rapper lutou por quase dois anos até 2002, quando foi descoberto por Eminem, que logo lhe contratou para sua gravadora, a Shady Records, pela qual o bombástico Get Rich Or Die Tryin’ foi lançado, em fevereiro do ano seguinte. Repleto de clássicos do rap contemporâneo, como “Many Men (Wish Death)”, “21 Questions”, “P.I.M.P.” e a incontestável “In Da Club”, com a produção impecável de Dr. Dre e Eminem, e o flow inigualável de 50 Cent, Get Rich Or Die Tryin’ foi o disco mais vendido de 2003 nos EUA e se tornou um dos álbuns mais aclamados da história do hip hop, sendo chamado de clássico desde o seu lançamento.

Highlights: “21 Questions”, “In Da Club”, “Many Men (Wish Death)”, “High All The Time”, “Gotta Make It To Heaven”

Kanye West – My Beautiful Dark Twisted Fantasy (2010)
Arte de capa de My Beautiful Dark Twisted Fantasy
Arte de capa de My Beautiful Dark Twisted Fantasy

Kanye West já havia se tornado um dos maiores nomes da história do hip hop – tanto como rapper quanto produtor – nos aclamados 808s & Heartbreak e Graduation, ambos lançados em 2007. Transformando as abordagens do rap com sonoridades mais comerciais e populares, Kanye tornou suas inseguranças e conflitos internos em trabalhos extraordinários que ajudaram a desconstruir o estereótipo gangsta dos rappers nos anos 2000, fazendo com que a sensibilidade de homem negro também fosse aceita na indústria. Através de synths memoráveis, autotune e outros efeitos na voz, Ye criou uma enorme expectativa para o trabalho sucessor de 808s e Graduation, por mais que de 2007 até 2010 ele tenha se envolvido em grandes problemas. Aqui não vamos discutir sobre as várias polêmicas que rondam a vida de Kanye, mas sim o que aconteceu depois da, provável, maior delas. Após o fatídico VMA de 2009, onde o mesmo subiu ao palco de forma desnecessária para dar de forma insensível mas assertiva a opinião sobre o videoclipe de Taylor Swift que havia ganhado de Beyoncé naquela noite, Kanye sumiu da mídia, se isolou no Havaí e montou um galático time com alguns dos maiores artistas de nossa geração: Jay Z, Kid Cudi, Rick Ross, John Legend, Rihanna, Bon Iver, Nicki Minaj e mais. Esta escalação de peso, um gênio do rap como mente compositora e muito tempo para trabalhar foram os três fatores responsáveis pelo nascimento de My Beautiful Dark Twisted Fantasy, o maior, mais aclamado e importante álbum de sua década, para muitos elevando o status de Kanye de “Gênio do Rap” para “Deus”, alimentando ainda mais seu ego – parte desse processo de alimentação diz respeito à busca pela fama no trabalho. Outro ponto explorado pela obra é o exacerbado culto a si mesmo. Para muitos, o disco é a criação do próprio universo paralelo de Kanye com suas próprias regras e dogmas acerca de um único rei: ele mesmo.

As principais publicações de música da época deram nota máxima ao álbum. Não há sequer um momento esquecível de My Beautiful Dark Twisted Fantasy: todas as canções são ótimas e mostram que Ye tem potencial para sustentar seu grande ego como um dos maiores artistas de todos os tempos. O álbum recebeu certificado de platina no mesmo ano de seu lançamento.

Highlights: o álbum inteiro.

Drake – Nothing Was The Same (2013)
Arte de capa de Nothing Was The Same
Arte de capa de Nothing Was The Same

Números obviamente não representam qualidade, mas não há como negar: Drake não se tornou o rapper mais popular do planeta apenas fazendo o óbvio, por mais que esta seja a impressão nos anos recentes. O canadense é conhecido por grande parte do público por seus hits populares e dançantes que falam sobre sentimentos com superficialidade, mas foi em 2013 que ele solidificou a própria carreira na indústria com Nothing Was The Same, seu trabalho mais poderoso e triunfante.

Dreezy mergulhou na própria profundidade e através de camadas de emoções dramatizantes – muito expressadas através de suas letras e da fluidez do flow do rapper em faixas graves que contam com a presença de sintetizadores orgânicos – tornou o terceiro álbum de estúdio da discografia em um dos carro-chefes da vertente melódica-melancólica do gênero, que posteriormente se tornaria uma espécie de padrão comercial de sucesso, utilizado também por nomes como Bruno Mars, Bryson Tiller e The Weeknd.

O terceiro álbum de Drake o transformou em um dos maiores fenômenos dos anos 2010, além de apresentar uma dualidade antes não vista no artista: o flerte de seu lado mais triste e obscuro com a narrativa hábil, psicótica e solitária das próprias experiências como ser humano. Álbum foi indicado em “Melhor Álbum de Rap” no Grammy de 2014 e alcançou o topo da Billboard em sua primeira semana com 658 mil cópias vendidas. O disco já vendeu mais de 1 milhão de cópias só nos Estados Unidos.

Highlights: “Furthest Thing”, “Started From The Bottom”, “Hold On, We’re Going Home”, “Pound Cake / Paris Morton Music 2”, “The Language”, “Too Much”

J. Cole – 2014 Forest Hills Drive (2014)
Arte de capa de 2014 Forest Hills Drive
Arte de capa de 2014 Forest Hills Drive

Até 2014, J. Cole era apenas um ponto que brilhava de forma pouco recorrente nos radares do mainstream do hip hop. Apadrinhado por Nas, Cole ganhou notoriedade nos EUA após o lançamento de Born Sinner, no ano anterior, mas foi em 2014 Forest Hills Drive que o rapper da Carolina do Norte escreveu um dos capítulos mais sentimentais da história do rap no século XXI. Sempre focado em contar as histórias de um homem negro comum no país, Cole tornou o terceiro álbum da carreira em um clássico que dá voz à alma da figura masculina do povo preto, por mais que o artista por vezes fale mais sobre si mesmo do que tente representar um estereótipo (ainda bem). Há controversas sobre Jermaine e suas abordagens, mas na opinião do ROCKNBOLD este trabalho foi um dos responsáveis por solidificar a liberdade do eu lírico no hip hop em poder soar sentimental e profundo o suficiente com sutileza na última década (ao contrário de Kanye, que nos anos 2000 o fez de forma mais enérgica e com menos fluidez). Obra de arte da carreira, trabalho mistura soul, jazz, R&B e a melodia característica no flow de um artista que sempre teve muito a dizer. J. Cole definitivamente já marcou seu nome na história do hip hop, mas aparenta cada vez mais se tornar em uma das maiores referências da cultura atual enquanto entrega pinceladas de alma e sentimentalismo em seus trabalhos.

2014 Forest Hills Drive alcançou o topo dos charts da Billboard ao vender mais de 350 mil cópias em seu lançamento e ganhou o prêmio de “Melhor Álbum de Rap” da revista em 2015. Álbum também concorreu ao Grammy de 2016 na mesma categoria. Até o atual momento, Cole obtém dois certificados de platina pelo disco, que não conta com participações especiais ou feats.

Highlights: “Intro”, “January 28th”, “Wet Dreamz”, “A Tale Of 2 Citiez”, “Fire Squad”, “No Role Modelz”, “Love Yourz”

Kendrick Lamar – To Pimp A Butterfly (2015)
Arte de capa de To Pimp A Butterfly
Arte de capa de To Pimp A Butterfly

Kendrick Lamar já era um dos maiores nomes da cena em 2015, três anos após o excelente good kid m.A.A.d city, mas foi na metade da década que o rapper de Compton lançou um dos maiores álbuns da história do rap ao tornar o melhor trabalho da carreira na voz ecoante dos negros em uma sociedade “moderna” indiscutivelmente racista.

O terceiro disco de estúdio de Kendrick (que originalmente era chamado de “Tu Pimp A Caterpillar”, abreviado TUPAC, por conta da admiração pelo ídolo), foi um verdadeiro marco na história da cultura. Trabalho traz uma mistura impecável e grandiosamente produzida de variações de estilos da cultura como jazz, soul e funk, além, claro, do rap característico do artista. Muito além da sonoridade, o disco é especial pela raiva, angústia, coragem e fúria de KDot ao escrever letras confrontando a elite branca. Seus comentários em cima da política discriminadora e injusta dos EUA com foco em temas como a brutalidade da polícia e das grandes corporações contra seu povo, além da honestidade ao abordar doenças como depressão e ansiedade, são pontos importantes e essenciais a serem tratados. To Pimp A Butterfly é preciso, essencial, robusto, corajoso e extraordinário.

Álbum é um dos mais bem avaliados da história das revistas Rolling Stone e Pitchfork, além de ser detentor do Grammy para “Melhor Álbum de Rap” de 2016. Trabalho também já vendeu mais de 2 milhões de cópias ao redor do planeta e chegou ao topo da Billboard com mais de 360 mil álbuns vendidos na primeira semana.

Highlights: “Wesley’s Theory”, “King Kunta”, “Institutionalized”, “These Walls”, “u”, “Alright”, “Hood Politics”, “How Much A Dollar Cost”, “The Blacker The Berry”, “i”

Kids See Ghosts – Kids See Ghosts (2018)
Arte de capa de Kids See Ghosts
Arte de capa de Kids See Ghosts

Kanye West e Kid Cudi são grandes artistas, amigos e colaboradores, acumulando diversas obras musicalmente impecáveis, mas foi na junção da dupla em Kids See Ghosts que eles mostraram o motivo de serem tão importantes para o RAP (e assim deram aulas). O grande projeto da dupla ainda conta com participações dos rappers Pusha T, TY Dolla $ign e samples do cantor americano Louis Prima e Yasiin Bey, mais conhecido pelo seu nome artístico “Mos Def“. A parte estética do álbum é do aclamado artista japonês Takashi Murakami, que já havia trabalhado com Kanye na capa do aclamado Graduation, de 2007. Murakami também é o diretor pela série animada de “Kids See Ghosts”, que foi anunciada em maio deste ano e será protagonizada por Kanye Bear (Kanye West) e Kid Fox (Kid Cudi).

Kids See Ghosts conta com apenas 24 minutos de duração ao longo de sete faixas e uma produção simplesmente impecável, onde os rappers conseguem misturar e utilizar de elementos do rock, hip-hop, soul e psicodelia, mostrando o motivo do álbum ser um dos tão aclamados da década.

Highlights: O álbum inteiro.

Travis Scott – ASTROWORLD (2018)
Arte de capa de ASTROWORLD
Arte de capa de ASTROWORLD

Em 2018 um rapper do Texas já havia conquistado notoriedade na indústria com os ótimos Rodeo (2015) e Birds In The Trap Sing McKnight (2016), primeiros dois álbuns de estúdio da carreira completamente imersos no maior subgênero do rap: o trap. Com beats e graves em tempos duplos e triplos marcados e guiados por efeitos orgânicos e sintetizadores, o estilo tomou conta dos Estados Unidos nos anos 2010 com uma onda enorme de rappers da velha e nova geração, mas o maior nome deste subgênero com certeza se transformou em um só: Travis Scott. O artista, que seguiu exemplo de Kanye e tornou-se também o curador e produtor de seus projetos, transformou ASTROWORLD em uma das obras mais grandiosas da cultura hip hop do século com escolhas minuciosas. As participações especiais do álbum, por exemplo, vão desde Frank Ocean, The Weeknd e Drake a John Mayer, Pharrell Williams e Tame Impala, além de contar com samples de Notorious B.I.G, Beastie Boys e mais. Dentro do seu próprio universo, Travis parece ter entendido que, além de ser o mestre de cerimônia do próprio espetáculo em seu parque de diversões, ele também funciona de forma exímia como a mente por trás da performance. E isso também se aplica às suas apresentações ao vivo e até em sua carreira como empresário e modelo: após o sucesso estratosférico de ASTROWORLD, Scott cresceu meteoricamente seus números através de parcerias exclusivas com marcas bilionárias como a Nike.

Ultrapassando os próprios limites, Travis explora e aposta em texturas brilhantes e neons que chamam a atenção do público espectador da obra, o emergindo dentro de um mundo repleto de cores em camadas eletrônicas moldadas através de sintetizadores e mixagens extraordinárias. O rapper parece construir sua carreira aperfeiçoando fórmulas, é verdade, mas foi com o terceiro álbum de estúdio da discografia que ele ajudou a consolidar o rap como o gênero mais ouvido do planeta na atualidade. Se as letras não são exemplos de perfeição, o artista se sobressai muito acima da média de todos os outros nomes do trap com sua voz modificada característica por autotune e melodyne, além das interjeições características que funcionam quase como onomatopéias de uma história em quadrinhos, misturando também suas influências R&B e indie nas tracks. Sendo a mente por trás da própria obra, ele parece entender seu lugar e construir a fórmula perfeita para lançar tendências.

Com produção deslumbrante, o terceiro álbum de estúdio de Travis Scott demonstra que o artista tem tudo para seguir os excelentes e grandes passos de Kanye West enquanto moderniza as abordagens do rap comercial atual. Entregando a fórmula perfeita do melhor e mais moderno produto da indústria, Scott se tornou de forma rápida e meteórica em um dos autores mais originais dos capítulos recentes da história da cultura hip hop.

Sucesso estratosférico mundial, o disco concorreu ao Grammy para “Melhor Álbum de Rap” em 2018 e já recebeu certificado de platina dentro e fora dos Estados Unidos, vendendo mais de um milhão de cópias.

Highlights: “STARGAZING”, “CAROUSEL”, “SICKO MODE”, “STOP TRYING TO BE GOD”, “YOSEMITE”, “CAN’T SAY”, “WHO? WHAT”, “BUTTERFLY EFFECT”, “HOUSTOUNFORNICATION”, “COFFEE BEAN”

Menções honrosas:

Run-DMC – Raising Hell (1986)

O mundo já havia sentido o gostinho do Rap Rock em 1985, com o lançamento de King Of Rock da dupla Run-DMC, mas foi só no ano seguinte, com o álbum Raising Hell, que o estilo realmente ganhou forma e tomou conta das rádios, embalado pelo enorme sucesso de “Walk This Way”, um cover do Aerosmith, que trazia as participações dos membros da própria banda, Joe Perry e Steven Tyler. O single, juntamente com “It’s Tricky” e “You Be Illin’”, ajudou a levar o hip hop ao mainstream e elevou Raising Hell ao status de um dos álbuns mais revolucionários do gênero.

⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀

Arte de capa de Licensed To Ill
Beastie Boys – Licensed To Ill (1986)

Lançado poucos meses após o anteriormente citado Raising Hell, Licensed To Ill acabaria por dar continuidade à revolução iniciada por este primeiro, levando o Rap Rock direto para as rádios e televisões do mundo todo, especialmente dos EUA, com os singles memoráveis “Fight For You Right”, “The New Style” e “No Sleep Till Brooklyn”, esta última ainda conta com a participação do guitarrista Kerry King, do Slayer. Com o humor escrachado de suas letras e sua fusão impecável de rap e rock, os Beastie Boys conquistaram o mundo já em seu debut e logo se tornaram uma das maiores referências do hip hop mundial.

⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀

OUÇA NOSSA PLAYLIST SOBRE OS MELHORES ÁLBUNS DA HISTÓRIA DO RAP CLICANDO AQUI!
LEIA MAIS: