Você já se decepcionou com a sua banda favorita? É normal um fã ficar triste quando o grupo que ele mais escuta entrega um disco fraco, faz um show decepcionante ou até grava clipes desinteressantes. Entretanto, podem ocorrer coisas mais graves que colocam em dúvida o motivo real de você passar anos da sua vida acompanhando cada detalhe deles, investindo seu dinheiro para ter o merch e até viajar para assistir uma apresentação. Atualmente, é isso que muitos admiradores de The Killers estão sentindo.

No final de maio de 2020, os Estados Unidos pararam para acompanhar os protestos motivados pela morte de George Floyd. Milhões de norte-americanos se uniram em manifestações contra o racismo, pedindo o fim da brutalidade policial e abraçando a mensagem do Black Lives Matter. Com muitas instituições de apoio a luta antirracista necessitando de doações, muitas celebridades se colocaram ao lado delas através de doações e se disponibilizando até a pagar a fiança dos manifestantes presos. The Killers não foi uma delas.

Ok, não devemos pensar também que todas as celebridades do mundo devem apoiar as mesmas causas que a gente, mas o que você faria quando sua banda favorita se recusa a usar uma hashtag com “Black Lives Matter” ou até se usam das minorias para se autopromoverem? Em 20 de janeiro de 2019, The Killers lançou um single chamado “Land of the Free”, em que eles tentam emocionar o ouvinte ao tocarem em assuntos como liberdade, refugiados e uso de armas. A música ainda contou com um clipe dirigido por Spike Lee, o que deixou as intenções da banda em relação ao lançamento ainda mais inflamadas. No final, “Land of the Free” é só mais uma canção solta na discografia do grupo.

Então, visto que a banda já usou de causas de minorias para se promover, é lógico que quando esses grupos precisarem de apoio, eles vão ser os primeiros a ajudarem, certo? Não foi isso o que aconteceu. A realidade foi que os integrantes passaram quase duas semanas sem se pronunciarem sobre o assunto e só apareceram depois de muita pressão dos fãs. A resposta de apoio deles foi um vídeo deles tocando “Land of the Free”, mudando parte da letra, para atualiza-la para o contexto de 2020 e só. Mais uma vez se apropriaram de um discurso para o próprio bem.

Talvez seja bobo o fã de The Killers ficar triste com isso, mas o clima pesado em cima da banda piorou mais. No início de agosto, algumas acusações de abuso sexual por parte da equipe técnica do grupo apareceram nas redes sociais. As fontes ainda relataram que os integrantes do grupo sabiam do que acontecia nos bastidores e não faziam nada a respeito. Uma investigação interna feita pelos advogados do grupo foi realizada para apurar o acontecido e concluíram que não há a comprovação desses fatos.

Dessa forma, “Imploding The Mirage” chega ao público em um ambiente cheio de controvérsias e indignação por parte de quem acompanhou a trajetória do The Killers até aqui. Assim, se espera que a banda compense seus deslizes nas dez músicas que compõem o disco, o que não rolou. O sucessor do “Wonderful Wonderful” (2017) consegue ser o trabalho mais preguiçoso e sem graça do grupo até hoje. Uma banda com quase vinte anos de estrada não soube se atualizar e tenta se apegar a uma nostalgia que só existe na cabeça do seu vocalista.

Para ajudar no álbum, eles convidaram uma série de nomes promissores da música alternativa. Na produção, Shawn Everett – que já tinha trabalhado com a banda no “Wonderful Wonderful” – passou a ser acompanhado por Jonathan Rado, multi-instrumentista e membro do Foxygen, dupla de indie rock californiana. Para as composições, Brandon Flowers convidou Alex Cameron, cantor australiano reconhecido por suas letras bem irônicas. Além dele, Natalie Mering (Weyes Blood) participou da faixa “My God”. A renovada musical deveria influenciar o disco e o transformar em uma obra de rock explosivo e animado, mas o resultado foi, no máximo, um synthpop perdido dos anos 1980.

Todas as características do The Killers estão presentes: as músicas vão crescendo até alcançarem seu clímax, tentativas de incorporar o estilo de escrever do Springsteen para a pista de dança e as referências religiosas para lidar com crises existenciais. Contudo, uma das coisas que Brandon Flowers nunca aprendeu com o Boss é que para suas letras explosivas, ele também precisou de uma boa banda de apoio. “Imploding The Mirage” possui um instrumental muito confuso, que tenta comprimir todos os sons dentro de cada faixa. Soma-se ao conjunto de erros o baterista Ronnie Vannucci com sua participação mais preguiçosa dentro de todos os trabalhos do grupo.

“Imploding The Mirage” continua com o The Killers mergulhando no Heartland Rock iniciado com o “Battle Born” (2012), mas a banda só segue o mesmo caminho de seus musos inspiradores, não há novidade e nem tentativa de criar seu próprio som. Nem parece a mesma banda que dezesseis atrás reapresentou ao mundo o som da década de oitenta com um toque do rock alternativo que surgia nos Estados Unidos na época. Enquanto Bruce Springsteen retratou todo o cenário do norte-americano sem perspectiva de um futuro promissor nas décadas de 1970 e 1980, Flowers tenta incorporar o mesmo discurso para sua própria realidade, ao relatar os altos e baixos de sua vida e sua aproximação com Deus. No entanto, ao contrário de seu ídolo, as composições de seu novo trabalho não possuem carga emocional o suficiente para que décadas depois as pessoas ainda sejam capazes de se interessar pela sua história contada.

A primeira parte do disco é onde se pode encontrar alguma coisa interessante. A primeira faixa, “My Own Soul’s Warning” mostra um new wave revival que cativa o ouvinte e o faz ficar ansioso para ouvir o resto do disco. “Dying Breed” é uma música que em uma primeira ouvida não impressiona, mas o refrão permanece rodando pela sua cabeça. Já “Caution” poderia ser só mais uma tentativa de hit para as rádios, porém, acaba surpreendendo um pouco com a participação de Lindsey Buckingham (Fleetwood Mac) na guitarra.

Outras faixas conseguem ser curiosas por serem uma homenagem de Flowers à suas bandas favoritas da adolescência. Por exemplo “Fire In Bone”, a mais experimental do álbum, possui uma pegada de Talking Heads, porém, o resultado soa clichê demais. Em “Running Towards A Place” o grupo apresenta um Dire Straits sem inspiração e cansativo. Para finalizar as referências, “Imploding The Mirage” parece uma paródia malfeita de The Cars, até com uma referência direta na letra ao cantar “But she could be the dangerous type”.

“My God” e “Lightning Fields” poderiam surpreender por possuírem feats, os primeiros da banda desde “Tranquilize” com o Lou Reed. A primeira vinha como grande surpresa para os fãs, ao colocar Brandon dividindo os vocais com Weyes Blood, responsável por um dos melhores discos de 2019, o “Titanic Rising”. Entretanto, a participação dela fica perdida dentro de uma balada gospel que não soube aproveitar uma das vozes mais assustadoramente bonitas da música hoje.  A segunda é uma canção envolvente e bastante melancólica, mas que fica perdida e não conquista o público com a adição da voz de k. d. lang.

Ao terminar de ouvir o “Imploding The Mirage”, a obra é até agradável, no entanto, se o ouvinte tentar se aprofundar nas canções, vai perceber que elas são bem rasas e com um resultado bastante questionável. Entrando de cabeça na mesmice nostálgica, o disco ficará marcado como um trabalho que possuía potencial e se perdeu dentro de sua própria arte.

4/10

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