Independente do favoritismo, o icônico terceiro álbum da banda é lembrado como um divisor de águas, carregado com um lirismo profundo que nossos cérebros adolescentes provavelmente não poderiam compreender em 2007

Você se lembra do que estava fazendo em fevereiro de 2007? Em uma realidade longe de smartphones, redes sociais e dancinhas de TikTok, você muito provavelmente passava algumas horas consideráveis ouvindo rádio ou assistindo clipes musicais na MTV e Mix Tv. Em uma realidade onde apenas 17% das famílias brasileiras tinham acesso a internet, e na maioria das vezes discada, os canais televisivos com foco na programação musical salvaram a vida daqueles que durante a adolescência se achavam diferentões demais para consumir música nacional e se interessavam pelo pop e rock do exterior. Naquela época, bandas de alt rock puxadas por sub gêneros como punk, pop punk e emocore estavam em alta, com com Sum 41, Green Day e Three Days Grace. Das mais populares do gênero, Panic! At The Disco ainda estourava com hits do disco “A Fever You Can’t Sweat Out”, o My Chemical Romance fazia barulho com The Black Parade”, e o Fall Out Boy lançava um dos melhores trabalhos de sua carreira, o álbum Infinity on High.

Lançado em fevereiro de 2007, Infinity on High foi o terceiro álbum de estúdio do Fall Out Boy, que naquele ano ainda colhia os frutos do até então muito bem sucedido “From Under The Cork Tree”. Com guitarras energéticas, bateria potente e letras que falavam sobre amores, dramas adolescentes e frustrações, a banda liderada por Patrick Stump conquistava seu local ao sol dando continuidade à narrativa e sonoridade que vinha sendo construída desde seu primeiro trabalho de estúdio, “Take This To Your Grave”, de 2003.  No entanto, foi em “From Under The Cork Tree” onde a banda começou a sentir o peso da notoriedade mundial, em uma época onde a rede social mais forte do momento era o MySpace. Responsável por trazer hits que animam pistas de dança até hoje, como “Dance, Dance” e “Sugar, We’re Going Down”, o segundo disco da banda proporcionou algumas indicações ao Grammy, um MTV Music Video Award, além da ascensão da banda como rockstars. Dois anos depois, o jovem quarteto de Chicago tinha o desafio de repetir este sucesso em Infinity on High.

Se o mundo esperava mais um álbum impregnado de mesmice emo, riffs pesados de guitarra e letras sobre coração partido, o Fall Out Boy tinha outros planos. Confiantes na popularidade recentemente solidificada, o novo disco estava disposto a ser inventivo e surpreender logo na primeira faixa, “Thriller“, onde o ouvinte era saudado pelas boas vindas de ninguém menos que o magnata do rap, Jay-Z. Quantas bandas de pop punk naquela época podiam contar com tal presença ilustre em seu terceiro disco e seu icônico “welcome, it’s here”? Não por acaso, o álbum foi responsável por marcar a expansão sonora da banda, que já não cabia mais em sua zona de conforto dentro do pop punk. A segunda faixa do álbum, “The Take Over, The Breaks Over“, por exemplo, explora tanto riffs de punk quanto de funk em meio a uma melodia mais amigável que o de costume. O resultado foi um dos singles mais carismáticos e honestos daquela era. “Golden” foi outra agradável e diferenciada surpresa do disco, que explora os vocais de Patrick Stump embalados apenas pela companhia do piano em letras profundas e sombrias.

Se o Fall Out Boy estava mais maduro, seguro e preparado para o sucesso, as letras também não estavam mais tão mergulhadas no sofrimento de ser um adolescente pouco popular e apaixonado. Em “This Isn’t A Scene, It’s An Arms Race“, um dos maiores hits do álbum, por exemplo, a banda questionava a indústria musical, a competitividade da cena em busca do dinheiro, reconhecimento e glória. O quarteto ainda ironizou a temática do sucesso tóxico muito bem no video clipe, que apresentava um Fall Out Boy esnobe e inacessível com o sucesso recém conquistado. Outro grande hit do disco, “Thnks fr th Mmrs“, explora a mesma temática em seu vídeo clipe ao comparar empresários da indústria musical com macacos – além da ilustre presença de Kim Kardashian. A música, no entanto, não fugiu muito da temática romântica já conhecida, porém, era introduzida por majestosos arranjos sinfônicos que tirava a composição da mesmice da guitarra, baixo e percussão.

Em sua primeira semana, Infinity on High vendeu 260.000 cópias, número bastante expressivo e surpreendente para a época, o que confirmou as suspeitas de que o sucesso do quarteto de pop punk de Chicago estava só começando. O álbum estreou no topo da Billboard Hot 100, superando o sucesso do premiado “From Under The Cork Tree” tão rápido quanto o esperado. Hoje, é possível dizer que o sucesso do disco veio em um momento fértil e tendencioso para o gênero, que assim como o emocore, arrastava multidões entre os anos 2000 e 2010. Até hoje, o álbum vendeu mais de dois milhões de cópias e foi o responsável por levar Patrick Stump a fazer sua primeira grande transição de cantor pop punk para pop star, aproveitando ao máximo seu alcance vocal. Suas notas altas estavam ainda mais altas, ousadas, e suas melodias estavam mais firmes. Com a banda agora incorporando totalmente elementos de R&B, pop e soul, o disco forneceu a plataforma perfeita para a ascensão da banda fora da bolha da cena alternativa.

“Se Fall Out Boy pode ser uma banda que desafia o gênero, então que seja . É isso que pretendemos!”

patrick stump, 2007

As águas da música alternativa se tornavam turvas no fim da década e o Fall Out Boy, talvez, tenha seguido um caminho crescente até o disco sucessor, “Folie à Deux“, e descido ladeira abaixo a partir do retorno de seu hiato após cinco anos, em “Save Rock and Roll“. Não que a decadência tenha sido culpa necessariamente da banda. Muita coisa mudou em cinco anos, inclusive a indústria e tendência musical, onde o emo já não era mais tão mainstrem e popular. Na realidade, 2013 foi um ano bastante sombrio para os sobreviventes da febre emo que ainda não tinham sucumbido ao indie. Aquele foi o mesmo ano em que o My Chemical Romance anunciou o até então fim da banda, deixando milhões de fãs órfãos ao redor do mundo.

Independente do favoritismo dos fãs, é inegável que Infinity on High foi um divisor de águas na carreira do Fall Out Boy, carregado com um lirismo profundo que nossos cérebros adolescentes provavelmente não poderiam compreender na época. O notável disco libertou o Fall Out Boy de restrições sonoras, preparou o terreno para mais experimentação de gênero dentro e fora do pop punk, além de utilizar transições de músicas para fazer o álbum parecer completo, em vez de apenas músicas independentes. É difícil acreditar que o disco completou 14 anos em 2021, uma vez que para muitos fãs que cresceram na companhia e devoção da banda, escrevendo suas letras em all stars, parece ter sido lançado ontem. Até agora, o disco tem resistido ao teste do tempo e continua relevante na cena até hoje.