No último dia 23, um dos compositores mais importantes da música estadunidense completou 71 anos; desde 1973, Springsteen apresenta suas composições sobre o sonho americano, o sofrimento da classe trabalhadora e as dificuldades da existência

Músicas como “Born To Run”, “Thunder Road” e “Born In The U.S.A” são clássicos que marcaram gerações e colocaram Bruce Springsteen entre os maiores nomes do rock mundial. Com vinte álbuns de estúdio, o Boss conquistou vinte Grammys, uma estatueta do Oscar e um prêmio do Tony Awards. Não importa quem é você e nem de onde você veio, sempre haverá uma música de Bruce que consegue representar todas as suas angústias, pois a identificação com suas letras é quase que imediata. Explorando temas extremamente pessoais, sua capacidade de amar e criticar ao mesmo tempo é o que o tornou um ícone. Além de toda a sua carreira aclamada, durante as décadas de 1970 e 1980, ele foi um dos compositores que mais souberam analisar e criticar o contexto social da época, o que fez ele ser idolatrado por grande parte dos americanos.

It’s a town full of losers and I’m pulling out of here to win.”

Thunder road, 1975

Nascido e criado no estado de New Jersey, Bruce cresceu em uma família humilde, filho de um motorista de ônibus e uma secretária. Fascinado por Elvis Presley, aos dezesseis anos, sua mãe pegou um empréstimo para comprar sua primeira guitarra. Para o desgosto de seu pai, com quem mantinha uma relação bastante complicada, o adolescente pegou gosto pelo instrumento. Em entrevistas, o músico chegou a comentar que em sua casa haviam duas coisas que eram impopulares: ele e sua guitarra.

A música o fez canalizar suas energias de uma forma que a escola não conseguia. No final de seus anos escolares, Springsteen já fazia diversos concertos na cidade de Asbury Park e conheceu os músicos que formariam a E Street Band, que o acompanha até hoje na estrada. No início da década de 1970, suas composições começaram a fazer sucesso na cena local, o descrevendo como um artista com mais palavras em algumas canções individuais do que outros artistas tiveram em álbuns inteiros.

Bruce Springsteen - 1970
Foto: Reprodução

Em 1972, ele assinou com a Columbia Records para trabalhar com o mesmo produtor que uma década antes produziu clássicos de Bob Dylan. Visto por sua gravadora como o novo Dylan, no ano seguinte, ele lançou seus dois primeiros discos. “Greetings from Asbury Park, N. J.” e “The Wild, the Innocent & The E Street Shuffle” foram bem recebidos pela crítica, principalmente, as faixas “Blinded by the Light” e “4th of July, Asbury Park (Sandy)”. Entretanto, os dois trabalhos foram um fracasso nas vendas, fazendo com que o futuro de Bruce dentro de sua gravadora ficasse incerto.

Por outro lado, junto com sua banda, as apresentações ao vivo surpreendiam o público. Em 1974, em uma coluna para a Rolling Stone, Jon Landau escreveu: “I have seen rock and roll’s future and it’s name is Bruce Springsteen “. A partir disso, uma amizade entre Bruce e Landau surgiu, com o jornalista o auxiliando em como ele deveria amadurecer suas letras para fazer sucesso. Com isso, a Columbia Records aprovou mais um disco de Springsteen, mas seria a última chance dele. Ele não podia errar.

In the day we sweat it out on the streets of a runaway American dream.”

born to run, 1975

45 anos atrás, no dia 25 de agosto, Bruce lançou “Born To Run”, seu terceiro álbum de estúdio. O disco que retrata a rejeição da classe trabalhadora de uma sociedade cada vez mais desigual impulsionou a carreira do artista, que fez com que muitos jovens se tornassem ouvintes daquela mistura energética de metais, guitarras, teclado e percussão. Para podermos compreender a importância desse trabalho, precisamos voltar um pouco mais no tempo. Durante a década de 1950 e 1960, os Estados Unidos viviam momentos de grandes debates políticos, sociais e culturais. Contudo, questões como a revolução sexual, os direitos civis e a Guerra do Vietnã não ficaram presas somente nesses anos, elas impactaram a década seguinte.

Além da parte social, o período também evidenciava épocas de instabilidade econômica nos EUA. Durante a década de 1960, ocorreu a expansão excessiva do crédito e demanda agregada, resultando no maior endividamento tanto do governo quanto das empresas e dos consumidores. Já na década de 1970, os norte-americanos sofreram com o choque brutal na oferta de commodities. Dessa forma, o país passou por um processo de estagflação, um fenômeno macroeconômico que ocorre quando o país entra em recessão – diminuição da atividade econômica empresarial – e aumento da taxa de inflação, resultando na elevação dos preços.

Nesse beco sem saída, os trabalhadores estadunidenses eram os punidos por toda a situação econômica. Assim, em 1975, Springsteen levando em consideração todo esse contexto de ativismo urgente, compôs diretamente para as pessoas que precisavam ouvir o seu discurso, aquelas que se dispunham a entender as mudanças sociais da época e que sofriam na própria pele todos os choques econômicos do país. A primeira faixa do “Born To Run” é o hit “Thunder Road”, em que o cantor introduz o ouvinte a realidade sem perspectiva de seus personagens. No caso da música, Bruce tenta convencer Mary a deixar sua vida para trás e assumir novos riscos, sair da cidade pequena e ser a protagonista da sua própria história, o ato de correr para o desconhecido e enfrentar o mundo.

Já na faixa título, ele está conversando com outra mulher: a Wendy. Na canção, a ideia de fugir da realidade atual retorna, com Springsteen procurando todas as formas possíveis de sair de sua cidade ao lado de sua amada. Desse modo, o álbum mostra a revolta e a fúria do jovem americano que quer e está destinado a mudar a sua realidade, mas ainda não sabe como e nem possui condições para isso. Para fechar a obra, “Jungleland” é uma faixa de quase dez minutos que, como muito de “Born to Run”, relata a busca interminável de adolescentes inquietos para fugir do desespero e da desesperança em busca de emoção.

Sometimes I feel so weak I just want to explode.”

The Promised land, 1978
Foto: Reprodução

O próximo álbum do Boss só chegou ao público três anos após uma longa batalha legal entre Bruce e seu empresário. Com novas lições aprendidas e com as responsabilidades que a fama trouxe, ele saiu da narrativa de idealização da fuga e da inocência adolescente para cantar sobre as dificuldades e a realidade difícil do americano adulto. “Darkness On the Edge of Town” é mais denso que o álbum anterior, misturando todas as suas referências antigas com a atitude do punk, gênero que vinha ganhando notoriedade.

O disco abre com “Badlands”, faixa sobre querer ter controle sobre sua própria vida. O narrador está cansado de seu cotidiano, de ter que conviver com os problemas de sua realidade. Ele não aguenta mais a miséria, o sentimento de fracasso, ele procura amor e sucesso. Ao cantar “Badlands, you gotta live it everyday” no refrão, Springsteen expressa que o mundo pode ser um lugar cruel e difícil para a classe trabalhadora, mas que devemos encarar isso de frente, sem medo. A mesma narrativa aparece em “The Promised Land”, que conta a trajetória de um mecânico que está cansado de sua vida mundana e procura alguma forma de prosperar. Ainda falando dos sacrifícios dos trabalhadores, “Factory” é a representação de como o trabalho árduo e sofrido pode afetar negativamente a mente e a família das pessoas.

Is a dream a lie if it don’t come true or is it something worse?”

the river, 1980

Dois anos depois, o músico volta com um novo trabalho, no caso, o álbum duplo “The River”. Por possuir vinte faixas, ele foge um pouco do perfil de construir uma narrativa dos dois trabalhos anteriores, mas entre faixas animadas e baladas românticas, conseguimos observar duas músicas bem intensas e com mensagens muito doloridas: “Independence Day” e “The River”. Nesse momento de sua carreira, os fãs do Bruce já experimentaram através de suas músicas a sensação de liberdade, querer viver mais e também os dilemas do mundo adulto. Agora, eles também passam a aprender com as perdas.

“Independence Day” não se refere ao dia 4 de julho, mas a uma perda física, a do pai, o líder da família e como o falecimento dele é uma independência para seus filhos. No caso, o pai é o mesmo trabalhador de “Factory” e ele atormenta a vida de seus familiares ao descontar todas as suas frustrações neles. Ao mesmo tempo que essa situação é um alívio para o narrador, também é um momento de reflexão. Ao cantar “they ain’t gonna do to me what I watched them do to you”, o cantor mostra que não quer terminar como sua figura paterna, que ele não quer se conformar com o mundo do jeito que ele está e ter que abrir mão dos próprios sonhos para poder pagar as contas.

Em “The River”, a ideia de perda é de acabar esquecendo de suas ambições para entrar no dia a dia. A letra começa falando sobre a infância e como é crescer em uma cidade pequena, onde a ideia de todo mundo é de seguir os passos da sua família, não criando expectativas de sair dessa realidade.  O narrador é um jovem de dezenove anos que já é casado e está esperando um filho. Por isso, ele arruma um emprego sindicalizado por causa dos benefícios, mas tem que abrir mão de sua individualidade em uma idade muito jovem, quando ainda somos cheios de paixão e determinação para conquistar o mundo.

Pisando no freio, em 1982, o compositor foi em uma direção completamente diferente de seu habitual. Ele deu uma folga para a sua banda e decidiu compor um disco voz e violão, inteiramente gravado em sua casa. O resultado foi o renomado “Nebraska”, responsável por levar suas músicas para um público que ainda o olhava com desdém e que o via como apenas um garoto revoltado. Um dos destaques do álbum é “Atlantic City”, faixa em que Springsteen analisa a situação da cidade de New Jersey na época dentro da visão de um jovem casal. No caso, os dois se mudam para a cidade para entrar no crime organizado, lutando com a inevitabilidade da morte. Sempre atento a realidade das pessoas ao seu redor, a letra é uma referência a tentativa de tomada de controle da região por mafiosos.

I’m ten years burning down the road, nowhere to run ain’t got nowhere to go.”

Born in the u.s.a., 1984

Dois anos depois de seu trabalho mais intimista, Springsteen volta a chamar a atenção do público com o seu disco mais reconhecido comercialmente. Entre faixas reconhecidas mundialmente, como “I’m On Fire”, “Dancing In The Dark” e “Glory Days”, temos também seu maior hit, a faixa-título “Born in the U.S.A.”. Entoada por multidões e adorada até pelo presidente Ronald Reagan, que não entendeu o verdadeiro significado dela, a música está longe de ser uma exaltação a pátria e uma admiração por ter nascidos nos Estados Unidos. Na verdade, ao analisarmos atentamente a letra, ele fala sobre um veterano da Guerra do Vietnã que, ao voltar para casa, se vê com poucas opções e em circunstâncias desesperadoras.

O desemprego entre os veteranos do Vietnã era exorbitantemente alto, assim como as taxas de divórcio, prisão e suicídio. Além disso, eles não conseguiam o devido apoio do governo, os deixando a deriva. Portanto, a música de Springsteen é uma crítica a esse país que ele gostaria de ter orgulho de ter nascido, mas que não consegue idolatrar, pois ele deixa os cidadãos vulneráveis largados a própria sorte.

Dentro das duas primeiras décadas de carreira do Springsteen, ele conseguiu descrever os Estados Unidos da época: difícil e muitas vezes sem esperanças. Contudo, em seus personagens, apresentou também o suor do trabalhador americano, que mesmo nas situações mais adversas da vida, não abaixa a cabeça, luta pelos seus sonhos como o herói de sua própria jornada.

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