Há exatos 25 anos, neste mesmo dia 12 de setembro, o Red Hot Chili Peppers, sob a produção do gênio Rick Rubin, lançava o maior divisor de águas da carreira: o One Hot Minute. Após o sucesso gigantesco de Blood Sugar Sex Magik (1991), que elevou a banda do patamar de queridinhos locais para o de astros do rock mundial, os californianos tiveram a grande responsabilidade de seguir uma fórmula que funcionava com perfeição. Mas todo esse processo, antes, durante e depois das gravações, não foi nada fácil, passando por momentos extremamente conturbados, e é a história por trás de tudo que envolve o sexto disco dos Peppers que será contada agora pelo ROCKNBOLD.

Texto por Eduardo Ohana e Gêra Lobo.

Os Antecedentes

Não há como falar de One Hot Minute sem antes mencionarmos um nome crucial nesta história: John Frusciante. Então com apenas 21 anos, o lendário guitarrista (que inclusive retornou recentemente ao grupo pela segunda vez) havia acabado de gravar Blood Sugar Sex Magik, talvez o magnum opus dos Chili Peppers até hoje, e o segundo trabalho de John como integrante. Porém, sem saber lidar com todo o sucesso repentino, Frusciante acabou por abandonar a banda de maneira conturbada, no meio da turnê de promoção do álbum, em 1992, deixando uma lacuna gigantesca em um grupo que não parava de crescer mundialmente. Diante disso, a banda necessitava achar alguém confiável e que tivesse algo compatível com a ideia. O primeiro da lista foi Dave Navarro, guitarrista do Jane’s Addiction, que, primeiramente, recusou o convite, pois estava ocupado com o Deconstruction, seu trabalho paralelo com Eric Avery, ex-colega de Dave no Jane’s. Durante esse tempo, o Red Hot Chili Peppers ficou com Arik Marshall para finalizar a turnê do Blood Sugar Sex Magik. Após a turnê, a falta de química de Arik com a banda, acabou fazendo com que ele logo fosse demitido, deixando novamente a dúvida de quem poderia assumir seu posto. Já em setembro de 1993, após meses de uma busca malsucedida, a banda acabou por convidar novamente Dave Navarro, que, depois realizar algumas jams com eles, acabou aceitando o convite. Com a entrada de Navarro, a banda já sabia que inevitavelmente sua sonoridade mudaria, e mudaria bastante.

O Processo Criativo

Em junho de 1994, os Chili Peppers entraram em estúdio no The Sound Factory, em Los Angeles, mas acabaram por completar apenas uma quantidade irrisória de material e foram forçados a diminuir o ritmo por conta das dificuldades de Kiedis. Após cinco anos de sobriedade, o vocalista sofreu uma recaída e retornou aos vícios em cocaína e heroína. Durante esse mesmo período, a banda pausou as gravações do álbum para participar do festival Woodstock ‘94, no qual ocorreu a primeira apresentação de Dave como guitarrista oficial dos Chili Peppers. Ao retornarem ao estúdio, Dave logo estranhou o método de composição da banda, questionando a enorme quantidade de jams envolvidas na produção do álbum, isso acabou por criar um certo atrito entre o guitarrista e os demais integrantes. Meses se passaram e muito pouco do álbum havia se concretizado.

Gravações de One Hot Minute, 1994.
Red Hot Chili Peppers durante as gravações de One Hot Minute, 1994

A divergência entre o estilo de Dave e o do restante da banda, obrigou Flea a se envolver mais a fundo nas composições do disco, e fato é que alguns dos melhores momentos de One Hot Minute são diretamente voltados às suas linhas de baixo. A grande questão é que One Hot Minute, por mais que ainda carregue a essência da banda, tem recursos claramente vindos de Dave, como riffs de heavy metal, músicas um pouco mais imprevisíveis e “bagunçadas” (no melhor sentido da palavra), com elementos mais diversificados, e um foco muito maior no rock psicodélico, que já aparecia em algumas faixas de álbuns anteriores, mas se tornou ainda mais palpável nesse trabalho. Diferente dos demais membros da banda, Dave não veio do funk, o guitarrista é fortemente influenciado pela sonoridade de Eric Clapton, Jimmy Page e Carlos Santana, além de se inspirar também em Robert Smith na parte mais obscura de suas composições. Tamanha diferença criativa, aliada aos conflitos individuais e coletivos, acabou fazendo com que o processo de gravação e composição de One Hot Minute se arrastasse por quase dois anos e fosse extremamente exaustivo para todos os envolvidos.

Em dezembro de 1994, Kiedis fez uma breve viagem para a casa de sua família em Michigan, e eles logo perceberam que, novamente, o vocalista estava tendo problemas com as drogas. Com a ajuda da família, Kiedis se recuperou e retornou ao estúdio em janeiro de 1995 e finalizou seus vocais, sendo o restante das gravações concluídas no mês seguinte.

O Contexto

One Hot Minute confronta e, ao mesmo tempo, se afunda na melancólica escuridão da luta de Anthony Kiedis com as drogas, muito pelo fato de que várias das letras foram escritas durante o período em que o vocalista ainda escondia de todos a sua condição. Em muitas canções ele destaca que pedia ajuda, mas praticamente ninguém enxergava que seus demônios haviam retornado para assombrá-lo. Flea, pela primeira vez na história da banda, contribuiu como letrista, em “Deep Kick”, “Transcending” e, claro, sua faixa solo “Pea”. É nítido que o álbum foi capaz de capturar com exatidão a atmosfera caótica que rodeava a banda naquele momento, não só pelos vícios e pelas relações conturbadas, mas pelas mortes ocorridas durante aquele período, como a de River Phoenix, que era amigo próximo de Flea, e também a de Kurt Cobain, por quem Anthony tinha profunda admiração.

A Obra

Já nos primeiros momentos, One Hot Minute nos é apresentado de forma obscura, com os segundos iniciais da estranhíssima “Warped“, que também havia sido escolhida como lead single do álbum. A faixa define bem a sonoridade geral do disco, com um instrumental pesado e psicodélico, vocais cheios de efeitos, letras levemente distópicas e seções praticamente desconexas do restante do conjunto, como nesse caso é a parte final da canção. Em contraste a todo esse caos, a faixa é seguida por “Aeroplane“, um funk-rock bem ao estilo característico Chili Pepper, uma das poucas desse estilo que a banda conseguiu compor com Navarro na guitarra. A letra rebate fortemente o otimismo do instrumental com várias referências ao uso de drogas de Kiedis, que em alguns versos soa quase como se gritasse por socorro.

A estranheza da introdução de “Deep Kick” é interrompida (quase aos dois minutos da faixa) por um dos momentos mais caóticos e, de certa forma, divertidos do disco, o instrumental agitado é acompanhado por inúmeras referências à juventude de Anthony e Flea, que coescreveu a canção e canta na parte final, uma seção lenta e ligeiramente monótona, que traz uma espécie de conclusão sobre tudo que viveram até ali.

Mergulhando fundo na melancolia, o segundo single “My Friends” dá lugar às tristezas de Anthony em relação à situação pela qual ele e seus amigos passavam naquele momento, com ele próprio novamente viciado, Flea passando por um divórcio doloroso e seu ex-companheiro de banda John Frusciante à beira da morte por conta do uso excessivo de drogas, algo que o vocalista já havia visto acontecer com o também colega de banda Hillel Slovak, morto por overdose em 1988.

Talvez a faixa mais “Jane’s” do disco, “Coffee Shop” tem um dos riffs de guitarra mais pesados da carreira da banda até os dias de hoje, deixando bem clara a influência de Navarro na composição. Apesar do peso da guitarra distorcida, a canção tem uma letra descontraída e um refrão referenciando Iggy Pop, com ótimos vocais de apoio de Flea. A faixa ainda conta com um belo solo de baixo, que acaba por ser um dos maiores destaques da mesma. Falando no baixista, Flea é protagonista do momento mais inortodoxo do álbum, “Pea” uma faixa de pouco menos de dois minutos, que contém apenas ele e seu baixolão, com versos sobre o bully sofrido por ele durante sua juventude, por conta de seu visual sempre diferente dos demais.

Um dos pontos mais característicos de One Hot Minute é “One Big Mob“, a faixa traz uma introdução bem funkeada, dando a impressão de que será uma música típica do repertório dos Chili Peppers, mas o momento é logo quebrado por uma lenta e obscura seção central, que cria uma atmosfera misteriosa, com percussão, vocais cheios de efeito, guitarras psicodélicas e até ruídos de bebê chorando, até que a canção cresce novamente e volta à mesma estrutura do início, como se nada tivesse acontecido.

Como não poderia deixar de acontecer pelo menos uma vez em um disco do Red Hot, o funk toma conta em “Walkabout“, uma faixa pra lá de morna, mas com uma das levadas mais bem construídas da carreira da banda, com certa influência de música latina, uma percussão feita com cuíca, guitarras cheias de wah-wah e até um solinho tímido no meio. A faixa não faz escândalo mas ocupa seu espaço no tracklist com bastante honra.

Toda a melancolia presente em “My Friends” retorna em dobro com “Tearjerker“, uma triste canção sobre Kurt Cobain e sobre os sentimentos de Kiedis em relação à sua morte, já que o vocalista era um grande admirador do saudoso líder do Nirvana. Navarro fez um trabalho fenomenal nas múltiplas linhas de guitarra da canção, completando umas às outras de forma impecável, deixando uma linda base tímida até mesmo durante o emotivo solo que marca o meio da faixa. O arranjo de cordas que encerra a canção é um dos momentos mais belos do álbum.

Juntamente com “Warped”, “One Hot Minute” é a faixa que realmente define melhor a sonoridade do disco e, não por acaso, deu nome ao mesmo. Com seus seis minutos e meio de duração, um instrumental ríspido, vocais que beiram o agressivo e guitarras pesadíssimas, a faixa-título é um dos momentos mais marcantes desse trabalho, muito por seu posicionamento dentro do tracklist, entre uma canção triste e outra bem leve. Além de tudo isso, a faixa é claramente a composição onde Navarro mais se soltou nas guitarras, com um riff nada usual no catálogo da banda, uma ponte lenta e psicodélica bem no meio, e um final imprevisível, características que apontam diretamente ao estilo guitarrista.

Quebrando uma última vez o clima tenso do disco, “Falling Into Grace” vem com uma pequena remanescência de Blood Sugar Sex Magik, mas ainda incorpora a essência de One Hot Minute. A estranheza da guitarra com talk box de Navarro e dos vocais obscuros que entram antes da seção final, são mesclados com maestria ao baixo funkeado de Flea, os violões na ponte, os vocais descontraídos de Anthony e uma percussão que dá certa leveza ao instrumental, dando à canção uma atmosfera bem única dentro do álbum.

O single “Shallow Be Thy Game” é, de longe, o momento que mais positivamente surpreendente em One Hot Minute. De forma simplesmente magnífica, a banda conseguiu juntar, mesmo que por uma única vez, seu estilo funky e o peso trazido por Navarro, sendo que o resultado foi uma das faixas mais bem construídas da carreira deles. De maneira única, o ritmo agitado e dançante da música foi perfeitamente alinhado à letra cômica e irônica de Kiedis e às guitarras distorcidas de Navarro.

A difícil tarefa de encerrar One Hot Minute ficou com a melancólica e pesada “Transcending“, uma escolha absolutamente genial. Escrita por Flea em homenagem a River Phoenix (morto em 1993), a faixa começa como uma linda balada melódica e sentimental, fundamentada quase que inteiramente no baixo, que logo é acompanhado por linhas de guitarra que acentuam ainda mais a carga emocional da canção. No meio do caminho, a melodia dá lugar à rispidez de uma seção distorcida, arrastada, obscura e agressiva, de forma nunca antes vista (e jamais repetida) na discografia da banda, que inclui trechos insultando quase que diretamente os veículos de comunicação que se aproveitaram da morte de River para lucrar, como revistas e programas sensacionalistas da época. Após quase seis minutos, a faixa explode uma última vez e se encerra, finalizando de uma maneira marcante o grandioso One Hot Minute.

A Turnê

Como praticamente tudo que teve a ver com a atmosfera pesada que rondava o álbum, a turnê, que se iniciou poucos dias após o lançamento do disco, também foi marcada por diversos momentos difíceis. Já em um dos primeiros shows nos Estados Unidos, Anthony Kiedis tropeçou em um monitor e caiu do palco, o que lhe deixou com uma perna engessada por dois meses. Mas esse foi apenas um dos vários acidentes que Kiedis teve durante turnê, ele também quebrou um braço e sofreu um acidente de moto. Além de tantos incidentes, a banda ainda acabou ficando algum tempo sem marcar shows, devido às baixas vendas de One Hot Minute. Após a recuperação de Kiedis, a banda foi uma das grandes atrações do festival Fuji Rock em 1997, porém, um forte temporal tomou conta da apresentação, fazendo com que a banda tocasse apenas oito músicas e deixasse o palco antes do esperado. Um fato curioso é que, apesar de tudo, a banda ainda realizou um show no Polo Norte, para os 100 vencedores de um concurso organizado pela cervejaria canadense Molson Brewery.

Red Hot Chili Peppers, turnê de One Hot Minute, 1995.
Red Hot Chili Peppers na turnê de One Hot Minute, 1995

Os Resultados

A recepção da crítica, de modo geral, não foi das melhores. Enquanto uns elogiaram a coragem da banda de mudar sua sonoridade e lutar contra seus próprios demônios em letras bem obscuras, outros torceram o nariz e criticaram a falta de conexão dos demais integrantes com Dave Navarro. Outra questão recorrente eram as incessantes comparações ao álbum anterior, Blood Sugar Sex Magik. Grande parte das resenhas, na época, apontavam que um dos pontos negativos do disco é que, o funk, que sempre foi tão característico da banda e tão presente nos lançamentos anteriores, não foi tão explorado nesse trabalho, o que acabou causando certa decepção em uma parcela considerável da crítica especializada. Já com o público, a resposta foi menos agressiva e One Hot Minute ainda atingiu posições excelentes em diversas paradas pelo mundo, especialmente no continente europeu e também na Oceania. Na Austrália, Finlândia, Nova Zelândia, Suécia e Reino Unido, o álbum alcançou o topo dos charts sem muita dificuldade, chegando à segunda colocação na Áustria, Noruega e Suíça. Além disso, ele ainda chegou a ficar em quarto lugar na Billboard 200, um grande feito, especialmente para um trabalho com vendas pouco expressivas.

O Depois

No decorrer da turnê, a relação de Dave com seus colegas de banda já havia se deteriorado violentamente, muito por conta de seu uso excessivo de drogas, que acabava por interferir diretamente na luta de Anthony para se manter sóbrio, além, é claro, do agravante das divergências criativas. As brigas internas atingiram o ponto de ruptura em 1998, quando Dave chegou completamente intoxicado a um ensaio e, sem condições de tocar, discutiu feio com a banda e acabou por ser demitido. Novamente sem um guitarrista, o Red Hot Chili Peppers quase teve seu fim decretado ali mesmo, mas Flea decidiu tentar, pela última vez, restabelecer a harmonia de seu grupo, trazendo de volta ninguém menos que John Frusciante, recém saído da reabilitação e pronto para voltar a criar com seus velhos amigos. Já o resto dessa história a gente não precisa nem contar.

O Legado

One Hot Minute é uma obra completamente ímpar na discografia do Red Hot Chili Peppers e, bem por isso, desde seu lançamento, vem ganhando cada vez mais o carinho e a admiração da maior parte dos fãs da banda, assim como Navarro, que é sempre lembrado por seu ótimo trabalho no disco. Infelizmente, o sentimento da banda em relação às composições, ao contexto e ao momento em que o álbum foi concebido, não são dos melhores, algo que fica evidenciado pela absência de canções dessa época (com exceção de “Pea) em qualquer show após a saída de Navarro. Recentemente, o ex-guitarrista Josh Klinghoffer conseguiu convencer a banda a incluir “Aeroplane” em alguns de seus setlists, o que deu aos fãs a esperança de que mais faixas do álbum pudessem ser, finalmente, revividas. Com a saída de Josh em 2019 e a volta de Frusciante, que declaradamente não é fã da sonoridade do disco, é provável que o sonho dos fãs tenha ido por água abaixo. Mas o fato é que One Hot Minute continua sendo um dos trabalhos mais corajosos da banda e uma obra que, sem sombra de dúvidas, sempre será admirada por aqueles que a compreendem.