Conhecida na cena do indie rock norte-americano, Phoebe Bridgers alcançou o público mainstream em 2020, principalmente, após o lançamento de Punisher, seu segundo álbum solo de estúdio. A qualidade de Phoebe com suas composições fez com que muitas pessoas passassem a se interessar por ela. Com seu álbum inserido em todas as listas de melhores do ano e a conquista de suas primeiras indicações ao Grammy, a cantora termina um ano tão turbulento no auge de sua carreira.

Planos antes da pandemia

Bridgers iniciou 2020 com grandes planos. Em janeiro foi anunciado que ela entraria em turnê com The 1975 e logo depois divulgaram sua participação em shows do The National, grandes formas de começar a divulgar seu futuro disco que seria lançado em junho, além de sua turnê como ato principal – a que seria a maior de sua carreira até o momento. A parceira de Phoebe com The 1975 acabou não sendo tão abalada pela pandemia. Claro, a turnê em conjunto foi adiada, mas em Notes On A Conditional Form (2020), a banda inglesa a convida para um dueto em “Jesus Christ 2005 God Bless America”. Uma canção de produção mínima, somente voz e violão, em que o tom sarcástico mostra como o duas pessoas solitárias compreendem o amor.

No primeiro mês do ano, “Garden Song” chegou nas principais plataformas de streaming, já dando um gostinho do que seria o seu novo álbum. A música possui o que Phoebe tem de melhor: sua sinceridade. Sem medo de ser bastante reveladora, ela realmente conta momentos de sua vida sem se preocupar com a interpretação que as pessoas podem fazer disso, por exemplo, no trecho “O médico colocou as mãos sobre o meu fígado / Ela me disse que meu ressentimento está ficando menor / Não, eu não tenho medo do trabalho duro / Eu recebo tudo o que eu quero”. “Garden Song” foi uma escolha certeira para a cantora iniciar sua nova era, por possuir elementos similares aos que estão presentes em seu primeiro álbum. No single, ela continua obcecada por muitas das assombrações que aparecem em Stranger in the Alps (2017). Elementos de sua infância, a inevitabilidade da morte e como lidar com as memórias nos acompanham brilhantemente por toda faixa.

Divulgação prévia do álbum

Em abril veio “Kyoto”, música totalmente distinta do que Phoebe havia apresentado até o momento em sua carreira solo. Nela, a guitarra melancólica é deixada de lado e somos surpreendidos por uma fanfarra alegre. Entretanto, a animação da música não condiz com o conteúdo de sua letra, que fala um pouco de seu relacionamento complicado com seu pai. Em entrevista com a The New Yorker, ela contou “Eu sinto tanta empatia e tanta raiva em relação a ele. Cada dia é um dia: estamos conversando, não estamos conversando? Qual é a vibe?”.

Em um primeiro momento, “Kyoto” seria mais uma balada em sua discografia, porém, seu produtor a incentivou a tomar caminhos mais arriscados, deixando a canção mais agitada ao adicionar sintetizadores e metais. O resultado colheu bons frutos, visto que a canção está indicada nas categorias “Melhor Performance de Rock” e “Melhor Canção de Rock” da próxima edição do Grammy.

Com a impossibilidade dos shows ao vivo e reconhecendo a situação delicada que estamos vivendo, a questão de como divulgar suas músicas antes do lançamento de Punisher sondou a cantora. Em maio veio “ICU” – UTI em português – contudo, por causa da pandemia, ela achou melhor lançar a música, naquele momento, com o nome de “I See You”. Precisando de novos espaços para cantar, as lives se tornaram uma ótima opção.  Tempos incomuns exigem ações incomuns e isso não seria diferente com Phoebe. Dessa forma, ela iniciou uma série de performances dentro de sua casa. A “Phoebe Bridgers’ World, Tour” contou com quatro datas e três locações inusitadas: sua cozinha, seu banheiro e sua cama. Fora dos shows “marcados”, ela também fez algumas aparições em programas de televisão, mas também em situações inusitadas. No programa do Jimmy Kimmel ela cantou de dentro de sua banheira e se apresentou no “The Late Late Show with James Corden” enquanto fazia manobras de carro em um estacionamento.

Punisher e a aclamação da crítica

No mês seguinte, o momento tão aguardado veio: Punisher finalmente já podia ser ouvido em todo o mundo, porém, com um detalhe. O álbum estava programado para sair no dia 19 de junho, mas foi lançado no dia 18. O motivo? Phoebe quis. Naquele momento, diversos artistas estavam prolongando o lançamento de seus álbuns por causa da COVID-19 e também pelos protestos do movimento “Black Lives Matter”. Se solidarizando com as manifestações, Punisher veio um dia antes, pois como ela colocou em seu Twitter: “Eu não estou adiando meu álbum até que as coisas voltem ao “normal” porque eu não acho que elas deveriam. Aqui está ele um pouco mais cedo”.

Punisher possui oito faixas inéditas mais os três singles previamente lançados. Dentre as participações, temos suas colaborações usuais com Conor Oberst, Lucy Dacus e Julien Baker. Além delas, Jenny Lee Lindberg do Warpaint, Nick Zinner do Yeah Yeah Yeahs e Nathaniel Walcott – colega de Oberst no Bright Eyes, também estão creditados no álbum. Com 90 de pontuação no Metacritic, ele possui 31 reviews de portais especializados e todas foram positivas. Assim, Punisher é considerado pelo site o quinto melhor álbum de 2020, ficando na frente de grandes nomes da música atual como Taylor Swift e Dua Lipa. Em trecho de sua review, o site Sputnikmusic descreveu Punisher como “um produto de sua época, mas que também só poderia ser feito por Phoebe Bridgers. Ela é a única artista em quem consigo pensar que tem a ambição e elegância para enfrentar dois mundos em ruínas ao mesmo tempo: o que está em sua mente e o que está do lado de fora de sua porta”.

Dentre as músicas que se destacam na obra, temos a faixa título, em que Phoebe homenageia um de seus maiores ídolos, Elliott Smith. Por ter 26 anos, a cantora faz parte da geração que só teve acesso as músicas dele após o seu falecimento em 2003. Mesmo assim, a própria em inúmeras entrevistas já o citou como sua grande referência e que conhece tudo sobre ele. Em entrevista para o NPR, Bridgers contou que a música de Smith é algo além de uma influência, é absolutamente fundamental. Em trecho ela conta que “É como os Beatles para mim, e quero dizer isso em todos os sentidos”. Na música “Punisher”, Phoebe pensou em como seria um possível encontro dos dois e que provavelmente seria estranho, pois ela é uma super fã.

Outra faixa interessante é “I Know The End”, a última do álbum. Em uma canção apocalíptica, Phoebe descreve sua visão de mundo, ao mesmo tempo que utiliza de vários elementos da cultura americana e acontecimentos recentes. Completando sua obra, no final da canção, Bridgers e seus principais colaboradores berram em conjunto que “o final chegou”, em uma brincadeira de que sim, Punisher realmente chegou ao seu fim, mas também o mundo está acabando.

Transmissões ao vivo

Dentro das pouquíssimas possibilidades de se realizar shows respeitando as medidas de saúde, Phoebe conseguiu participar de dois eventos interessantes: uma transmissão direto do icônico Red Rocks Park e outra no #SOSFest. O primeiro foi uma apresentação dentro de uma série de três dias de lives promovidas pela Visible, empresa de telefonia norte-americana. Com a banda completa, ela cantou as músicas “Punisher”, seus principais singles do Stranger in the Alps e uma canção do boygenius, direto do anfiteatro Red Rocks. A interação com o público vinha através de seus celulares, sendo possível escolher a cor da iluminação do palco, enviar mensagens para aparecer no telão e votar em qual música deveria entrar no setlist, tudo direto de suas casas.

No meio do set, um dos membros da banda fez um comentário sobre como esse novo meio de fazer shows é estranho e como ele sente falta de ver alguém bêbado na plateia gritando que eles são péssimos. Conciliando suas músicas tristes com piadas descontraídas, o show virou um registro interessante do tempo atual. A apresentação se encontra completa no YouTube.

Transmitido diretamente no Youtube, Bridgers participou do #SOSFest, um festival online com o objetivo de levantar dinheiro para casas de shows que foram afetadas pela pandemia. No mesmo dia de sua apresentação, Foo Fighters e Miley Cyrus também performaram. O local escolhido pela artista foi o Troubador em Los Angeles, mesmo lugar que ela tocou quando tinha apenas quinze anos. Em um set curto, de apenas sete músicas, ela conseguiu encantar as pessoas virtualmente e levantar dinheiro para uma boa causa.

Saddest Factory

Em parceria com a Dead Oceans, Phoebe Bridgers lançou sua própria gravadora em outubro. A Saddest Factory possui uma visão simples, a de ter boas canções independente do gênero. A ideia veio depois do Bright Eyes, banda de seu parceiro musical Conor Orbest, assinar com a Dead Oceans, fazendo Phoebe se questionar o motivo dela não ter sua própria gravadora.   Para sua própria surpresa, ninguém se mostrou contrário à sua decisão e assim seu projeto foi iniciado. O primeiro artista que assinou com a Saddest Factory foi Claud, que já possui um single disponível.

Promessa com Donald Trump

Sempre ativa em suas redes sociais, no última dia de votação nos Estados Unidos, Phoebe postou em seu twitter que caso Trump não fosse reeleito, ela iria lançar um cover da música “Iris” do The Goo Goo Dolls. A brincadeira se tornou séria quando a própria banda respondeu o tweet assim que Joe Biden declarou sua vitória, com um “Nós ganhamos!”. Quem embarcou na ideia foi Maggie Rogers e no dia treze de novembro, o cover estava disponível no Bandcamp com todo o dinheiro sendo doado para a Fair Fight, uma organização que visa promover eleições justas na Geórgia e em todo os EUA, incentivando a participação dos eleitores nas eleições e educando os eleitores sobre as eleições e seus direitos de voto. Em uma semana, trinta e oito mil downloads foram feitos, o que fez com que as duas cantoras entrassem pela primeira vez no Billboard Hot 100 e alcançando a primeira posição no chart na categoria “Digital Song Sales”.

Copycat Killer EP

Com o sucesso de Punisher, um EP com quatro faixas do álbum foi lançado. Entretanto, com um diferencial, todas as músicas agora são orquestradas, de modo que sua voz agora está rodeada por arranjos devastadores. Nesse caso, a animada “Kyoto” passa a ser dramática, com a voz de Phoebe sobrecarregada em cima das cordas. Enquanto na versão original conseguíamos nos divertir com as suas “aventuras” pelo Japão, agora as questões pessoais da letra ficam mais claras: a tentativa de parar de amar alguém querido e o pai que esquece do aniversário do filho, por exemplo. “Savior Complex” que em sua versão original já possuía uma seção de cordas, agora está mais aterrorizante, com mais violinos e violoncelos. O EP foi uma ideia bonita para a artista explorar seu som e também reconhecer as diferentes facetas que Punisher pode possuir.

Dentro dos últimos doze meses, Bridgers foi incansável no trabalho de promover seu álbum e sua figura. De forma que o esforço foi totalmente recompensado. Em novembro, veio sua nomeação em quatro categorias do Grammy, incluindo a de “Artista Revelação”. Além disso, Punisher está presente em todas as listas de melhores álbuns do ano, chegando a ser considerado o número 1 do ano pela DIY Magazine. Fica agora a vontade de acompanhar os próximos passos da artista.

Ouça “Punisher”:

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