Rapper carioca eleva qualidade de produção e entrega um dos melhores trabalhos do rap nacional no ano; certeiro e direto, artista coloca em evidência o racismo estrutural no Brasil através de tracks grandiosamente poderosas

O Líder em Movimento, terceiro álbum de BK’, é o primeiro onde o rapper carioca de 30 anos assina com seu nome de batismo Abebe Bikila, uma homenagem ao maratonista etíope que foi o primeiro negro africano a ganhar medalha de ouro em uma Olimpíada, correndo descalço. 

O “albo”, como o rapper apelidou desde o momento do anúncio, é guiado por um eu lírico que resgata figuras negras importantes da história, luta para fortalecer a própria comunidade e passar sua visão sobre assuntos como dinheiro, amor, poder e união, entendendo e assumindo – mesmo que indiretamente – sua própria figura como referência atual na cultura. Nomes e discursos de Abdias do Nascimento, Marielle Franco, Malcolm X, Martin Luther King, Tupac, Notorious B.I.G e Thomas Sankara ressoam ao longo de toda a audição. A temática racial sempre foi presente nos trabalhos de BK’, mas agora com o movimento “Vidas Negras Importam” ganhando notoriedade mundial, O Líder em Movimento chega com uma mensagem de justiça racial extremamente forte e necessária.

(Foto: João Victor Medeiros - https://www.jvmedeiros.com/editorial/bk-o-lider-em-movimento/)
(Foto: João Victor Medeiros – https://www.jvmedeiros.com/editorial/bk-o-lider-em-movimento/)

As 10 faixas do disco abordam e denunciam o racismo, a apropriação cultural e a vida nas periferias brasileiras. A ascensão do conservadorismo no Brasil também é retratada no decorrer do disco.

Já na primeira faixa do álbum temos algo diferente dos trabalhos anteriores de BK’. “Movimento” começa com uma introdução poderosa – interpretada pela atriz Polly Marinho. A faixa, que foi escrita pouco depois do lançamento de Gigantes (2018), ainda cita vários líderes pretos assassinados por inspirar e libertar as pessoas.

“Os que têm a sensibilidade e a frieza na hora de olhar o Mundo, serão os responsáveis pelos outros olhares.

Os que nada temem, serão responsáveis por corajosos e covardes.

Ser a força, o amor, o poder, a sabedoria

e a luta pela liberdade só acabe quando ela for encontrada para que a nossa poesia não seja mais escrita com sangue.”

Ao decorrer do trabalho, vemos o rapper interagir com passado, presente e futuro, remetendo a filosofia Sankofa – originária de sociedades em Gana e na Costa do Marfim. Parte de um conjunto de ideogramas chamados adinkra, representado por um pássaro que volta a cabeça à cauda. O símbolo é traduzido por “retornar ao passado para ressignificar o presente e construir o futuro”. Em entrevista à Rolling Stone, BK’ disse “então, sempre falei isso de que ‘precisamos ver onde estamos’ e sempre olhar para aquilo que a gente fez, onde estamos agora e se analisar. Eu sempre estou fazendo isso. Com o álbum, fiz meio que um resgate”, assim, pode-se entender que seu novo trabalho de estúdio diz muito mais sobre retornar ao passado para ressignificar o presente, dando uma nova perspectiva ao futuro.

(Foto: João Victor Medeiros - https://www.jvmedeiros.com/editorial/bk-o-lider-em-movimento/)
(Foto: João Victor Medeiros – https://www.jvmedeiros.com/editorial/bk-o-lider-em-movimento/)

BK’, Flow Zidane ou Ekelele Flow, chame o versátil artista da forma que quiser, mas aqui, em O Líder Em Movimento, quem assina é Abebe Bikila, afirmando mais uma vez sua capacidade de criar conceitos enquanto declara seu próprio amor ao rap.

Lembrando sempre das raízes, suas e da cultura, BK quer levar o fundamento do estilo para frente, conquistando assim lugares que ele ainda não chegou com tanta força. Ainda na entrevista citada, ele afirmou que os rappers e todos os envolvidos na cultura do rap/hip-hop não devem se disfarçar ou se maquiar para serem mais bem aceitos pelo público em geral. Além disso, Abebe fala sobre o racismo estrutural inserido na sociedade desde seus primórdios, que infelizmente ainda pode se aplicar na atualidade em relação aos produtos que são mais preferencialmente vendidos: os “originados” da elite branca. Na faixa “Visão”, ele rima sobre:

“’Cês tão esperando minha versão branca chegar

Tomar o meu lugar, falar no meu lugar

Falar qual é o meu lugar, meu lugar de fala

Minha história apagar, falar que eles criaram isso e o ingresso eu não poder bancar”

O trabalho é denso, forte e muito rico. Orgânico, mas também seco, equilibrado entre rimas potentes e beats impecáveis, sem desperdiçar nenhum dos dois em momento algum das tracks. Ao longo da audição, podemos ver BK’ reciclando linhas de outros trabalhos, fazendo referências a figuras da cultura pop, times de futebol, jogadores, rappers brasileiros consagrados e, claro, às lideranças negras que foram citadas no começo do texto. Já na parte dos beats, temos um trabalho muito consistente, comandado pelo impecável Jonas Profeta (JXNVS) – amigo de longa data e produtor de BK’ – com alguns instrumentos orgânicos por trás das tracks, o que faz O Líder em Movimento soar diferente de outros trabalhos do rapper.

As faixas que mais se destacam são “Amor“, com uma batida mais voltada para o funk, “Poder” que conta com uma poderosa virada no beat comandada por Deekapz e “Universo” onde, Nansy Silvvs, traz um beat mais leve e “relaxado” para finalizar o disco. O “albo” já nasce como um clássico, trazendo assuntos de extrema urgência, estimulado pelas lutas raciais e profundamente conectado ao momento atual, principalmente do Brasil. Todos estes elementos mostram o por que de BK’ ser considerado, por alguns, o rapper mais técnico e talentoso de sua geração!

O terceiro álbum de estúdio da discografia do carioca não possui participações de outros artistas nos vocais, comuns nos álbuns anteriores, mas conta com uma equipe de produção renomada. Jonas Profeta é onipresente no álbum, o duo Deekapz é responsável pelos poderosos beats das faixas “Poder” e “Lugar”, Nansy Silvvs pelo beat de “Universo”. Já Arthur Luna, El Lif Beatz e Mike Bozzi (responsáveis por obras de Kendrick Lamar, Post Malone, SZA, entre outros) mixaram, produziram e masterizaram, respectivamente. O álbum ainda conta com o sample de “Minha Gente”, de Erasmo Carlos, na faixa “Pessoas”. Já na parte da identidade visual, o fotógrafo João Victor Medeiros construiu muito bem o visual sentimento do trabalho.

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