Nostálgico, Terno Rei questiona a pressa, as perdas e o tempo em ‘Gêmeos’

Sem deixar a essência de lado, quarto álbum de estúdio da banda é um grande convite à reflexão do que a pandemia fez conosco.
Terno Rei álbum Gêmeos
Capa do álbum “Gêmeos”, novo lançamento da banda Terno Rei

Uma banda de São Paulo com mais de 10 anos, mas que veio ganhar maior destaque em 2019 com o grandioso “Violeta”. Terno Rei volta aos estúdios três anos depois com um mix de tudo que já fez até aqui. Em “Gêmeos”, uma obra sobre juventude, mas que não se deixa levar por questões fúteis, o quarteto formado por Ale Sater, Bruno Paschoal, Greg Maya e Luis Cardoso lançam o álbum pretensioso da carreira.

O vocalista e compositor de grande parte das músicas, Ale Sater, demonstra ao longo do disco que a pandemia da Covid-19 foi um momento de transformação pra si e não deixa de questionar a própria inquietação interna, além daqueles que estão ao seu redor e do mundo que vivemos. Além disso, é claro, sem deixar de lembrar do passado. Ale assume o papel de “front-man” nos clipes, e por que não?

Os singles “Dias da Juventude”, “Difícil” e “Avião” já dariam o tom da obra. Mas a banda teria mais a dizer. A primeira canção, inclusive, foi a primeira novidade a ser tocada nos retornos aos palcos no fim de 2021.

Por que tanta pressa?

A procura por calma e o fim da correria. “Gêmeos” começa sua jornada com a elétrica “Esperando Você”. Com um refrão cheio de sintetizadores e o belo vocal de Ale, é uma música que avisa: hoje não farei nada. Afinal, quem não se sentiu pressionado pelo tempo e capital na pandemia?

Melhor desligar, amor
Se der pra fazer depois
Vou deixar
Vou deixar, ah, ah

Terno Rei – Esperando Você

O álbum segue com a nostálgica “Dias da Juventude”, primeiro single divulgado ainda em 2022 e que tem um clipe muito bem produzido. A canção remete aos primeiros trabalhos da banda, como no pouco conhecido “Metrópole”. Por exemplo, na obra citada anteriormente, o quarteto faz bom uso dos backing vocals. Aqui não é diferente.

Em “Sorte Ainda”, a primeira parte do “Gêmeos” se entrega à melancolia. Sabemos que os últimos anos não foram fáceis e a banda entende isso. Mas sorte “o dia que eu decidi ficar, meu coração não parte mais”.

A transformação de Terno Rei

Na sequência, “Difícil” parece mostrar o resultado de todo esse questionamento. É uma música com claras referências ao post-punk, que liricamente mostra que o processo de transformação ganha um caminho. Da mesma forma, o clipe segue essa linha e também é de muito bom gosto. Curtimos.

Fiz as pazes comigo

Cê não acha bonito?

Terno Rei – Difícil

Posteriormente, a segunda parte da obra é a mais lenta e reflexiva. As guitarras elétricas funcionam bem nas agradáveis “Brutal” e “Internet“. A última, inclusive, crítica suavemente o papel que o digital vem ganhando em nossas vidas, uma vez que a Covid-19 nos forçou a sermos seres em frente à tela quase que o tempo inteiro.

No último single “Aviões“, Terno Rei vai ao centro da mensagem. Vemos o mundo passar ao nosso redor, o tempo passar, pessoas partirem, amigos partirem e até pedaços de nós mesmos irem embora. Foi o “ano mais triste de nossas vidas”, mas que “bom ver você de novo”.

Aviões
Já não passam pelas redondezas
Estações
Estão virando contra minha janela

Terno Rei – Aviões

A última saída

A última parte do disco é mais intimista, e talvez até mais otimista. Em síntese, “Só Eu Sei” e “Retrovisor” tem sonoridades semelhantes. Logo depois, “Isabella” é a canção mais “romântica”, no sentido mais subjetivo da palavra para um álbum como “Gêmeos”. Juntamente com “Trailers”, que também faz referência às próprias composições do vocalista.

“Olha Só” encerra o álbum com grande estilo. No momento em que sentirmos tudo que a vida vem tentando nos mostrar, o que seremos daqui em diante é responsabilidade nossa. Quem não percebeu que é tempo de mudança, ou pelo menos, de tentativa: a hora é agora.

Será que todo mundo é tão melhor assim?
Será que eu cresci mais que minhas roupas, mais que minhas coisas?
Olha só, eu me doei todo
Eu me doei até as últimas feridas
Dessa vez, não tem mais volta
Essa vai ser a minha última saída

Terno Rei – Olha Só

Gêmeos” é nostálgico no instrumental. Abusando das referências aos anos 80, Terno Rei não decepciona. E por que decepcionaria? Afinal, o grupo nunca deixou de admitir suas origens da MPB, do rock nacional e de qualquer outro gênero. E nunca, nunca com um falso saudosismo.

Liricamente, é denso, sensível e um belo presente aos fãs, como esse que vos escreve. Longa vida à Terno Rei.

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