Sibipiruna é uma árvore de grande porte nativa da Mata Atlântica que é muito comum em boa parte do país. Tão comum que muitas vezes sua beleza passa despercebida, mas não para a banda De um Filho, De um Cego, que tira inspiração da simplicidade da vida. Em tempos de pandemia e isolamento social, encontrar criatividade entre quatro paredes é um privilégio para poucos, mas o quarteto paranaense consegue tirar poesia de dias nublados e melancólicos, o que resultou no Mente e Andorinha, um EP duplo, ou “um disco dividido em dois lançamentos”, como Lucas Waricoda, guitarrista e vocalista, descreve.

O lançamento vem a partir de uma observação interessante do mercado musical, principalmente num período de quarentena, que a música está sendo consumida rapidamente e logo esquecida, por conta da ausência dos shows. “Foi uma questão mercadológica, pra entender como nossa música é consumida e as possibilidades que a gente tem de lançamento”, comentou o vocalista em entrevista ao ROCKNBOLD. “Desde o começo a nossa preocupação foi que a galera sentasse e escutasse o trabalho do início ao fim, do jeito que a gente consome música hoje.”

“O Andorinha fecha esse ciclo de lançamentos, ele vem com um ar mais maduro de produção. O próprio EP Mente trouxe isso pra gente, essa bagagem de estúdio e do que a gente queria almejar como próximo ‘trampo’, o passo que a gente queria dar  e a provocação que a gente recebeu há muito tempo atrás, de misturar nosso trabalho com referências brasileiras.”

Falando mais sobre o consumo depressa e acelerado de lançamentos musicais, Lucas comenta sobre uma “overdose de tecnologia”, misturada à pressão pela rapidez de informações. “Foi legal ver a resposta de ambos EPs e ver quem gosta do último lançamento voltando pro primeiro, e então ouvir os dois EPs seguidos.” Em 2021, a banda agora se prepara para lançamentos ainda mais curtos, justamente para experimentar uma outra dinâmica. “Vamos lançar singles, experimentar um novo formato de música e mais pra frente formar um EP.”

De Um Filho De Um Cego

Direção de arte de Mente e Andorinha

“Foi uma provocação com nós mesmos”, brincou Lucas durante a entrevista, refererindo-se aos grandes improvisos que a banda costuma fazer. “Quando tivemos a ideia de lançar dois EPs separados, um dos desafios foi fazer capas diferentes, e então decidir se seriam capas que se completam ou formam uma terceira capa.”

A brincadeira resultou numa colagem feita à mão produzida por um colega da banda, Matheus Castro. “A gente queria essa ideia de transformação, com todo o conceito do que o disco representava pra gente. Nós nunca nos vinculamos a nada, então foi um passinho pro lado que decidimos dar.”

O conceito de “transformação”, inclusive, veio da própria natureza, que originou o single Sibipiruna e acabou influenciando nas canções dos dois EPs. “Os elementos [da capa] fazem referência às músicas, a gente fala sobre céu, rio, natureza, da presença da natureza, da observação e se permitir se inspirar pela natureza.”

De 2016 para cá

De um Filho, De um Cego possui um álbum lançado, em 2016. Quando questionado sobre o intervalo entre Outros Verões e Mente/Andorinha, Lucas afirma que a banda “se encontrou”. “Pra gente foi difícil entender esse processo todo, porque De um Filho, De um Cego surgiu de uma experiência minha em 2009 de quebrar uns vínculos com a minha adolescência, tanto geográficos, quanto emocionais e afetivos que não faziam mais sentido pra mim”, começa.

De um filho, de um cego

“Quando a gente fala que a banda é um diário, é porque é mesmo. Eu consigo ver o nosso amadurecimento, lendo as letras, escutando os arranjos… foi uma fase de transformação pra algo que a gente não sabia o que ia acontecer”, revela. “Então surgiu num formato um pouco disruptivo, mas meio esquisito […] A gente é um som que fica num limbo, é indie mas psicodélico; não é MPB e nem rock; a gente fica nessa incógnita total.”

Lucas acrescenta que 2016 foi uma mudança da banda como indivíduos, não apenas músicos, o que fez o grupo perceber a qual lugar pertencia e quais seus vínculos: apenas eles mesmos. “A cada dia que você tem uma experiência, você se transforma e aquilo impacta na maneira que você olha para as coisas. A gente não tem medo de não ser a gente e não parecer ‘com nada’.”

Ouça De Um Filho, De Um Cego: