A autenticidade agressiva e melódica do While She Sleeps

Banda britânica mistura as próprias influências ao entregar um metalcore robusto, agressivo, melódico e autêntico.

O gênero do metalcore nos presenteou com grandes bandas neste século por conta de seu exponencial crescimento. Bring Me The Horizon, A Day To Remember, Architects, Parkway Drive e Of Mice & Men são alguns poucos exemplos de artistas de grande sucesso do estilo, porém, muitas delas ganham cada vez mais destaque – principalmente na última década – por seus excelentes trabalhos; entre elas, um grupo de Sheffield, na Inglaterra, que já se consolidou como um dos maiores nomes do metalcore no planeta: While She Sleeps.

Início, estilo musical e influências

Formada em 2006, banda britânica foi inicialmente formada por Jordan Widdowson (vocal), Sean Long (guitarra principal e backing vocals), Mat Welsh (guitarra de ritmo, piano e vocal), Aaron McKenzie (baixo e backing vocals) e Adam Savage (bateria e percussão). Com a formação inicial, eles lançaram dois EPs para iniciar sua jornada: And This Is Just The Start (2006) e Split (2009). Porém, após isto, Jordan deixou a banda por conta de outros trabalhos, abrindo espaço para a chegada de Lawrence Taylor (“Loz”), frontman da banda até os dias atuais e que trouxe uma energia ainda mais absurda para o quinteto. Com Loz, mais um EP fora lançado em 2010, o “The North Stands for Nothing”.

Depois disso, a banda começou a trabalhar em seus discos completo. Antes de tudo, é necessário explicar em que consiste o estilo e vertentes musicais dos ingleses. O While She Sleeps é uma banda de metalcore mas também conta com influências de outros gêneros, como o hardcore-punk, alternative metal e punk rock. Os caras se destacam pela bateria bem acelerada, os vocais altamente potentes (principalmente do vocalista Taylor) e as guitarras acompanhando muito bem todo o ritmo, seja de maneira mais veloz e pesada na construção das faixas ou de maneira mais melódica, com destaque para os refrões.

A verdade é que o While She Sleeps é uma banda com uma pegada muito agressiva, guitarras presentes e num tom excelente pra quem curte algo mais pesado, mas também se destaca por sua inteligência melódica na construção e composição das canções, conseguindo serem quase únicos nesse sentido, fazendo com que os fãs sintam a necessidade de sempre estarem cantando junto ao grupo – distanciando-se de composições melódicas semelhantes aos de bandas do deathcore.

(Foto: Divulgação/While She Sleeps)

Dentre as influências de bandas citadas pelos próprios membros estão: Bring Me The Horizon (de Sempiternal pra frente), Thrice, Slipknot (nu metal), Foo Fighters, Underoath, Refused, Comeback Kid, Gallows e Alexisonfire. Percebe-se o gosto bem diverso dos integrantes através das inspirações de suas músicas, onde vemos a mistura de estruturas dos nomes citados acima. Sempre abertos a novas experiências e experimentos, o While She Sleeps ainda permanece fiel às suas raízes.

Discos de estúdio e sucesso crescente

Agora vamos entrar de cabeça na parte que mais interessa: a obra. Após três EPs bem recebidos pelo público e crítica, a banda assinou com uma gravadora para, enfim, iniciar as composições do seu disco de estreia. Em 2012, finalmente ele saiu. Intitulado This Is The Six, o debut do While She Sleeps foi um prato cheio para os fãs do gênero, pois entregou um trabalho mais “polido” em relação aos EPs, bem mais pesado, mas sem deixar de ter a marca garantida da banda: refrões um pouco melódicos e a inserção de pianos para introduzir as músicas, por exemplo.

As críticas em cima do primeiro disco foram positivas, com a observação de um potencial muito interessante, destacado como “pesado” e “popular” para o gênero. Mesmo com alguns pontos como a formatação do trabalho e escolha das ordens das músicas, o saldo foi bom para a estreia, ganhando destaque principalmente pelo seu potencial. Algumas faixas interessantíssimas que destaco são: “Love at War”, “Our Corage”, “Our Cancer”, “The Plague of a New Age” e “Be(lie)ve“.

Mais maduros e acostumados com tudo aquilo, a banda veio preparada para seu segundo álbum, o muito elogiado Brainwashed (2015). Mesmo com, praticamente, a mesma atmosfera do debut, o WSS também explorou ainda mais as outras vertentes destacadas no início, como o hardcore punk. Lawrence, que teve de fazer uma cirurgia na garganta por problemas causados no álbum de estreia, foi o responsável pelos atrasos na gravação de Brainwashed, já que precisou de uma adaptação maior em relação ao trabalho da sua voz.

Mesmo assim, a banda manteve seu som pesado e vocais potentes, mas com uma participação ainda maior de Sean Long, guitarrista e segundo vocalista principal da banda, que auxiliou Lawrence nas gravações. As “adaptações” não foram um problema para o grupo, que entregou um álbum mais redondo que o primeiro, com composições excelentes. Os destaques ficam para “Our Legacy“, “No Sides”, “No Enemies“, “Torment“, “Modern Minds” e a genial “Four Walls“, uma das melhores músicas da discografia dos ingleses.

Contudo, o melhor ainda estava por vir: o grande ápice da banda, que a colocou como uma das queridinhas dos adoradores do gênero veio no aclamadíssimo terceiro disco You Are We, de 2017. Primeiramente, quinteto decidiu soltá-lo de maneira “independente”, se desligando de sua gravadora e disponibilizando o trabalho na PledgeMusic, uma plataforma que envia músicas/discos diretamente aos fãs. Foi uma estratégia ousada, mas que funcionou bem demais, já que trabalho foi altamente elogiado por fãs e crítica. A banda mergulhou ainda mais nas águas do punk rock e em vertentes mais adaptáveis ao popular.

Esse é aquele típico disco que você escuta de “cabo a rabo” e fica pedindo por mais. É complicado destacar quatro ou cinco músicas, mas algumas são espetaculares demais para deixar passar. Então os highlights ficam para: “Civil Isolation“, “You Are We“, “Empire of Silence“, “Steal the Sun” e a fantástica “Silence Speaks“, uma das queridinhas do estilo nesta década e que conta com a participação “apenas” de Oli Sykes, vocalista do Bring Me The Horizon.

Agora chegamos no álbum mais recente do quinteto, lançado em 2019, chamado So What?. Para muitos, esse é o trabalho mais “fora da casinha” do While She Sleeps, e eu concordo. Pode-se dizer que esse disco tem sim a essência da banda em relação a bons breakdowns e riffs pesados, mas não tem como total destaque o metalcore como os outros três, e olha que o You Are We já se distanciava desta “agressividade” que os primeiros discos tinham de sobra. O So What? se destaca pelas suas vertentes eletrônicas, nu metal (lembram da influência no Slipknot?) e alternative metal, além de sua energia e agressividade.

O trabalho é um típico álbum da banda, forte, mas que mostra uma evolução musical interessante e que deveser mantida nos próximos anos, como na própria faixa divulgada pouco tempo depois, “Fakers Plague”. Além disso, o disco também tem alta crítica social-política. Como destaque, algumas músicas com a marca garantida dos caras: “Haunt Me”, “The Guilty Party”, “Elephant”, “I’ve Seen It All” e a espetacular “Anti-Social“, lead single deste projeto.

Assim como outros artistas que souberam se reinventar dentro do seu estilo, o While She Sleeps parece seguir a mesma linha, mas não deverá deixar sua essência pesada e agressiva para trás nos próximos trabalhos. Se qualquer jeito, é uma banda que tem um estilo próprio e que a pessoa consegue diferenciar do resto quando escuta suas músicas. Não é uma banda desconhecida, longe disso, mas que também merece ainda mais destaque do que já tem, exatamente por essa autenticidade nos seus trabalhos.

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