Durante sua carreira musical, Greg Puciato passou por diversos gêneros musicais. Ganhou notoriedade no mathcore como frontman do caótico The Dillinger Escape Plan; formou um supergrupo no groove metal com Killer Be Killed e abraçou o synth-pop em seu projeto mais recente, The Black Queen.

Então, quando em março de 2020, ao anunciar seu disco solo, Child Soldier: Creator of God, juntamente com o primeiro single, “Fire For Water”, música que trazia uma nova roupagem apesar de se encontrar nas raízes do metalcore abrasivo do artista, contando com um toque de industrial, fãs ficaram curiosos para saber qual seria o rumo artístico desse novo projeto.

Junto com o anúncio, descobrimos que Puciato gravou todos os instrumentos presentes no álbum e contou com três bateristas diferentes para as percussões. Dentre eles: Chris Pennie, antigo companheiro no The Dillinger Escape Plan; Benjamin Koller, do Converge e Killer Be Killed e Chris Hornbrook, do Poison The Well. Todos com o background do hardcore em comum.

Após seis singles, Child Soldier: Creator of God estava com o lançamento marcado para o dia 23 de outubro, mas um crítico vazou o disco na internet e fez com que a data fosse adiantada para o dia 1 no Bandcamp oficial e em todas as outras plataformas de streaming no dia 9 de outubro.

E a primeira impressão, quando se ouve o disco, é que qualquer suposição da direção musical, na época de anúncio, estava errada. Aqui, temos Greg Puciato no ápice de sua versátil composição musical, extraindo melodias de várias fontes para nos entregar um trabalho que surpreende pelas “viradas” inesperadas e impressiona pela coesão do conjunto.

Child Soldier: Creator Of God
Imagem: Capa do Álbum Child Soldier: Creator of God

O disco abre com “Heaven of Stone“, intro acústica, melódica e breve que nos arremessa na próxima faixa, “Creator of God“, que com batidas eletrônicas carregadas e vocais afogados, propositalmente, no mix, criam uma atmosfera inquietante. Após um breve momento harmônico, a faixa se torna um completo electronic noise ampliando ainda mais a sensação incômoda do começo.

Já nas primeiras faixas temos uma breve ideia de um ponto importante no disco, a imprevisibilidade e compromisso do artista de quebrar a expectativa, seja mudando completamente o rumo de uma música ou apresentar músicas que se encontram em extremos opostos artísticos umas das outras.

Então, temos faixas como “Temporary Object“, “Fireflies” e “A Pair of Questions” se apresentando no espectro que abrange o pop de trabalhos mais recentes do artista, mas apresentando uma identidade própria para se diferenciar uma das outras. Já “Through The Walls” se destaca como uma faixa acústica com diversos elementos sendo introduzidos em seu decorrer, inclusive uma melodia que poderia estar em um música de reggae em sua segunda metade.

No espectro do rock e metal, “Deep Set” e “Do You Need me To Remind You?” trazem uma nostalgia do grunge da década de 90 e “Down When I’m Not” adentra territórios que encontraríamos em um disco de pop punk. Enquanto “Roach Hiss” demonstra-se mais presente no sludge metal.

A produção, realizada por Nick Rowe, eleva a qualidade do material. Dando maior destaque e valor para aos instrumentos à medida que são introduzidos, seja na potência da percussão eletrizante de “Fire for Water” ou na sutileza atmosférica do baixo em “You Know I Do“. E o mesmo pode ser dito dos vocais, que podem comandar faixas como na emocionalmente carregada “Heartfree” ou se distanciarem da evidência e adicionarem à atmosfera musical em momentos de “Roach Hiss” e “Creator of God”.

Nas faixas finais, “Evacuation“, se demonstra como uma das mais ambiciosas, possuindo diversas linhas vocais com técnicas distintas e um instrumental que remete ao que Nine Inch Nails fez na década de 90, contando com sintetizadores e pianos intercalados com riffs na guitarra. Já a última faixa, “September City“, apresenta-se de forma sutil e calma, com o piano e vocais assumindo o protagonismo até explodir no final, com toques de shoegaze, encerrando o álbum em nota alta.

Em entrevista para a NME, Puciato revelou sobre como o sentimento violento nas músicas e rotina de The Dillinger Escape Plan o afetou e, quando perguntado se o disco solo era uma reação, ele disse “Esse álbum não é uma reação. É como uma integração, um panorama geral. É como a representação de todo trabalho que fiz para chegar nesse ponto, tanto internamente como externamente”, explicou.

Greg Puciato
(Foto: Jim Louvau)

E não há forma melhor para descrever esse disco. É a culminação de todas as influências que compuseram sua vida musical com adição e ampliação de novas nuances artísticas, apresentando uma evolução que se traduz nos 65 minutos de duração, que apesar das diversas alterações no rumo, nada soa forçado ou desconexo.

Em Child Soldier: Creator of God, Greg Puciato nos entrega um dos melhores trabalhos de sua carreira, demonstrando como é, não só carregar uma bagagem musical, mas desenrolar toda ela com maestria em um disco variado e versátil, que contém diversos detalhes, influências, melodias ou ritmos que certamente podem agradar qualquer fã de música.

10/10