Billie Eilish: ‘Happier Than Ever’ & Os caminhos suntuosos da felicidade

Billie Eilish Review Happier Than Ever | capa

Desde que surgiu, Billie Eilish movimentou o mercado musical com sua estética e percepções da vida, mesmo tão jovem. A sad girl que encantou uma legião de jovens (e alguns não tão jovens assim) aparentemente teria encontrado o caminho da felicidade em Happier Than Ever, mas como foi sua jornada? Descobrimos ao longo do álbum a estrada sinuosa que a cantora percorreu.

As melodias são muito bem encaixadas uma na outra, mesmo que os estilos musicais disponíveis ao longo do álbum transitem em diferentes universos. Além disso, seus versos são traduzidos em uma mixagem criativa através de seu irmão, onde mesmo minimalista em alguns pontos, consegue apresentar complexidade.

O início da jornada

“Getting Older” tem uma batida minimalista com o refrão leve para uma letra triste é um dos contrastes que brincam ao longo do projeto. Aprende a lidar com tantos sentimentos e responsabilidades mesmo tão jovem, soa como um conto de fadas que deu errado e que ela vai narrar ao longo do álbum. ” I’ve had some trauma, did things I didn’t wanna / Was too afraid to tell ya, but now, I think it’s time | Eu tive alguns traumas, fiz coisas que eu não queria / Tive muito medo de te contar, mas agora, acho que está na hora”

Ao iniciar “I Didn’t Change My Number” com rosnados, a impressão é que a cantora foi “jogada para os lobos” ao término da primeira canção. Em uma letra divertida e ácida, mescla o eletrônico e o hip hop contemporâneo no instrumental que remete o primeiro álbum de Lily Allen, mas sem abandonar sua essência, apresentando um lado sombrio no término da canção.

Novas sonoridades

Em uma vertente diferente da que estamos acostumados, “Billie Bossa Nova” une o ritmo brasileiro bossa nova não somente em um remix. A música sobre amor e se apaixonar apresenta modernidade na batida, sem abandonar elementos clássicos do gênero que incorporou. A companhia do instrumento de corda apazigua da avalanche de sensações, trazendo um lado sofisticado e delicado, quase adormecido no universo da cantora.

O primeiro single que escutamos de Happier Than Ever trouxe um mix de sonoridades do melancólico ao upbeat, “My Future”. Primeiramente, inicia a melodia com sons de chuva e um piano melancólico, suave o suficiente para ser uma música de ninar para confortar os corações que mudam suas direções. O futuro muda de direção, assim como o gênero que explora: a segunda parte ganha um toque animado de neosoul e jazz. O otimismo da sonoridade é reflexo no entusiasmo da jornada para seu conhecimento pessoal.

Segunda metade de Happier Than Ever

A última faixa a ser composta foi “Oxytocin”. Não se engane pelo início mórbido, mas tranquilo. Apesar de soar levemente como as músicas de seu primeiro álbum, Billie Eilish trouxe novas referências para a faixa. A energia do hormônio do amor é interpretado em batidas frenéticas e incessantes. A energia caótica e os vocais relembram trabalhos da indietrônica, como Alice Glass no Crystal Castles. O trabalho gera uma união entre sensual e sombrio de gêneros como electropunk, synthpop e até mesmo um toque de witch house.

“GOLDWING” é uma música que une a melodia já existente de Gustav Holst e traz para seu universo, unindo o profano ao sublime. A letra é quase um conto sobre a transição para a idade adulta e a perda da inocência, mas torna-se ainda mais interessante pela interpretação do instrumental. Os pulos de um disco riscado são usados para a transição até uma batida em looping, marcante e hipnótica que não abandona o vocal celestial, mas o incorpora na melodia.

O quarto single foi “Lost Cause”. Apesar da batida sensual e e a linha de baixo marcante, a letra é menos provocativa, sobre alguém que não vale a pena o esforço. Experimenta o R&B, mas com menos intensidade que os mergulhos nos gêneros citados anteriormente. A textura mais limpa evidencia os vocais, destacando também o trabalho de sobreposições na última parte da música.

Apaixonar-se é um fenômeno raro no universo da cantora? “Halley’s Comet” compara a euforia de se apaixonar com um fenômeno raro e não palpável, mas em uma balada pop suave e comedida, novamente mais limpa. Quando acreditamos ter acabado, o piano volta a se apresentar em uma sonoridade de sala vazia, como uma valsa entoada em um palácio abandonado, com uma confissão distorcida de Billie, que admite seus sentimentos ao final.

Terceira metade de Happier Than Ever

“Not My Responsibility” remete muito When We All Fall Asleep, Where Do We Go? e não é por acaso, o interlúdio fez parte da turnê do álbum, o short film entrava antes de “All the Good Girls Go To Hell”. O mais importante nesse manifesto são as palavras faladas, algumas frases evidenciadas com distorções no vocal que o transformam em algo fantasmagórico em um instrumental crescente que simula sirenes. O alerta é sobre como pensamentos alheios e opiniões pessoais interferem na vida do outro que recebe as críticas e os olhares de desaprovação.

“OverHeated” usa os mesmos synths que a faixa anterior, para criar uma transição suave, mas incorpora camadas a mais que leva para o universo do hip hop. Novamente traz o dilema da ansiedade sobre como o outro te percebe em interações mais intensas que podem paralisar. Além disso, cresce suavemente conforme compreende o mundo novo ao seu redor e como não se render a ele, demonstrando autoconfiança e amadurecimento.

A mórbida “Everybody Dies” novamente destaca os vocais da cantora e, consequentemente, sua letra. O principal sentimento e reflexão é sobre a solidão da morte, tanto do lado de quem parte, quanto do lado de quem permanece. O mais importante está nos versos finais, reforçando que está tudo bem em desistir, mas que ninguém está sozinho ou é verdadeiramente um desconhecido.

O terceiro single “Your Power” reflete a toxicidade do relacionamento abusivo, principalmente entre homens mais velhos e mulheres jovens através de uma disputa injusta de poderes. O instrumental acústico, com poucas intervenções trazem um lado mais cru e visceral, um lado sensível para falar de algo tão relevante e delicado. O vocal suave e etéreo atenua a situação complicada em que o eu lírico se encontra.

Happier Than Ever – parte final

O quinto single “NDA” abusa do autotune no refrão, em uma mistura musical entre dark indie e electropop. O instrumental caótico e soturno na medida transmite nos momentos chaves a tentativa de proteção e preservação da vida pessoal para a figura pública, lidando com a angústia de querer privacidade sem precisar pedir.

“Therefore I Am” foi o segundo single, trouxe uma transição suave para sua nova era, principalmente pelo instrumental eletrônico simplista, ao mesmo tempo divertido e debochado, assim como os versos. Nesta canção, expõe a sua própria rejeição para as críticas que recebe e os haters, que muitas vezes se aproveitam do nome da cantora para obter vantagens no mundo digital, como clickbait.

Transbordamentos Finais

“Happier Than Ever” carrega o nome do álbum por resumir tão bem os sentimentos relatados, mas também como o universo de Billie foi reinventado em tantas referências diferentes, sem abandonar sua essência. O último single revelado tem o instrumento de corda acompanhando sua voz em algo que soa tão despreocupado quanto Audrey Hepburn cantando “Moon River” em ‘Bonequinha de Luxo’.

O que era para ser algo tranquilo redireciona-se para uma verdadeira tsunami de sentimentos expurgados. A transição entre o violão e a guitarra e as vozes reverberadas já nos dá uma pista dos rumos da música. A despedida e o desabafo vem em uma catarse. O visceral da explosão é finalizado aos gritos de alguém passou pelo inferno por outra pessoa e quase se perdeu para permanecer com o outro. O instrumental ruidoso cresce para abafar os gritos, até acabar em uma distorção, onde a paz surge por meio do silêncio.

“Male Fantasy” encerra o álbum em uma faixa acústica sobre compreender a linha tênue entre superar e fingir. As boas memórias, mesmo que escassas, falam mais alto em nossas cabeças como uma armadilha, após todo relato das músicas, o abuso que sofreu ressoa nas inseguranças. A confusão de um coração partido não supera a jornada de autoconhecimento, impondo limites a si mesma ainda que lembre com carinho de alguém que a feriu tanto.

O futuro da felicidade

A inspiração para o álbum foram as reflexões pessoais da cantora ao longo da pandemia e podemos dizer que sua mente trabalhou muito! A vulnerabilidade e visceralidade da sua personalidade transbordaram mesmo nas mais lentas. Algumas canções poderiam não funcionar tão bem em um projeto tão variado, mas de forma interessante, entre idas e vindas, todas as faixas se complementam. Entre as nuances das canções, Billie mergulhou em seu universo melancólico e foi brutalmente honesta sobre questões importantes. Por ser uma inspiração para muitas meninas jovens, seu testemunho musical serve de alerta para certos tipos de comportamentos em uma relação amorosa.

O controle sobre o mundo que criou com sua arte veio a tona através das experimentações e pequenas ousadias que permitiu-se realizar ao longo do álbum. Ressaltou o seu talento e que a direção artística de sua obra é ela quem aponta, não ficando presa em uma sonoridade e que possui talento e coragem suficiente para remar em outras direções.

O caminho para a felicidade iniciou com a cantora em busca da coroa e quase caminhou para a fama como inimiga. O segundo álbum dialoga em novos dilemas que uma jovem em evidência precisa lidar. Apesar disso, deparou-se com o clichê que a felicidade é algo que não vem fácil, mas está dentro dela mesma, assim como está dentro de nós.

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