Por Lívia Stamato

 Entre os mais recentes grupos de k-pop a conquistar corações ao redor do mundo, TREASURE lançou esta última semana seu primeiro álbum. Durante os cinco meses desde seu debut, o grupo chamou atenção com o som predominantemente eletrônico e os drops intrigantes de seus singles, conquistando uma fanbase fiel de Treasure Makers e levando para casa o prêmio de “Rookie do Ano” de algumas das maiores premiações coreanas. Com THE FIRST STEP : TREASURE EFFECT, a banda surpreende saindo um pouco do que até então parecia ser sua marca e apresenta durante trinta e quatro minutos uma versatilidade sonora que comprova seu valor como um dos rookies mais prósperos do k-pop.

O disco é composto por 10 músicas na sua versão digital, tendo ainda, na versão física, a faixa “I LOVE YOU” em piano e a versão rock de “MMM”. A maior parte dos trabalhos apresentados já são velhos conhecidos dos fãs do grupo. Os singles e b-sides lançados ao longo do último ano, assim como a favorita “GOING CRAZY” (faixa de pré-debut que tem seu lançamento oficial aqui) tomam conta dos últimos dois terços do álbum, tornando o disco uma espécie de repackage album, algo comum no mundo do k-pop, uma escolha menos comum para o primeiro álbum de um grupo. Não que isso seja necessariamente ruim, a decisão de apresentar apenas três novos trabalhos deixa sobre o fã uma expectativa maior por mais conteúdo.

Durante a conferência de imprensa para o lançamento de TREASURE EFFECT, os meninos falou sobre as mensagens de encorajamento e de positividade que buscaram trazer nas músicas do álbum. Em “MY TREASURE“, a title track e faixa que abre o trabalho, essa intenção é palpável e bem sucedida. O único lançamento da semana capaz de nos tirar do loop infinito de plays em “drivers license” da Olivia Rodrigo, “MY TREASURE” mostra logo de cara com seu som catchy e pop que, apesar do drop de EDM ter sido a tendência dos três singles anteriores do grupo, eles têm potencial para alcançar diferentes gêneros e fazê-lo com sucesso.

A batida forte, marca do boy group, continua presente, mas, entre as diferentes camadas, também conseguimos perceber, por exemplo, a predominância do pop e toques de disco e R&B na música. A música possui alguns elementos teatrais e traz diversas mudanças de ritmo ao longo dos 3:20 minutos, permitindo navegar sobre a mensagem de esperança e ao mesmo tempo de compreensão sobre o momento atual do mundo. Diferente de “Life Goes On” do BTS e de “We Lost The Summer” do TXT, por exemplo, a música procura olhar a atualidade sob uma lente mais alto-astral: apesar de eles reconhecerem as dificuldades, o upbeat da melodia e as letras encorajam que o ouvinte não se deixe vencer, “se você não conseguir, quem liga? Apenas comece de novo”, canta o grupo. 

As b-sides do álbum, “BE WITH ME” e “SLOWMOTION“, trazem um som mais simples. A primeira é uma faixa doce e descansada sobre a vontade de proteger a pessoa de quem gosta. Se afastando do rap e eletrônico, a música poderia facilmente ser reproduzida em uma versão ‘barzinho’, voz e violão e, por ser tranquila até demais de se ouvir, passa um pouco batido depois do espetáculo encenado pela title track. “SLOWMOTION” conta a expectativa e paciência do personagem em levar o relacionamento a uma nova etapa, continuando a narrativa do TREASURE dos primeiros amores da adolescência, mas também podendo representar um pouco da situação atual em que nos encontramos. A faixa traz influências dos anos 2000, o som soa semelhante ao do típico boyband americano da época e é possível reconhecer toques do R&B. O contraste do som mais vívido e fantasioso da música com o tom mais grave e paciente dos artistas e o rap do Haruto e do Hyunsuk colocam a música como uma das favoritas do TREASURE EFFECT.

Foto: Reprodução

 A partir daqui, o álbum traz as músicas que já conhecemos. A ordenação da tracklist é um pouco confusa. A decisão de colocarem os singles e b-sides já lançados em ordem de lançamento parece uma coisa lógica e natural, mas se perde quando colocam todas as três novas músicas primeiro e finaliza com “GOING CRAZY”, uma música pré-debut. Apesar de, como dito, ser um tanto lógico e natural, isso retira a oportunidade do grupo de criar novas narrativas e o ânimo do ouvinte em completar o álbum com as últimas sete músicas sendo algo que já escutaram tantas vezes.

Ainda assim, TRESURE EFFECT é um bom lançamento de se ouvir por completo. “BOY“, o single debut do grupo, apresenta os elementos que cativaram os ouvintes e marcaram o som da banda. Mesmo após meses desde que foi lançada, a surpresa da mudança do aspecto fresh e jovem que inicia a faixa e que se altera com uma virada a partir do drop, batidas e elementos eletrônicos mais pesados, cativa como na primeira ouvida. “COME TO ME” foi lançada originalmente como b-side de BOY e, apesar de parecer um pouco fraca para seguir a faixa anterior, tem aqui uma consonância maior com as faixas restantes do álbum. A música continua o aspecto de leveza e jovialidade do grupo, mas estaria melhor sem a voz feminina ao fundo.

Depois temos “I LOVE YOU“, canção favorita de muitos fãs. Apesar das agressivas batidas de eletrônica e o drop similar ao de “BOY”, a progressão da música parece mais natural do que a do single antecessor. A sequência de rap do grupo continua sendo um dos melhores destaques do TREASURE e, apesar de clichê, o coro no final da música é agitado e apreciado – se desviarmos a atenção sobre o fato de um bando de garotos menores de idade estarem cantando “Let’s make love”. CHAPTER TWO (2020) é provavelmente o melhor single album – erh, capítulo – da banda até então. “B.L.T (BLING LIKE THIS)” é uma continuação animada, com vibes de verão e soa como a combinação ideal dos diversos sons que o grupo trouxe para a mesa conseguindo manter o ar fresh enquanto ainda traz as batidas e mudanças agressivas de ritmo. 

Seguindo o disco, “MMM” é uma faixa que segue o padrão do grupo de colocar suas músicas com som mais pesado como single. A música inova entre as restantes do TREASURE, ao trazer um pouco mais da influência de hip-hop k-pop a que a companhia da qual fazem parte, YG Entertainment, tanto investe. O som soa mais dark e a música ainda traz um elemento mediterrâneo no instrumental. Em um primeiro momento, pode soar um diferente que soa estranho, mas ouvindo mais uma vez dentro do álbum, talvez seja uma das mais interessantes da obra. Infelizmente, não é possível dizer o mesmo sobre “ORANGE“. Com um som vintage e de volta às influências dos anos 2000, a música passa batido e é a mais fraca do álbum.

TREASURE EFFECT termina com “GOING CRAZY“. Apesar de não concordar com a distribuição da tracklist, a decisão de finalizar o álbum com a música pré-debut é certeira. A faixa demonstra o que há de melhor e de mais atrativo no grupo, harmonizando a com o estilo mais eletrônico que se tornou característica deles com o ar leve e catchy do pop que convém com a idade dos membros e gruda na cabeça durante dias depois de ouvi-la. A faixa é um bom resumo da qualidade do grupo e nos deixa esperando por mais.

Em geral, o álbum é uma boa surpresa e comprova a variedade de gêneros com que o boy group se apresenta e com que consegue trazer bons trabalhos. Alguns aspectos gerais das músicas parecem se repetir (não, não estou falando do drop, mas do coro que sempre introduzem no final da música), mas é esperável de um grupo no seu primeiro álbum e não diminui sua capacidade de inovação. Com TREASURE EFFECT, os doze integrantes entregam um primeiro álbum com qualidade de veterano e faz com que nos perguntemos o que vem a seguir e com que façamos questão de acompanhar seus próximos passos para descobrir.

7/10