O harcdore faz parte de um campo vasto no nosso país. Bandas como Blind Pigs (SP), Street Bulldogs (SP) e Dead Fish (ES), são nomes que fizeram e fazem parte de uma cena fortíssima no nosso cenário musical, mas também temos aqueles que cresceram perto da praia, mais especificamente em Santos (SP), como os paulistas da Bayside Kings, banda formada em 2010 após o fim de outro projeto levado por alguns membros e por Milton Aguiar, fundador e dono dos vocais potentes até hoje. Inicialmente levado como um hobby aos fins de semana, hoje o grupo traz consigo três álbuns (The Way Back Home; Waves of Hope e Resistance), um EP (Warship) e um split álbum ao lado dos caras do Mais que Palavras, chamado Yin Yang. Batemos um papo com o vocalista e falamos um pouco sobre viver do Hardcore, Straight Edge, a essência do estilo e claro, sobre o novo álbum que está quase saindo do forno e conta com uma parada mais do que inédita. Vem conferir:

RNB: O que o Hardcore representa na vida do Bayside Kings?

Milton Aguiar: Acredito que nestes 10 anos, estamos em aprendizado, mas posso dizer que para mim, hardcore é questionamento e ação interna e externa, é como o processo natural de respirar e expirar. Ele moldou minha mente para eu chegar no meu hoje. Acredito que não seja a melhor versão de mim mesmo, mas ele me ajuda a me manter forte no meu hoje, então sou agradecido pelas bandas que escutei, pelas pessoas que conheci e por tudo que agregou e tem agregado.

RNB: O último trabalho de estúdio traz o nome Resistance. Para vocês, qual o significado dessa palavra?

MA: O Resistance é meu álbum favorito do BSK até agora. Ele é completo, tem as melhores músicas da banda tanto em som, quanto mensagem. Ele teve muita gente envolvida, foram mais de 300 pessoas na campanha de crowndfunding que fizeram ele ganhar vida e com isto, ainda ajudamos uma ONG protetora dos direitos dos animais em São Paulo. Então o disco por si só já é uma resistência, os temas são especiais. Então resistência é a valorização do que você tem de melhor contra expressões opressoras das coisas que nos cercam.

RNB: O Bayside Kings preza muito pela liberdade de pensamento, atitude e, consequentemente, posicionamento político frente aos problemas que estamos enfrentando no cenário atual. Qual a opinião de vocês sobre o engajamento do hardcore com esse viés político?

MA: O hardcore é político, é simples. Principalmente na última década, agindo dentro da comunidade com o BSK, tem sido transformador, um aprendizado. Fazendo um comparativo rápido, o eu de hoje puxaria muito a orelha do Milton de 10 anos atrás. Mas toda esta trajetória me ajuda a me posicionar no mundo “comum”, é o que me faz sobreviver e evitar de cair em armadilhas. Hoje eu consigo pensar e caso eu faça algum movimento errado, eu ter a sapiência de reconhecer meu erro e poder fazer a coisa certa. E o principal, dentro dessa política, é reconhecer a imensa pluralidade das classes de minoria que lutam por voz e espaço de existência.

Foto: Bayside Kings / Ph.photos

RNB: Não é todo mundo que conhece o estilo de vida Straight Edge. Conta pra gente um pouco sobre e o porquê de você se tornar adepto a esse estilo de viver.

MA: O straight edge é um movimento de contracultura que tem uma simples e única ideia: é o hardcore punk livre de drogas. Todos sabemos que o punk nasceu e vive como anti-herói em nossa cultura, as pessoas dentro da linha do senso comum vêem o punk como escória pelo fato dele no começo ser subproduto de oposição baseado em contestação, só que ao mesmo tempo era muito autodestrutivo. O sXe não é uma religião, não é uma filosofia, ele não faz ninguém melhor ou pior do que ninguém, ele é para a própria pessoa, uma forma dela poder contestar as coisas que ela não concorda e sem a parte da autodestruição. Praticamente há 2 décadas acredito nisto, que se minha mente for forte e eu não precisar de distrações, muletas e fugas, eu possa encarar as coisas de frente e com ela eu aprendi muito sobre outros pontos que carrego, como vegetarianismo/veganismo, direito animal, direito de minorias e outras coisas. E aprendi a respeitar mais os outros pelas decisões de cada pessoa, sem julgamentos. Agora vai uma puxada de orelha na galera mais radical dentro do sxe, vocês não são melhores que ninguém, e nem tem o direito de julgamento, falar de liberdade é exercer a liberdade ao próximo!

RNB: Falando do novo trampo que está em produção, o Bayside desde o começo focou em compor em inglês, como é mudar esse viés agora para a língua-mãe da banda?

MA: É como mergulhar num vazio. Tem sido difícil, eu já descartei muita coisa, meu maior receio é soar “bobo” e chover no molhado, então eu preferi abordar alguns temas específicos que vão fazer parte de um universo cabuloso do BSK. É uma nova história e vai valer a pena toda a espera. Com uma mensagem mais direta, mais melódico e mais selvagem… eu tô muito puto, porque quanto mais eu entendo o mundo, mais puto eu fico (“a ignorância é uma benção”). Então, já imagina como vai ser. Eu só quero abrir mais campo de diálogo, de tornar tudo que for relacionado ao BSK, mais inclusivo, para que possa ter uma evolução dentro da nossa comunidade. Será uma troca, uma continuidade de aprendizado, a frequência será única como um soco na cara.

Foto: Bayside Kings em estúdio / Divulgação

RNB: Pra fechar, a quarentena atrapalhou, de uma forma boa, claro, a produção do novo disco (muito aguardado pelos fãs). Como está a expectativa para retornar ao estúdio e finalizar o trabalho?

MA: Eu tô enfrentando algumas batalhas pessoais pra honrar com algumas paradas pessoais e pessoas que dependem de mim, é meu foco nesse momento. Meus amigos mais próximos e família, estão bem. Eu tenho altos e baixos, desde o começo da quarentena, tem sido eu e a Lory (minha pet), as vezes me arrisco indo no mercado e tô de segunda a sexta nas ruas (infelizmente) com um dos meus trampos que é o de CLT (sim, capitalismo não tem sentimento, porém é o que tá me segurando dentro dos privilégios meus). Tem sido 1 dia ruim para 1 dia bom (desculpa decepcionar alguém aqui, eu sou um mano, humano, HÁ), os dias tem sidos “ontem, hoje e amanhã” e eu sinceramente acho que este ano já “era” (espero estar errado). Porém quando for realmente seguro, a primeira coisa será gravar o disco e botar o mais rápido nas ruas e retornar a tour que estava quase toda montada. Mas paralelamente, estamos “quietinhos”, não vai ter acústico, não vai ter live tocando para colocar pessoas em risco, estamos trampando nas “sombras” e quando você menos imaginar, estaremos todos os dias tocando na sua melhor plataforma de streaming e na sua cidade!

E para quem não conhece o trampo dos caras, além de estar em todas as plataformas de streaming, também tem alguns clipes no Youtube. E para quem é fã e quer um contato mais direto com a banda, os caras mantem um grupo no Whatsapp para aproximar os fãs e, consequentemente, deixar a par de todas as novidades que estão para rolar. Quem se interessar, é só clicar aqui, e colar com a crew: https://mailchi.mp/997bf330f948/baysidekings. Não percam tempo!

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