Red (Taylor’s Version) transforma um clássico em lenda

Red (Taylor’s Version) redefine o álbum que nomeou Taylor Swift a maior compositora da atualidade e se consolida rapidamente como um clássico. Mais sagaz, honesto e cruel do que o original, lançado em 2012, a versão de 2021 permite a Swift a reescrita de sua história, agora em seus próprios termos.
Red (Taylor's Version)

Durante o último ano, Taylor Swift deu início ao seu mais ambicioso projeto até então: regravar os seus seis primeiros álbuns. Depois de uma batalha pública pelos direitos autorais de suas canções, “que [escreveu] no chão do [seu] quarto“, Swift deu a volta por cima, com a decisão de revisitar seus antigos trabalhos em versões chamadas “Taylor’s Version”Red é o segundo álbum da artista a ser recordado, com Fearless, outro entre seus maiores sucessos, recebendo uma nova versão mais cedo este ano.

Para além das antigas e clássicas faixas já conhecidas do público, os “Taylor’s Version” têm sido uma oportunidade para a artista rever outras canções escritas à mesma época que, por algum motivo, não chegaram ao produto final dos álbuns originais. É o caso de hits instantâneos como “Mr. Perfectly Fine” em Fearless. É o caso, também, de “All Too Well (10 Minute Version)”.

Você tem dez minutos?

Aguardada, desejada e excessivamente comentada entre fãs, a versão de 10 minutos de “All Too Well” enfim viu a luz. Guardada a sete chaves em “uma gaveta aí”, a faixa estendida conta com o dobro de duração do que a já favorita dos fãs e com as letras em sua versão bruta. Apesar de altamente estimada, a canção surpreende sendo ainda melhor e crua do que poderíamos imaginar.

Nos dez minutos, Taylor expõe momentos singulares de sua relação com o ator Jake Gyllenhaal em algumas de suas mais fortes composições. “And I was thinking on the drive down, any time now / He’s gonna say it’s love, you never called it what it was”, a artista canta ao segundo verso. Ao terceiro verso, a cantora cita All’s Well That Ends Well de Shakespeare, sete anos antes de o fazê-lo novamente – em uma nota feliz – em “Lover”. Em outro momento, a artista traça comentários sarcásticos sobre a diferença de idade entre o casal e recorda um dos eventos mais marcantes do relacionamento, quando o ator não foi ao seu aniversário de 21 anos.

Mais profunda, dolorosa e honesta, a nova versão também brilha em sua produção. A voz mais madura de Taylor não traz a mesma raiva e dor de quase dez anos atrás, mas entrega mais sabedoria e audácia. E, com mais experiência e renome, a artista se permite uma instrumentalização mais arrojada, semelhante à de seus últimos álbuns. A faixa finaliza também completamente diferente, com um fade out de Swift a repetir “It was rare, you remember it all too well”. Ao final dessa jornada fica claro que essa versão é a nova standard version de uma das melhores músicas de Swift.

Um novo brilho nos clássicos

“All Too Well” como tão bem conhecemos, em seus cinco minutos de glória, também está disponível na nova versão do álbum. Assim como estão outros clássicos como “We Are Never Ever Getting Back Together”, “I Knew You Were Trouble” e “22”. Eles estão, contudo, um pouco diferentes. Os instrumentos ganham mais destaque, assim como a voz amadurecida de Taylor se faz perceber em quase todas as canções.

Enquanto se ouve o álbum é impossível, também, não refletir sobre como a vida tão pública da artista mudou desde então. A mesma que canta sobre um amor “vermelho ardente” (ou “burning red”) veio a descobrir que o amor na verdade é dourado. E anos depois de escrever “Holy Ground”, a mesma veio a escrever “Cornelia Street” e “the lakes”. “Come Back… Be Here” também ganha um novo brilho ao pensar no duradouro relacionamento de Taylor com o britânico Joe Alwyn.

A maior alteração sonora, contudo, vem onde talvez menos se esperava. Uma das canções mais esquecíveis de Taylor, “Girl At Home”, ganha uma nova chance com a produção de Elvira Anderfjärd. A produtora sueca já trabalhou com a cantora outras vezes, em “willow dancing witch version” e “Love Story (Taylor’s Version) – Elvira Remix”. Em “Girl At Home”, Elvira adiciona sons externos que se assemelham à correria do trânsito e elementos electro-pop que transformam a música de Red em algo digno de 1989.

O que ainda não estava dito
Red (Taylor's Version)

Taylor já disse em algumas entrevistas que Red é um trabalho menos pop do que ela desejava. Agora, completamente autônoma para entregar o álbum que sempre sonhou, a artista mostra o que idealizava em 2012. “Message in a Bottle” e “The Very First Night”, faixas anteriormente desconhecidas, representam bem o que a cantora esperava. A primeira marca um dos primeiros trabalhos da artista com Max Martin e Shellback e pode ser melhor descrita como “1989 antes de 1989”. A última recorda com um sorriso no rosto um relacionamento da artista, em uma vibe semelhante a de “Starlight”.

Red (Taylor’s Version) conta também com “I Bet You Think About Me”, com participação de Chris Stapleton, uma faixa de country como em muitos anos ficaríamos sem ouvir. Com um sotaque caipira e muita acidez, Taylor tece comentários sarcásticos sobre um ex que “ria dos [seus] sonhos e revirava os olhos às [suas] piadas”.

“Run”, a primeira música que Swift escreveu com Ed Sheeran, também está entre as inéditas. A faixa é um country pop doce, simples e talvez um pouco genérico. A execução, contudo, é viciante e, como sempre, as vozes dos dois amigos são um belo conjunto.

Outras canções inéditas são “Better Man” e “Babe”, hits nas vozes de Little Big Town e Sugarland, ganham uma nova vida na voz de sua compositora. “Ronan”, também já conhecida do público, abre as canções From the Vault. Escrita com base nos posts de Maya Thompson, mãe de Ronan, a música fala sobre a criança que aos quatro anos faleceu de neuroblastoma. Difícil de ouvir, a canção tem todos seus lucros repassados para financiar pesquisas sobre o câncer, incluindo a fundação que a família Thompson fundou em nome de Ronan.

Um clássico se transforma em lenda

“Forever Winter” é talvez uma das primeiras faixas na discografia de Taylor a abordar o tema de saúde mental. A canção é sonora e liricamente assombrosa. “Vivo minha vida morrendo de medo que ele decida partir”, a artista canta na que pode ser considerada uma versão mais inocente de “Renegade”. É, contudo, “Nothing New” que mais chama atenção entre as inéditas. Com participação de Phoebe Bridgers e uma temática semelhante à de “The Lucky One”, a faixa demonstra uma preocupação constante de Taylor de como ela seria vista depois de deixar de ser “algo novo”. É impossível ouvir a canção e não pensar nos eventos que se seguiriam na vida da artista, poucos anos depois.

Red (Taylor’s Version) é, indubitavelmente, o trabalho mais completo da artista até então. Desde seus relacionamentos mais marcantes aos receios de uma jovem artista na indústria musical, o álbum se sente como um diário. Um diário de uma longa jornada que se transforma em lenda, Red é o trabalho maestral de Taylor Swift a que nos voltaremos continuamente durante as próximas décadas.

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