Por mais que a pandemia de COVID-19 não tenha proporcionado nenhum “lado positivo” para o país, uma vez que a doença já causou a morte de mais de 172 mil brasileiros, muitos artistas relatam que os meses de isolamento proporcionaram a possibilidade de se descobrir e se reconectar com sua arte. Esse foi o caso de EDFO, o misterioso artista brasileiro que apresenta suas canções sensíveis e tocantes em meio ao mistério de sua identidade. Mistério este que fica em segundo plano ao assistir suas apresentações ao vivo, uma vez que que a atenção do ouvinte se volta completamente para sua voz potente e calorosa e não mais para o visual enigmático.

Apesar de ainda estar construindo o início de sua carreira, EDFO possui dois EPs disponíveis em plataformas de streaming, o EDFO (Parte I) e EDFO (Parte II). Em ambos, sua voz sublime e poderosa dialoga com um instrumental discreto de piano em meio a vocais e letras bastante expressivas que convidam o ouvinte para passeios internos através de lembranças, dores, ausências, erros e recomeços. Em meio a relatos pessoais transformados em canção, o artista acredita que sua música pode ser a companhia que te faz recordar momentos, que apesar de nem sempre tão bons, merecem e precisam ser revisitados.

ROCKNBOLD Em seu release você comentou sobre o desafio de entrar no meio artístico e dar início na carreira em meio a pandemia. Como foi o seu processo de se descobrir artista? O que você costuma consumir e como decidiu dar início ao EDFO?

EDFO – Gosto muito da maneira que você descreveu: descobrir-se artista. Percebi desde criança que tinha aptidão para arte. Foi quase um processo natural e com pouca resistência, visto que meu pais sempre me incentivaram me colocando em aulas de música e de teatro. Aos 21 foi quando iniciei de fato a trabalhar com música, tocando em bares e começando a compor. Foi um processo que fluiu e eu aceitei. Sobre o que consumo é bem diversa a resposta. Gosto muito de cantoras intensas, feito Maria Bethânia e Ekena, por exemplo. De rap, fico sempre fascinado com a métrica e com a verdade que essas músicas carregam. De pop, Sia é uma das minhas maiores referências tanto como compositora quanto como intérprete. Enfim, se é novidade e/ou toca no coração, eu ouço. E o início do EDFO se deu em um momento onde eu tinha um repertório que eu estava apaixonado, mas não encontrava uma maneira de trabalhar essas músicas para que as pessoas recebessem o máximo de mensagem que eu queria enviar. É bem comum ouvirmos uma música e não nos atentarmos a mensagem da letra. Trazer isso como centralidade do projeto foi o começo de tudo.

ROCKNBOLD – Como você mesmo comentou, como EDFO você assume um visual artístico misterioso e enigmático em suas performances para interpretar suas canções. Como você definiria esse visual enigmático do EDFO e o que ele busca expressar?

EDFO – Esse visual é quase uma busca pela neutralidade em um primeiro momento. A intenção foi exatamente trazer o foco do primeiro contato do espectador para a música. Acho importante falar que essa neutralidade está ligada diretamente a forma como aprendemos a nos relacionar com quem faz arte. O Marcelo D2 tem uma frase que acho o máximo: “Celebridade é artista, artista que não faz arte”. Quero expressar que está tudo bem ser artista e não ser celebridade, não ser reconhecido nas ruas. Minha proposta é musical e é através da música que quero atingir e me conectar com as pessoas. O EDFO é a personificação desse desejo de ser mais voz do que um rosto famoso.

ROCKNBOLD – A gente chegou a conversar brevemente sobre bagagem artística e nomes da MPB com os quais a sua arte se relaciona. Quais são as suas principais influências, tanto musicais como visuais na música brasileira?

EDFO – Influências musicais são as mais variadas possíveis. Desde Roberto Carlos, que me influenciou bastante como compositor, passando por Maria Bethânia, Elis Regina, Adriana Calcanhoto, Lenine, Ana Carolina, Emicida até artistas mais recentes como Rubel, Tuyo, Iza, Jão. Visuais acredito que artistas mais marcantes como Secos e Molhados, Rita Lee e, mais recente, Rico Dalasam são referências de ousadia e inspiração, rompendo limites e se impondo enquanto proposta artística.

ROCKNBOLD – Quais outros estilos e elementos musicais você gosta de consumir particularmente e pretende explorar em sua música um dia?

EDFO – Particularmente ouço muito a Pitty. Sou um grande fã dela enquanto artista e das ideias pessoais também. Será um sonho poder trabalhar com ela em algum momento da carreira com essa sonoridade mais pesada. Também gosto muito dos trabalhos do trio Tuyo, inclusive já fiz até um música pensando em algo juntos nessa vibe pop futurista que eles têm. O bom da música é isso: criar possibilidades e desbravar novos caminhos, se reinventando sempre.