Limonge desmonta falsos heróis e escancara caos nacional em novo álbum

Por Arthur Souza e Beatriz Vaccari

Passado mais de um ano de pandemia, o Brasil enfrenta a pior crise da história. São vários tipos de crise e colapsos simultâneos, que fazem parte de um projeto de governo em andamento há muito tempo, mas que só foi evidenciado recentemente durante o presente distópico que é morar neste país. A morte por coronavírus foi banalizada. Estados e municípios seguem afrouxando as medidas de distanciamento social enquanto os sistemas de saúde estão lotados, sem leitos para tratar os casos mais graves da doença. Já não há mais espaço para enterrar os 383 mil mortos (Fonte: Consórcio dos Veículos de Imprensa). O cantor e compositor Limonge dedicou o ano de 2020 para entregar em 2021 um retrato da dor e do desconforto brasileiro.

As músicas do novo álbum montam uma crítica satirizada do presidente Jair Bolsonaro (que está sem partido) e dos seguidores bolsonaristas. O artista brinca com a ideia de mito na maioria das faixas. A definição de mito, em resumo, é a criação de uma narrativa, que não é verdadeira, que busca passar uma mensagem, um discurso. O termo é frequentemente usado por seus eleitores para engrandecer o presidente, dar a característica de lenda, salvador da pátria. Essa mitificação é inspiração para a música Dom Quixote, presidente do Brasil, lançada em maio do ano passado, referência para o personagem que carrega o nome da obra do escritor espanhol Miguel de Cervantes Dom Quixote. A primeira edição foi publicada em 1605, século 17, e foi considerada o melhor livro de todos os tempos em 2002. No enredo, o protagonista decide reviver os grandes feitos dos romances de cavalaria da época e cria em sua cabeça uma versão fantasiosa da realidade, acompanhado do fiel escudeiro, Sancho Pança.

Dom Quixote idealiza uma Espanha que já não é mais tão grandiosa como antes, assim como Bolsonaro na música de Limonge. O presidente, iludido por um passado de glórias inexistentes dos anos da ditadura civil-militar (1964-1985), acredita que a salvação para o país é retornar a este espaço do tempo em que os direitos à vida eram restritos. Em maio de 2020, durante o lançamento do clipe, o artista recebeu diversos ataques nas redes sociais por causa das críticas direcionadas a Jair Bolsonaro. 

Dando sequência ao lançamento de singles, O Novo Hino Nacional chegou logo no dia que celebra a Independência do Brasil, 7 de setembro. A ideia da canção surgiu enquanto o cantor assistia ao noticiário, e de acordo com ele, o hino brasileiro não fazia mais sentido com os eventos vividos no país, no ano passado.

A tríade de músicas de protesto, O Novo Hino Nacional, Dom Quixote, Presidente do Brasil e Temporal (Quem é seu Deus?) lançadas em 2020 tornou-se mais tarde um quarteto com o single Fake News. A música é a quarta faixa do disco Desconstruindo Mitos.

Confira também nossa entrevista com cantor sobre as faixas lançadas no ano passado:

Limonge: novo álbum Desconstruindo Mitos
Imagem: Divulgação

Limonge é fã de ironia. Seu deboche para falar de assuntos de cunho político e social vão desde o tom alegre e calmo nas canções que criticam explicitamente o Presidente da República ao dia reservado para o lançamento de seu terceiro álbum de estúdio, 24 de abril, comemorado o dia do gado no Brasil. “É também o dia que estreia meu novo álbum, em clara homenagem a essa data”, escreveu o cantor no Instagram ao anunciar o trabalho.

É contando uma história que o cantor começa seu trabalho na faixa “A Pátria que me Pariu”, utilizando do violão para acordes suaves, mas contrastando a atmosfera leve da melodia com palavrões cantados logo nos primeiros versos. O instrumento marca presença do início ao fim do álbum, quase acústico para dar jus à transparência do diálogo que o compositor propõe.

Além dos singles que seguem a primeira faixa, Limonge homenageia as vidas perdidas pela COVID-19 e critica o tratamento precoce com o uso de cloroquina orientado por Jair Bolsonaro na faixa “Bolso do Brasil”. Em tom melancólico, mas sem desagarrar da ironia, a música termina com um gosto amargo e sem esperanças, resultado do choque de realidade com os números cantados em seus versos.

O deboche, é claro, não toma conta de Desconstruindo Mitos por completo. Em “Desalento”, sétima faixa do trabalho, Limonge retira a armadura e propõe um bate-papo menos sarcástico, compartilhando de preocupações reais, dor e angústia causadas pela incerteza tanto do governo brasileiro quanto da má gestão de crise durante a pandemia de COVID-19. O ritmo se estende para a faixa seguinte, “Falso Messias”, cujos versos cantados exploram a história de Jesus Cristo para contextualizar o cenário catastrófico vivido pelos brasileiros nos últimos anos.

Limonge álbum Desconstruindo Mitos

A última faixa do álbum é a que mais difere sonoramente do restante do disco. Em “Às Armas”, Limonge arrisca a utilizar mais instrumentos musicais e finalizar o trabalho em uma conversa aberta que pede calma e menos raiva, referindo-se ao seu pensamento de que “sua música não visa ofender quem apoia o presidente”, mas sim “questionar a posição dos eleitores”.

Num panorama geral, Desconstruindo Mitos carrega um engajamento social mais forte do que uma versatilidade musical. Limonge permanece com voz e violão, sem desafiar tanto sua voz e técnicas multi-instrumentais, e isso é proposital: não há uma necessidade de expandir musicalidade e diversidade sonora num momento como esse, em que o recado precisa ser dado e bem recebido.

Desconstruindo Mitos chega às plataformas digitais em 24 de abril.

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