Por Gêra Lobo e Natália de Mitri

Há quem diga que o terceiro álbum de uma banda, cantor ou grupo é o definitivo para se determinar qualidade, amadurecimento e criatividade. Após duas tentativas experimentais, onde geralmente entrega-se trabalhos baseados em tudo o que o artista gosta de explorar, consumir e produzir, espera-se que no terceiro ele seja capaz de apresentar toda a experiência e crescimento acumulado ao longo da ainda breve carreira, e ainda sim se expressar de forma criativa, experimental e ousada, sem cair na mesma fórmula dos trabalhos anteriores. Quer um exemplo disso? Quantas bandas você consegue listar cujo terceiro trabalho foi determinante para sua carreira, como um divisor de águas? É como se o resultado deste trabalho fosse o decisivo para definir se o artista é de fato bom ou não no que faz. Seguindo religiosamente este pressuposto, os britânicos do Nothing But Thieves entregaram seu trabalho mais ousado nesta sexta-feira (23), que promete ser um enorme ponto de virada em sua carreira: Moral Panic.

Formada em 2013, o Nothing But Thieves lançou seu primeiro trabalho em 2014, o EP Graveyard Whistling, mas só conquistou espaço e notoriedade no rock alternativo local com seu álbum autointitulado lançado no ano seguinte. O álbum foi responsável por trazer a tona dois dos grandes hits da banda, como “If I Get High” e “Trip Switch“, e foi o suficiente para trazer convites importantes, como o que os colocou de ato de abertura de grades turnês na Europa nos anos seguintes, como a Drones World Tour, do Muse.

O bem sucedido primeiro álbum trabalhava principalmente riffs de alt e garage rock com grandes doses de melancolia em algumas das faixas, outra característica na qual eles se tornaram rapidamente referência: músicas tristes. O segundo trabalho, Broken Machine (2017), não fugiu muito desta mesma fórmula segura de sucesso: riffs, alt rock e alguns letras bastante tristes. A aposta pouco arriscada foi mais uma vez um sucesso, e trouxe hits como “Amsterdam“, “Sorry” e “Particles. Ambos os álbuns foram semelhantes o suficiente a ponto de quase se completarem, e tinham qualidade o suficiente para não só satisfazer sua pequena base de fãs, como também expandi-la. As coisas começaram a mudar um pouco em 2018, no EP What Did You Think When You Made Me This Way?, responsável por quatro incríveis novas faixas e canções que pareciam querer tirar a banda de sua zona de conforto.

Apesar da temática clichê voltada para turbulência política, apocalipse social, mudanças climáticas e malefícios da internet, o terceiro e enigmático álbum do Nothing But Thieves traz um grande desafio que a banda sabia que um dia chegaria: a necessidade entregar de inovação, apostas ousadas, elementos novos e audaciosos, sem abandonar sua essência. Em Moral Panic, Conor Mason e sua trupe largam um pouco a temática de relacionamentos problemáticos, festas turbulentas e distúrbios psicológicos para clamar por um despertar espiritual, trazer autocrítica e protestar o caos globalista. A banda também aposta em sintetizadores, distorções, elementos eletrônicos, alcançando um resultado quase psicodélico, algo que nunca tínhamos visto em suas composições antes. Mas claro, eles não deixaram as baladinhas dançantes e tristes de fora.

Cada uma das músicas escolhidas como single foram cuidadosamente selecionadas para apresentar as mudanças de forma cuidadosa e sutil. O primeiro single divulgado, “Is Everybody Going Crazy?” poderia ter sido resultado do caos da pandemia do coronavírus, já que se encaixava perfeitamente com a situação em que o mundo tinha acabado de entrar em março, mas na realidade, a faixa de riffs poderosos e contagiantes foi inspirada no caos do BREXIT, conforme revelado pelo frontman, Conor Mason, em entrevista.

“As coisas parecem estar ficando cada vez mais loucas e cada vez mais rápidas e é por isso que sinto que precisamos desacelerar e reavaliar tudo. Por que todo mundo precisa de tanta informação? Tanta atenção constantemente? Por que todo mundo tem tantas opiniões o tempo todo?”

Conor mason

O impacto imediato nas primeiras faixas de um disco é algo importante para impressionar de cara o ouvinte, e isso foi algo praticado com excelência pela banda britânica. A viagem a uma nova experiência do Nothing But Thieves se inicia com “Unperson“, faixa experimental, com uma guitarra altamente cativante e clara inspiração psicodélica. Os vocais de Mason trazem elementos até então nunca vistos em trabalhados anteriores da banda, como distorções e efeitos digitais bastante sutis, embora discretos. Logo em seguida, o primeiro single divulgado, “Is Everybody Going Crazy?“, tem como destaque um riff viciante, clara influência do Muse, mas apontando para uma direção de autenticidade em cima do conceito, e uso de sintetizadores que acompanham bem o groove da bateria.

Faixa que dá nome ao disco, “Moral Panic” “esfria” um pouco mais o ritmo no início, com a voz de Conor acompanhada a algo mais melódico e “silencioso” atrás, já com uma ponte pra algo que acelera a canção com a levada da bateria. Uma faixa bem intimista, diríamos. “Real Love Song” é uma baladinha com influência clara nos anos 80 e a utilização de sintetizadores pra mudar o ritmo/velocidade da canção. Agradando ou não, é uma canção que deve ecoar bastante nos shows deles pela sua pegada “épica” e ao mesmo tempo cativante, como outras canções já bem conhecidas da discografia.

Phobia” só confirma o que já sabíamos: o Nothing But Thieves não teve medo de experimentar. Com uma letra abordando ansiedades em relação a fama, a música tem duas partes. Na primeira, algo que remete a Billie Eilish, com um vocal mais retraído e um instrumental tímido. Na segunda, um riff mais presente e grave segue a trilha, fazendo com que a música cresça nos ouvidos de quem escuta, até chegar em seu ápice. Em seguida, “This Feels Like the End” tem uma introdução que é o “puro suco” de The Killers, mas que logo depois evolui com um riff e bateria poderosa, além do punk que a gente já conhece dos caras. Típica canção que alterna seu compasso de maneira recorrente em espaços de tempo.

As estruturas das músicas do Nothing But Thieves tem certa semelhanças e “Free If We Want It” segue no caminho, iniciando com apenas um piano e a voz de Conor Mason, mas que logo se encontra com todos os instrumentos em plena harmonia. Mais uma baladinha acertada, que sem dúvidas traz a marca registrada e essência da banda, além de um solo bem gostoso de viajar em cima. “Impossible” chega logo em seguida para desacelerar mais uma vez. É impossível (ba dum tss) apontar algo de errado nesta faixa. As texturas e melodias das guitarras, uma linha de baixo apaixonante e, claramente, a performance vocal de Conor Mason aqui é esplêndida e carregada de emoção. É interessante observar, mais uma vez, a construção e evolução vocal da segunda para terceira parte da música, com crescente que se inicia no segundo refrão. Talvez este seja o grande hit melancólico do álbum, como “Particles” foi em Broken Machine. “There Was Sun” segue numa linha parecida de Real Love Song, das influências em elementos eletrônicos, destacando-se os sintetizadores e a pegada psicodélica moderna na base da música.

A penúltima faixa do disco explora elementos de synthpop somado ao heavy metal que compõe a faixa mais “agressiva” não só do disco, como também de toda discografia. “Can You Afford to Be An Individual?” nos apresenta um trabalho excelente das duas guitarras, com um groove destacável, dançante, agitado e revoltante. O resultado é uma das faixas mais arriscadas e desafiadoras, com inegável influência do Rage Against The Machine nos vocais rasgados de Mason. Talvez a estrutura poderia ser um pouco mais trabalhada, mas a sua velocidade e alternância nos compassos não deixa ninguém parado do início ao fim. Para fechar com chave de ouro, “Before We Drift Away” é a típica faixa perfeita para encerrar um trabalho, com um violino lindo no fundo e a caminhada melódica e “limpa”, baseado na reflexão melancólica. Uma das composições mais lindas que o Nothing But Thieves já produziu.

O resultado é um trabalho honesto, ousado e autêntico de uma das bandas que prometem ter um futuro enorme no cenário do rock mainstream. Em Moral Panic, o Nothing But Thieves mostra a que veio com “os dois pés na porta”. É inegável que a banda não abre mão dos dois principais elementos que a consagraram: rock alternativo e baladinhas melódicas, quase “mela cueca”, que não os limita à apenas mais uma banda de rock no cenário alternativo. Eles sabem que a versatilidade musical é um de seus pontos fortes, usam isso a seu favor, e neste trabalho, mostram que não há limites para a criatividade, experimentalismo e possibilidades. O resultado é um álbum que deixa um gostinho de “quero mais”, além da curiosidade sobre o que aprontarão a seguir.

9.5/10
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