Nono disco da banda britânica atinge um nível técnico gigantesco, reflete sobre questões existenciais e profundas e mostra um grupo sem medo de se aventurar por vários caminhos

Por Gêra Lobo e Fábio Forni

Já é de conhecimento dos fãs de hardcore/metalcore que o Architects é, há muito tempo, um dos ou, talvez, o principal nome do cenário. Mesmo com um “tropeço” ou outro no caminho, o grupo liderado pelo vocalista Sam Carter se consolidou bastante como um dos queridinhos do cenário, principalmente desde o terceiro disco, o elogiado “Hollow Crown” (2009). Como de costume na trajetória de muitas bandas que apareceram no final dos anos 2000, os britânicos foram adaptando seu som como a cena pedia. Após o aclamado “Holy Hell” (2018), penúltimo disco da banda, que já demonstrava uma mudança de som necessária, mas nunca perdendo a essência e autenticidade, a pergunta era: qual será o novo passo do Architects? Bom, a resposta está aqui.

Com letras focando na catástrofe climática que terá um impacto em cada ser humano neste planeta, destacando, em várias fases do álbum, uma espécie de “pessimismo” em relação ao “fim do mundo”, a banda escolheu um caminho profundo liricamente. Esse é o tema central do álbum, mas abordado de formas distintas durante sua construção, seja de maneira mais furiosa ou cínica. Como de costume, o Architects tentou tratar assuntos preocupantes da sua maneira. Ele leva o ouvinte a uma reflexão importante e necessária.

Tecnicamente falando, a banda acertou em cheio simplesmente tudo que tentou buscar nesse trabalho, e, repetindo, sem perder a essência. Os elementos eletrônicos estão bem presentes desde o início, mas, ao mesmo tempo, eles não perdem riffs pesados, impactantes, nem a bateria frenética, mas que, muitas vezes, acompanham de forma perfeita toda a construção. Os vocais de Carter merecem destaque aqui. Por mais que siga tendo sua gritaria característica, ele tratou de ser mais melódico nesse sentido, além de adicionar elementos distintos a sua voz. Fez questão de manter sua força, mas também variando para momentos menos “pesados”. Pode-se dizer, no geral, que a banda se inspirou bastante em muitos elementos utilizados pelo Bring Me The Horizon, principalmente do “Sempiternal“. Se funcionou? Sim, muito.

Faixa a faixa

Do You Dream Of Armageddon?” inicia o novo trabalho da melhor forma que o Architects conhece: ambiência, imersão e preparo, requisitos importantes se você se propõe a apreciar qualquer trabalho dos caras. É possível e facilmente notável a direção que esse álbum irá tomar. Por meio desses 1:38 de intro, o ouvinte é teletransportado pra dentro da igreja que o astronauta da capa se encontra estático, admirando a imensidão de dentro do seu capacete espacial. Depois, em “Black Lungs“, os arquitetos destroem tímpanos com um groove absurdamente pesado e intenso, partindo de Sam Carter berrando no melhor estilo ‘cachorro louco’, mostrando que existe muita lenha para ser queimada. Apesar da faixa ser simples, a montanha russa que ela apresenta, acompanhada do breakdown presente na caída da música, é um alento para os fãs.

Terceira faixa, “Giving Blood” começa com um riff, acompanhado de Dan Searle segurando a percussão majestosamente, enquanto a música ganha forma e entra em um refrão que suga o ouvinte para outra atmosfera. Essa faixa lembrou muito o antepenúltimo trabalho do Bring Me The Horizon, “That’s The Spirit“, muito provavelmente pelos sintetizadores presentes no decorrer da faixa, algo que fez um bem e tanto para essa fase da banda, já adianto. “Discourse Is Dead” é uma música que poderia facilmente abrir um show, colocando um estádio/arena inteiro pra pular, enquanto se quebram ao som do verso. O refrão dela é algo acalentador, e só reafirma o quão bom é o vocal limpo de Carter. O instrumental desta quarta faixa é aquilo que logo esperamos da banda: intensidade, entrega e emoção.

Architects - Foto: Divulgação
Foto: Divulgação/Architects

Dead Butterflies” saiu como o terceiro single do novo álbum, mesmo os caras tendo apresentado ela no live que fizeram no Wembley Stadium. Muito provavelmente é a faixa com mais entrega e genialidade do álbum, começando pelo fato de existir uma orquestra tocando tanto no verso, como no refrão (o mais bonito do disco, na opinião do Fábio aqui). Os vocais dobrados na caída da música mostram justamente outros aspecto ligado a genialidade, apresentando logo em seguida uma linha pesada e cadenciada. Genial, simples assim. Sexta faixa, “An Ordinary Extinction” apresenta uma intro frenética e “groovada” que quebra o pescoço dos desavisados, e torneia a nuca dos fãs com facilidade. Com um aspecto mais moderno, apresenta diversas linhas que poderiam facilmente fazer parte de um álbum progressivo, combinando com os sintetizadores perfeitamente executados durante a música.

Impermanence” é a típica faixa de meio de álbum, quebrando o estigma de faixa calma, mostrando o peso e ambiência que só eles tem de carta na manga. Como convidado, temos o poderoso vocal da banda Parkway Drive, Winston McCall, destruindo o ambiente com seu vocal banhado de morte. A única coisa que me vem na mente ouvindo esse som é: imagina esses dois dividindo palco nessa track? O Armageddon é real, acreditem! Após esta porrada, “Flight Without Feathers” nos apresenta um Architects jamais visto, em uma faixa bem intimista, com elementos eletrônicos que criam um clima gostoso e Carter detonando nos vocais. Ela se mantém simples, sem peso e certeira do início ao fim.

É a vez de, provavelmente, uma das faixas de maior destaque do disco. Em “Little Wonder“, que conta com a participação do fantástico Mike Kerr do Royal Blood, a banda entrega uma música dançante, veloz, com uso de sintetizadores, uma bateria incrível e, acima de tudo, um riffdown/breakdown de bater cabeça. Sem dúvidas, uma das composições mais impecáveis de toda discografia da banda. Depois, é hora de admirar o single que iniciou toda essa nova era do Architects. Animals” não é nada muito fora do comum, mas é simples, eficiente e pesada, com destaque para um riff carregado, elementos que deixam a canção com toques épicos e, talvez, o melhor refrão de todo o álbum, que te faz gritar junto com Carter. Ah, mais um breakdown certeiro.

Seguindo em mais porrada, “Libertine” é outro destaque, iniciando com elementos que lembram o Linkin Park, mas logo entra em outro riff pesado e gritos de Sam Carter (ufa, voltou!). É claramente uma faixa que nos remete bem ao “Holy Hell”, pois é pesado, mas logo entre num refrão melódico e muito bem feito. Outra construção absurda dos britânicos. A atmosfera “cinemática”, algo que eles quiseram entregar aqui, dá suas caras novamente, mas de maneira agressiva, com “Goliath“, parceria com Simon Neil, líder do Biff Clyro. Faixa de muita energia, mas que sabe alternar suas fases e prepara o ouvinte para mais um breakdown e gritaria na parte final.

Demi God” chama atenção pela forma orquestrada como a música é conduzida, principalmente no seu refrão. Pode agradar uns e outros não, mas podemos dizer que é uma das faixas mais diferentes e intrigantes de todo o álbum, pois conta até com um piano. Último single lançado, “Meteor” é uma faixa que tem suas partes mais pesadas e enérgicas, mas que o grande propósito parece ser ligar os sintetizadores e linhas de guitarra como se tivessem que se livrar de uma montanha de melodia excedente.

Para terminar esse trabalho incrível com chave de ouro, “Dying Is Absolutely Safe” é dramática, com violinos que parecem iluminar todo o lugar para trazer um fim despojado de uma jornada extremamente cansativa. É uma faixa delicada, de muita compaixão e sentimento envolvido. É o típico de faixa perfeita para finalizar um trabalho, com seu vocal simples, intimista, arranjos lindos, pianos e tudo que precisa para fechar uma linda história contada em quase 60 minutos.

Architects. Foto: Divulgação.
Foto: Divulgação/Architects

O Architects não poderia ter acertado mais no nono disco da carreira. Eles focaram muito mais em produzir o que queriam, do que exatamente seguir uma linha que o críticos ou até os fãs pediam, mesmo após evoluírem seu som no “Holy Hell”. Dá pra sentir em tudo feito no trabalho, desde as letras, passando pelas mudanças pessoais de cada um dos participantes até o instrumental mais distinto dos seus últimos discos que eles quiserem se adaptar a algo que chegasse mais perto dos seus instintos.

É começo de ano, muita coisa ainda vai acontecer no mundo da música, ainda mais em tempos de pandemia com muitos artistas trabalhando para entregar trabalhos redondos, mas é difícil apontar algo errado ou irregularidade em “For Those That Wish To Exist“. Se é o melhor álbum da carreira de uma banda tão consagrada na música não sabemos, ainda mais por fãs acostumados com aquele metalcore firme do início/meio da banda, mas que figura, pelo menos, no mais produzido, sim, isso é um fato.

NOTA: 10/10

Faixas destaque: “Little Wonder (feat. Mike Kerr)”, “Giving Blood”, “Impermanence (feat. Winston McCall)”, “Animals” e “Dying Is Absolutely Safe”