Décimo quinto álbum de estúdio de Bon Jovi, ‘2020’, traz nome polêmico, factual e faz fortes críticas ao modelo político americano; ainda assim, banda liderada por JBJ tem dificuldades em inovar e lançar novos hits

Inovar artisticamente em um gênero considerado “mercadologicamente ultrapassado” é um desafio. Este desafio parece ser maior ainda quando se tem quase 40 anos de carreira e mais de quinze álbuns, contando com coletâneas e ao vivos. Este parece ser o grande impasse criativo da banda Bon Jovi, liderada pelo carismático Jon Bon Jovi. Considerada uma das gigantes da velha guarda e clássico hard rock desde os anos 80, a banda não lança algo realmente animador há mais de dez anos.

Bon Jovi entregou seu último trabalho altamente prestigiado pela crítica em 2005, o saudoso Have a Nice Day. A partir dali, os sucessores Lost Highway (2007) e The Circle (2009) pareciam uma tentativa desesperada de repetir velhas fórmulas de sucesso em um novo mundo musical. Em 2013, o álbum What About Now parecia querer renovar a identidade da banda com uma pegada mais rocker, porém sem escapar muito da zona de conforto da segura e velha fórmula de baladas românticas, que mantém o interesse dos fieis fãs da banda. Uma das principais faixas do álbum, ‘Because We Can’, por exemplo, poderia ter sido um sucesso na voz de qualquer banda de música pop. O resultado foi um álbum fraco, com canções boas, porém facilmente esquecíveis.

What About Now também foi o último álbum que contou com as letras do guitarrista Richie Sambora, que deixou a banda em 2013 por problemas pessoais e divergências artísticas – lê-se briga de egos. Apesar de nunca esconder a vontade de se dedicar à projetos solos, a decisão do guitarrista foi repentina, em meio à turnê do álbum que naturalmente estava no topo das paradas americanas. Sambora estava confirmado para uma apresentação, até que Jon recebeu a ligação de seu agente afirmando que o músico decidiu permanecer no Havaí, e desde então, nunca mais voltou. Em entrevista, Richie afirmava que enfrentava um péssimo momento pessoal com um divórcio, morte do pai e lesões no ombro. A separação sem conflitos e aparentemente amigável se revelou problemática com o passar dos anos, quando Jon e Richie começaram a trocar farpas em entrevistas. A partir dali, as críticas em relação às letras fracas de Bon Jovi só aumentaram.

Richie Sambora e Jon Bon Jovi antes do divórcio artístico

Com o guitarrista Phil X, a banda lançou nos anos seguintes o completamente esquecível Burning Bridges (2015), cuja única música que merece um real destaque é We Don’t Run. O grande revival da banda aconteceu no ano seguinte, com o carismático This House is Not For Sale (2016). Munido de canções com forte potencial de hit, a banda parecia ter finalmente se reencontrado e voltado aos trilhos ao lado de Phil X. O sucesso do álbum rendeu uma dupla turnê mundial de quatro (QUATRO!!!!) anos, e claro, milhões e milhões de dólares para a conta de Jon, que não esqueceu como ser extremamente carismático no palco, como fazer fãs gritarem histericamente por seu sorriso, e como convencer fãs de que, em meio a inúmeros hits, algumas músicas da nova fase são boas. E claro, diferente do que Sambora e críticos pensavam, Jon não esqueceu como lotar estádios. Após quatro anos de seu último lançamento e praticamente nenhum descanso, Bon Jovi está de volta com seu novo álbum: 2020.

Momentos antes da desgraça acontecer

O que esperar de um álbum que leva o nome de um ano tão caótico? Em sua defesa, o álbum já tinha nome definido desde 2019, quando ainda não sabíamos a profunda tristeza e desgraças que o ano seguinte traria. Inicialmente previsto para o primeiro semestre do ano, o álbum foi adiado em decorrência da pandemia e novas faixas foram adicionadas para adequar o trabalho ao novo contexto que o mundo enfrentava. O que já seria um álbum bastante político e socialmente consciente, segundo Jon, se tornou ainda mais certeiro, como um dedo na ferida, com as faixas “Do What You Can” e “American Reckoning”, que abordam a pandemia e o movimento Black Lives Matter. Artisticamente, vindo do Bon Jovi, o que se pode esperar são riffs de guitarras genéricos, baladas de fórmula pronta e tentativas de repetir o sucesso de quase 40 anos de estrada. A realidade é que, talvez, Jon não tenha o menor interesse em se reformar artisticamente, e ostentando o título de um herói do rock clássico, prefira não sair da zona de conforto das baladas que falam sobre amor, a felicidade e positividade nacionalista, sofrimento e desilusões amorosas e orgulho americano que tanto fazem sucesso no país.

2020 – o álbum, não o ano -, já começa com mais uma música positiva sobre como a vida pode ser incrível e como todos nós podemos superar nossos desafios diários e ir cada vez mais longe. Limitless é um bom exemplo da tentativa quase desesperada de repetir o sucesso de hits clássicos da banda. A canção está longe de ser ruim, mas desperta a sensação de que você já ouviu umas dez iguais, com o mesmo arranjo sonoro e mesmo assunto. É exatamente a mesma fórmula que consagrou a banda há mais de trinta anos e ainda funciona para vender discos nos Estados Unidos. A faixa seguinte, Do What You Can, traz uma visão positiva (demais) sobre o isolamento social ocasionado pela pandemia, narrando como o ‘novo normal’ afetou a rotina das pessoas, e como todos nós superaremos isso fazendo o que está ao nosso alcance. Com referências propositais e bastante claras do country rock, esta é outra canção que não é nem um pouco ruim, só nada original. É quase possível acreditar no otimismo de Jon dizendo que tudo vai ficar bem, afinal, a música foi feita com o propósito louvável de trazer algum conforto emocional para a população americana. É relevante citar que o otimismo de Jon não se trata de uma faixada artística. O músico é fortemente engajado em causas políticas progressistas e programas de apoio social para pessoas em vulnerabilidade nos Estados Unidos. Jon também é dono do restaurante comunitário Soul Kitchen, parte da JBJ Soul Foundation, que serve diariamente refeições diárias por quanto as pessoas puderem pagar, ou em troca de participação em atividades de trabalho no restaurante. É possível alimentar uma família de quatro pessoas com apenas uma hora de serviços voluntários.

American Reckoning é uma forte crítica ao modelo político e social americano e aos EUA em geral. Na canção, Jon chega a citar “I can’t breathe“, frase que se tornou mártir após a morte do cidadão negro George Floyd, morto violentamente por um policial branco. O crime deu força ao movimento Black Lives Matter e início a protestos contra violência policial contra negros. A tentativa da banda em abordar um assunto tão sério e importante, tendo um público majoritariamente branco e nacionalista, é louvável. Musicalmente, a canção é mais uma com os mesmos traços que compõem um hit emocionante. Beautiful Drug retoma o ritmo rocker de grandes clássicos da banda, e chega a ser incrível quando você ignora a letra quase criminosa. Em uma tentativa de celebrar talvez a cura da COVID-19, que ainda não chegou, Jon pede para que rasguemos nossas máscaras porque nosso remédio é o amor(?), uma droga linda(?). Story of Love é outra linda e emocionante baladinha que fala sobre o amor familiar, crescer, se tornar adulto e manter a memória de que nada supera o amor de seus pais, e que um dia você cuidará deles assim como eles cuidaram de você. A letra é tão bela que é capaz de arrancar lágrimas dos desavisados.

Lower the Flag é mais uma canção que narra o sofrimento de vítimas da violência e suas famílias, e faz uma reflexão sobre a vida e a morte em arranjos bastante minimalistas. Blood on Water é uma agradável surpresa, e talvez até a mais forte do álbum. Os riffs iniciais de guitarra e melodia lembram os momentos dourados de glória da banda, enquanto a letra reflete o sofrimento de imigrantes deportados dos EUA e faz crítica à xenofobia, outro grave problema americano. A canção é a primeira do álbum que traz um solo de guitarra sensacional. Brothers in Arms é outra canção excelente que segue o ritmo crescente da faixa anterior e traz arranjos da melhor fase rocker que a banda tem a oferecer. Sonoramente, a faixa se encaixaria perfeitamente em um dos primeiros álbuns da carreira, porém, trazendo letras que criticam a desigualdade racial nos Estados Unidos. O álbum encerra com a intragável Unbroken que fala sobre o estresse pós-traumático de soldados veteranos de guerra, e fez parte do documentário “To Be Service”, da Netflix.

No geral, tal como o ano, 2020 é um álbum com tantos baixos quanto altos, onde Bon Jovi reforça mais uma vez que não tem a menor intenção de mudar sua fórmula de sucesso. Apesar da sensação de de ja vu em diversas faixas, Jon acerta e é honesto ao criar um álbum fortemente político, com duras críticas ao governo e o modelo de sociedade americana. As faixas mais factuais que contextualizam a pandemia e a necessidade do fim da violência policial contra negros conseguem ser ainda mais assertivas, como se a banda quisesse registrar na história todo o caos que esse ano trouxe. Jon não parece mais tão perdido sem Sambora, mas, aceitando que sua voz não é mais a mesma de vinte anos atrás, não se arrisca tanto em vocais ousados, e nem tenta repetir hits arrebatadores por conhecer bem seus novos limites. Ainda sim, é um álbum do Bon Jovi, e para a grande massa, a banda continuará vivendo de greatest hits. Todas as músicas soam e continuarão soando iguais, e continuarão vendendo extremamente bem.

6/10
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