Por Elisa Carletto e Júlia Baruki

Em “BE”, BTS conforta seus fãs em momentos difíceis. Em um ano tão confuso quanto 2020, o grupo nos leva a uma jornada de introspecção e esperança por dias melhores.

Em um ano complicado e com inúmeras adversidades no caminho, muitos artistas aproveitaram o período de isolamento para lançar álbuns totalmente produzidos durante a quarentena. É o caso de Charli XCX com seu pop futurístico em “How I’m Feeling Now” e Taylor Swift se voltando ao folk com “Folklore”. No início de 2020, BTS estava em meio às promoções de “MAP OF THE SOUL: 7” e se preparando para uma turnê mundial de estádios. Uma semana antes do início previsto para os então cancelados shows, RM, o líder do grupo, foi ao YouTube da banda comunicar que o tempo livre em casa seria destinado à produção de um novo álbum.  

BTS sempre se mostrou conectado e preocupado com seus fãs. A discografia se destaca por tratar de temas como perda, saúde mental e a importância de estarmos rodeados por pessoas que amamos e nos fazem bem. Em 2017, com do lançamento de seu quinto EP, “Love Yourself: Her”, o grupo promoveu mensagens sociais em suas músicas e também introduziu a campanha LOVE MYSELF em parceria com a UNICEF. Assim, os sete membros iniciaram um trabalho global de combate à violência contra crianças e adolescentes e de trazer esperança por um mundo melhor através da música.

Em setembro de 2020, os integrantes lideraram mais uma ação inspiradora: em um vídeo da Assembleia Geral da ONU, eles reforçaram a importância da perspectiva de melhora e contemplaram o papel da companhia de família e amigos para enfrentar a pandemia. No final, um recado promissor: “A vida continua, vamos continuar vivendo”.

Derivado da proposta de autorreflexão, veio o lançamento de “BE”, o quinto álbum do grupo em coreano. Como um conforto para seus fãs em momentos tão difíceis, a obra é dividida em sete faixas e uma skit, que o separa em dois momentos: um de músicas introspectivas, sobre as dificuldades e desafios que fomos obrigados a enfrentar durante o ano, e outro de faixas animadas, como distração e descontração, memórias de tempos melhores e esperança pelo que está por vir.  

As primeiras três faixas dialogam bastante entre si, mantendo o mesmo ritmo e temas semelhantes. A sensação é de que os integrantes estão nos dando um abraço bem apertado depois de um dia difícil. O lead single “Life Goes On” fala em nome de todos que estão presos na nova normalidade trazida pela COVID-19 e nos conforta diante do inesperado. Na canção, as frustrações são deixadas de lado e dão espaço à esperança, como retratado no trecho “Como um eco na floresta / O dia vai voltar / Como se nada tivesse acontecido / Sim – a vida continua”. O single contou com um clipe bastante pessoal, apresentando o novo cotidiano deles, com momentos descontraídos dos sete, jogando videogame, tocando violão e pedindo pizza, por exemplo. O interessante do clipe também é que ele foi dirigido por Jungkook.

Ainda no tema do isolamento, “Fly To My Room” é uma faixa de R&B que soa até sexy se esquecermos de prestar atenção na letra. Na subunit de SUGA, j-hope, Jimin and V, eles cantam sobre se sentirem presos, mas que o conforto do lar faz com que eles consigam se renovar. “Blue & Grey”, é um dos maiores destaques do álbum, trazendo de maneira mais pessoal e vulnerável um tema já anteriormente explorado pelo grupo: o fato de que o sucesso e a felicidade não necessariamente andam lado a lado.

O interlúdio de “MAP OF THE SOUL: 7”, “Shadow“, solo do integrante SUGA, trata da solidão que acompanha a fama e do sentimento amargo, quase ingrato, que anseia pelo fim do caminho trilhado sozinho. Já em “We Are Bulletproof: The Eternal“, também presente no trabalho anterior do grupo, os sete membros refletem sobre a jornada difícil que originou o sucesso atual, o orgulho que sentem de sua história e a completude, a companhia e o conforto encontrado nos fãs ARMY. Os versos “Éramos apenas sete / Mas agora temos todos vocês” vão de embate com os anteriores “Voar alto é apavorante / Ninguém disse o quão sozinho é aqui”. Com o retorno do assunto em “BE”, BTS explora, por meio de um diálogo interno, o porquê de a solidão persistir e chegam a se perguntar sobre avareza no refrão: “Eu apenas quero ser mais feliz / Estou sendo muito ganancioso?”

A música, tão pessoal e dolorida, contempla a honestidade do grupo com a realidade – os sete jovens são raros na indústria coreana por tratar de assuntos tão importantes e delicados de uma maneira tão aberta e direta. Ter um grupo de tanto sucesso se colocando com fragilidade e insegurança, porém esperança de dias melhores, passa uma mensagem que precisa urgentemente ser disseminada: está tudo bem não estar bem, as coisas vão mudar, não perca a perspectiva de dias melhores.

“Skit”, a primeira faixa não-musical deles desde 2017, é sobre os poucos momentos de positividade que 2020 pode nos oferecer. Nela, ouvimos as reações deles depois de descobrirem que o single “Dynamite” alcançou o primeiro lugar no Billboard Hot 100. Em um tom de que devemos celebrar tudo o que podemos, RM pergunta no final: “Não é assim que a felicidade soa? ”. A faixa também é o momento de quebra do álbum, a partir dela, deixamos a introspecção de lado e focamos nos dias melhores que virão.

Da mesma forma em que “BE” é uma expressão de diversos sentimentos, também possui vários gêneros musicais. Com uma pegada funk e animando todos os ouvintes, “Telepathy” é uma música para as pistas de dança e possui a mesma onda nostálgica do já conhecido single “Dynamite”. Contudo, enquanto o último hit do grupo traduz a experiência completa da Disco Music, divertida e colorida, “Telepathy” é uma faixa mais madura e não tão voltada aos charts quanto o single em inglês do grupo.

Ainda experimentando diferentes áreas, a obra deixa as pistas de dança e vai direto para o old school hip-hop em “Dis-ease”. Em seguida, temos “Stay”, subunit de Jin, Jungkook e RM, que embarca em um EDM animado para nos revigorar. Finalmente, temos “Dynamite” como encerramento do álbum. A faixa destoa do restante da obra, até por não terem sido pensadas em conjunto. A canção é alegre e os integrantes a interpretam muito bem. O curioso é que, ao contrário de todo o “BE”, “Dynamite” é a única parte do disco que não possui a participação dos membros na produção ou composição. Em uma obra que se diferencia pelos detalhes deixados por cada membro, como se tivesse o toque especial de cada um deles, “Dynamite” acaba soando perdida no final da tracklist.

No todo, “BE” é a obra mais pessoal da carreira do BTS, tendo sido descrita por Jin como “uma página dos nossos diários”. Uma experiência nova e quase integralmente autoral, o álbum não decepciona e entrega o que promete: conforto, companhia e esperança.